sábado, 29 de abril de 2006

O choque de civilizações na Holanda

O jornal «Metro» noticiou ontem que a colunista da edição holandesa, Ebru Umar, de origem turca, que substituiu Theo Van Gogh, foi agredida por jovens marroquinos “por expor, em crónica, pontos de vista controversos sobre a sociedade cultural”.

Há muito que a visão utópica do sucesso multicultural nos Países Baixos enegreceu. À crescente violência e arrogância das minorias, em especial muçulmanas, alguns holandeses tentam dizer não. Grande parte da população autóctone começa a estar farta da política de integração e tolerância, o que explica fenómenos como Pim Fortuyn, assassinado em 2002, e, agora, a crescente popularidade de Rita Verdonk, actual ministra da imigração e da integração, conhecida por posições securitárias e restritivas em relação à imigração que concorre agora a líder do seu partido, o liberal VVD. Mesmo que o discurso se agudize em sectores habitualmente moderados, acompanhando o agravar da situação, penso que a Holanda é uma batalha quase perdida na guerra contra a Europa que é a invasão e colonização imigrante.

sexta-feira, 28 de abril de 2006

Segundo aniversário

Este blog completou mais um ano de existência. Já sabem que não gosto de me alongar em agradecimentos e considerações nestas alturas. Há um ano atrás, no primeiro aniversário, consegui que me oferecessem óptimas prendas. Desta vez, basta um post breve para assinalar a data. Obrigado a todos os que passam por aqui. Eu fico por cá, continuem a acompanhar-me, se quiserem. Há dias, dei por mim a percorrer os arquivos à procura de um texto e lembrei-me que nunca havia sugerido um regresso ao passado do Pena e Espada. Os aniversários são boas alturas para esses exercícios recordatórios... se encontrarem alguma coisa interessante, digam.

Do “perigo” nacionalista

Uma notícia do «Correio da Manhã», baseando-se num relatório do SIS, veio fazer correr rios de tinta sobre o “perigo” nacionalista, mais uma vez. Como já disse aqui várias vezes, o papão da “extrema-direita” é uma aposta ganha para o espírito tablóide da nossa imprensa hoje em dia. Esta última verborreia noticiosa vai merecer-me apenas um breve comentário.

Sobre a conclusão do relatório de que “os movimentos skinhead e neonazis portugueses representam um risco para a segurança interna do país”, faço minhas as palavras do Assur. Sobre o facto de supostamente serem “também potenciadores de conflitos multiculturais entre militantes da extrema-direita e minorias étnicas”, quero apenas perguntar se esses conflitos não serão provocados antes pelas minorias étnicas? Pelo que temos visto no nosso país, à semelhança do que acontece no resto da Europa, as comunidades imigrantes têm uma atitude cada vez mais agressiva e arrogante em relação aos autóctones, que consideram opressores.

Se o movimento nacionalista cresce, é porque cada vez mais portugueses sentem a sua pátria e a sua identidade ameaçadas, ao mesmo tempo que os (des)governantes nada fazem para defender o seu povo e privilegiam os invasores imigrantes, numa atitude etnicida, movidos apenas pelo lucro fácil e imediato. O crescimento das forças nacionalistas não devia levar à sua condenação pública dogmática, mas a uma reflexão séria e objectiva sobre os perigos que ameaçam a Europa e a sobrevivência do nosso Povo e da nossa Civilização.

Invasão imigrante

Apesar de ter sido já comentada na blogosfera, esta é daquelas que não posso deixar de referir aqui. Recentemente, o «Jornal de Angola» noticiava que o país “continua a registar uma invasão desenfreada de cidadãos vindos de vários países africanos”. Não é preciso dizer que me lembrou imediatamente o que se passa actualmente nos países europeus. Sobre o caso angolano, o sub-comissário Delfim Calulo, chefe de estado maior da Polícia de Guarda Fronteiras, disse que: “temos consciência que muito há que fazer, a curto, médio e longo prazo para estancarmos esta imigração ilegal que em certa medida só vem criar grandes problemas de instabilidade, económica, ecológica e política, para além da distorção da nossa cultura”. É bom ver que as autoridades desta ex-colónia reconhecem e se preocupam com este grave problema, ao contrário da ex-metrópole, onde a política é a de abrir as portas cada vez mais e negar, dogmaticamente, os efeitos destrutivos da imigração maciça e desregrada.

Na Europa, quando alguém tem a coragem de ter um discurso semelhante ao deste sub-comissário angolano, é automaticamente etiquetado como “racista”, “xenófobo” e até “nazi”. Será que, neste caso, os fiscais do politicamente correcto também aplicam a Delfim Calulo a fórmula “racista-xenófobo-nazi”?

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Filmes de culto (IX)

Alien, Ridley Scott, 1979.

Música (VI)

Desta vez a música, que vem do outro lado do Atlântico, fala de um processo sócio-cultural de uniformização que nos afecta a todos e chama-se “Américanisés”. É do grupo Trouble Makers e faz parte do álbum “Pax Americana”, editado em 2000.



Américanisés

Promesse de liberté au coeur de la consommation
Perte d'identité au profit de notre soumission
L'empire des temps modernes est dur à démasquer
Les légions du lobbying l'ont bien dissimulé

Le Québécois moyen, n'est plus Québécois
Il est complètement perdu dans cette jungle médiatisée
Quand il parle de politique, il dit n'importe quoi
Du moment que nos voisins sont là pour nous sauver

Ref. : La mondialisation, oui, mais au profit de qui ?
Nous sommes des moutons d'avoir acheté leurs produits
La mondialisation, non, n'est pas ce que vous pensiez
Il est déjà déjà trop tard, nous sommes déjà tous...

Américanisés !!!
Nous sommes déjà tous américanisés !

En bordure de l'empire, certains ne cessent de résister
Mais ça va de mal en pis, va t-on se laisser assimiler ?
Car une partie de nos frères aimeraient bien se faire acheter
Le rêve américain les a tous aveuglé

Ne reculant devant rien, la police de la paix
Fait appliquer sa loi aux quatre coins de la terre
Et ceux qui résistent, sont encore ceux qui paient
Il y aura toujours une cible valable pour ces tyrans camouflés

segunda-feira, 24 de abril de 2006

“Os falhanços da sociedade multirracial”

Este não é o título de um artigo de uma publicação “racista” ou “xenófoba”, mas do insuspeito «Courrier Internacional», que o retirou de um jornal malaio. Refere-se ao caso da Malásia, na qual têm sido feitos diversos esforços e tomadas várias medidas para que a sua sociedade multirracial viva em harmonia e seja um exemplo para o resto do mundo. Apesar disso, nesta população de 25 milhões de habitantes, dos quais 60% são malaios, 26% chineses e 8% indianos, o racismo está implantado na sociedade, como o demonstra um inquérito realizado recentemente. Um investigador, citado na notícia, diz que “os critérios étnicos estão presentes a todos os níveis da vida pública”. Um advogado, líder de um dos quatro partidos multi-étnicos locais e defensor da proibição de partidos fundados com base na origem étnica, explica que “as comunidades vivem em paz, mas cada uma no seu canto. Temos escolas separadas, amigos separados, vidas separadas.” Vemos, assim, que a aparente situação pacífica se deve a uma espécie de apartheid de origem popular, não institucional, apesar de todos os esforços governamentais em contrário.

Lembro-me de Guillaume Faye, quando afirma que as sociedades multirraciais são, na realidade, sociedades multirracistas. E a Malásia é, como podemos observar, um caso onde isso acontece claramente. Talvez esta situação seja mais falada que outras e motive títulos de jornal como este, por um dos grupos étnicos em causa não ser de origem europeia. Porque, nesse caso, os intelectuais do politicamente correcto já tinham um pronto-a-culpar.

O mais espantoso é que se continue a insistir na aplição à Europa desta perigosa receita, que tão maus resultados tem dado. Que os nossos adversários e inimigos nos queiram impingir a utópica sociedade multirracial e multicultural, com o intuito de destruir o nosso povo e a nossa civilização, ainda entendo, pois o seu objectivo é o nosso enfraquecimento e, consequentemente, o nosso fim. Agora que nós — europeus — aceitemos passivamente a nossa destruição, como cordeiros no matadouro, revolta-me!

Um debate necessário


A Juventude Nacionalista teve a excelente ideia de realizar um colóquio sobre uma questão sobre a qual é necessário reflectir sem tabus ideológicos ou filtros politicamente correctos: o 25 de Abril e as suas consequências. Nesta iniciativa louvável serão oradores José Henriques, da FN, Bruno Oliveira Santos, do PNR, e Álvaro Fernandes, da TIR. A coisa promete, por isso toca a abrir a agenda e reservar a tarde de amanhã.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Sam Peckinpah

No bem conseguido suplemento de artes «6.ª», parte integrante do «Diário de Notícias» às sextas-feiras, o Eurico de Barros faz hoje o elogio do incontornável Sam Peckinpah, que considera um dos nomes mais injustamente secundarizados “nas muitas revisões do tempo em que o cinema americano quebrou os laços mitológicos com o seu classicismo”. De seguida, chama a atenção para a projecção da versão Director's cut de “Pat Garrett and Billy the Kid”, de 1973, uma cópia restaurada com mais 16 minutos de cenas, no IndieLisboa, o Festival Internacional de Cinema Independente que vai já na sua terceira edição. Uma óptima sugestão.

Raça e Medicina

O FSantos já havia referido os medicamentos específicos para determinada raça, ao falar do Cozaar, num post a que chamou “Medicamento racista”, isto ainda na sua antiga casa.

Agora, é o «Economist» que nos dá conta de que a pesquisa médica começa a ter em conta a raça das pessoas. É claro que esta questão está, obviamente, longe de ser pacífica. Mas este não deixa de ser um sinal de que alguns tabus politicamente correctos possam estar a cair.

Pode ser que aqueles que tanto atacam o “fundamentalismo biológico” se apercebam que o seu fundamentalismo, cultural ou espiritual, tem igualmente pés de barro. Porque há coisas que não são pretas nem brancas…

“Política e Estratégia”

Nas primeiras páginas do último número da revista «Futuro Presente», na secção “Cartas dos Leitores”, leio o extracto de uma chamada de atenção que fiz sobre as gralhas e erros ortográficos — como não podia deixar de ser — que encontrei no n.º 58, onde lera o excelente e oportuno texto que muito bem alertava para a falta de revisores. Obrigado ao Miguel Freitas da Costa pela resposta e pelo interesse nesta minha crítica construtiva. O tema central do n.º 60 é “Política e Estratégia” e, a abrir os artigos de fundo, podemos ler “Ética, Política e Sociedade”, de Alexandre Franco de Sá, seguem-se umas “Reflexões (im)políticas sobre Portugal”, de Jaime Nogueira Pinto, e as óptimas “Notas actuais sobre a Teoria do Partisan”, de Teodoro Klitsche de la Grange. Nesta edição merece destaque “Al-Qaeda: a Doutrina”, de Yvan Blot, uma excelente análise dos textos de quatro dirigentes do islamismo radical, para melhor compreendermos as suas posições. Da síntese que faz, depois de tratar, em separado, os textos de Ossama Bin Laden, Abdallah Azzam, Ayman al-Zawahiri e Abu Mussab Al-Zarkawi, cito, de seguida, algumas conclusões. Para a doutrina islamita, de natureza político-religiosa, onde a separação entre religião e política não tem qualquer sentido, para os seus autores, “a soberania de Deus não pode ser partilhada, portanto, a democracia que afirma a soberania do povo é considerada ímpia”, por outro lado “a religião só prospera se estiver territorializada” e “não se deve aceitar a submissão a não-muçulmanos ou àqueles que são muçulmanos hipócritas”, por fim, no que respeita aos seus inimigos declarados, “a guerra não pode ficar limitada ao território muçulmano mas deve ser exportada para a Europa e para a América”.

Filmes de culto (VII)

Blue Velvet, David Lynch, 1986.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Presidentes militares de Portugal

No último número do «Lanceiro», o 24, referente ao mês de Março, destaco o excelente artigo “Presidente militares de Portugal”, da autoria de Roberto de Moraes. Tratando concisamente os dez presidentes militares, de Sidónio Pais a Ramalho Eanes, este jornalista e historiador vai além das meras notas biográficas de cada um deles, “salpicando o todo com alguns traços pessoais e informação de várias ordens, pois a História tem um rosto”, nas suas palavras. De facto, ao apontar, por diversas vezes, aspectos singulares do percurso de alguns dos presidentes, bem como aspectos da personalidade de cada um, torna este tema alargado mais interessante e de leitura mais agradável. Para além disso, faz ainda apontamentos perspicazes acerca dos quadros existentes no Palácio de Belém de muitos dos retratados. Um óptimo texto para melhor compreender as figuras que fizeram cruzar a instituição militar e a Presidência da República na nossa História.

“Matando a Sede nas Fontes de Fátima”

Finalmente tenho em mãos o recém-publicado “Matando a Sede nas Fontes de Fátima”, de que falei aqui no início da semana. Numa óptima edição da Antília, com uma capa com um excelente grafismo, a colectânea de poemas é precedida de um elóquio de António Manuel Couto Viana e encerrada com um posfácio de Silva Resende, que considera que “desde Moreira das Neves que nenhum outro escritor baptizava com tão filial delicadeza as suas musas na água lustral de Fátima”. Um livro formidável, onde a magistral poesia de Rodrigo Emílio é marcada pelo sentimento e pela espiritualidade. Dessas páginas devotas retiro um poema que tive já oportunidade de ouvir várias vezes cantado por José Campos e Sousa:

LITANIA POLONESA

Muito para o Zé Campos e Sousa — que consagrou musicalmente esta “Polonesa”, submetendo-a aos cuidados e à magia da sua voz de trovador d’império e ao seu talento de compositor.

Presos vão…, mas ‘stão de pé!
Dando as mãos — chegam e sobram!
(— Por quem é
que os sinos dobram?
Por quem é
que os sinos dobram?...)

Espaldados pela fé,
‘stão de pé — e não soçobram!
(— Por quem é
que os sinos dobram?
Por quem é
que os sinos dobram?...)

Frente ao mar, no interior,
nos estaleiros
navais,
nas minas,
reina o Horror:
é ano e senhor;
paira o Pavor
sobre ruínas.

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!


Os ecos dos tchecos,
quem é que os apaga?...
— Gipões soviéticos
irrompem em Praga.

…Já antes, já antes
— em lôbrego dia —
à força de tanques
se esmaga a Hungria.

— E o muro gelado,
d’arame farpado,
que corta Berlim?!...

— E o eco do brado
sem fim abafado
no ensopado
e ensanguentado
chão de Katyn?...

Foi tudo gelado
assim… Sempre assim!

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!


Soma e segue a multidão
dos que, à invasão de russos,
não podem opor senão
mais do que uma solução
de silêncios e soluços…

E por mais
que a Providência
dê sinais
de impaciência,
o rumo traçado,
p’ra todos talhado
é um — e só um:
encontro marcado
na vala comum!

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!

Rodrigo Emílio

A jihad que muitos se recusam a ver

A guerra santa empreendida pelo Islão contra o Ocidente e, no que nos diz directamente respeito, contra a Europa, está à vista de todos, mas muitos recusam-se a constatar essa realidade evidente. Esta cegueira auto-induzida deve-se principalmente àquilo a que chamo a micropolítica, ou seja, a preocupação com diferenças e pormenores ínfimos ignorando o essencial, que neste caso é um conflito civilizacional à escala mundial. Não interessa aqui se se é de “esquerda” ou de “direita”, se se é ou não cristão, se se acredita ou não numa Europa federal, entre tantas outras posições, para ver the big picture. Como já escrevi muitas vezes, nós não escolhemos os nossos inimigos. Assim, por muito que alguns queiram recusar a guerra declarada pelo Islão, tal atitude não vai simplesmente fazê-la desaparecer. Os atentados terroristas islâmicos não são obra de “meia dúzia de fundamentalistas enlouquecidos”, como pretendem alguns bem-pensantes. Estes ataques têm objectivos claros e definidos, baseiam-se numa crença religiosa profunda que pretende que o Islão domine o mundo, e os seus autores sentem-se guiados por uma vontade divina. Eles cumprem o seu dever como muçulmanos, no plano espiritual, ao mesmo tempo que influenciam directamente os acontecimentos políticos, no plano material. Não se tratam de acções tresloucadas, mas de ataques cirúrgicos. Um claro exemplo disso foi o terrível atentado de 11 de Março de 2004, em Madrid, na vizinha Espanha.

Sobre este assunto versa hoje a excelente análise de Luciano Amaral no «Diário de Notícias», que reflecte sobre o conteúdo do auto de acusação emitido pelo juiz Juan del Olmo aos autores do atentado de 11-M. Aí é apresentado como prova pelo juiz um texto posto a circular na internet, segundo o qual “deveria "aproveitar-se ao máximo a proximidade da data das eleições gerais em Espanha", pois um atentado espectacular faria com que "a vitória do Partido Socialista [fosse] praticamente garantida e a retirada das tropas espanholas [do Iraque] está na lista do seu projecto eleitoral"”. Como muito bem considera o autor, “o dia 11 de Março de 2004 ficará na História como aquele em que um grupo terrorista islâmico quis ter e teve um efeito directo e determinante no resultado de umas eleições na Europa ocidental”.

Quanto à motivação dos autores do atentado, o auto de acusação refere que estes “foram claramente movidos pelo espírito da jihad (ou guerra santa), neste caso concreto ainda mais legitimado pela ideia corrente no Islão de que a Espanha (e Portugal) correspondem ao Al-Andalus (o nome dado à Península Ibérica pelos ocupantes muçulmanos entre o séc. VIII e o séc. XV), uma terra roubada ao Islão pelo cristianismo e que para ele deveria ser reconquistada. Não se pense que esta relíquia intelectual é própria apenas dos jihadistas do 11 de Março. Os outros jihadistas também a invocam - Ayman al-Zawahiri, o lugar-tenente de Ben Laden, já o fez -, mas, mais interessante ainda, o mesmo fizeram personagens supostamente moderadas, como o Rei de Marrocos. Porque, na verdade, o tema não é lateral no Islão, estando associado a uma suposta profecia de Maomé (registada num hadith), segundo a qual o Islão viria um dia a reinar na Península Ibérica. Coisa que já fez, precisamente entre os séc. VIII e XV. Agora trata-se de recuperar esse "paraíso perdido"”.

Luciano Amaral diz claramente: “Parece que o quadro existente não deveria oferecer dúvidas: está em curso uma jihad contra o Ocidente, da qual, como subobjectivo específico, até consta a reconquista do Al-Andalus para o Islão.” Mesmo assim há quem não queira ver, por isso chamou ao seu artigo “Compreensão lenta”.

quarta-feira, 19 de abril de 2006

O mau jornalismo habitual (III)

Lendo a secção internacional do «Diário de Notícias» de hoje, eis que deparo com mais uma notícia condimentada. Começa logo pelo título, “Subida de racistas assusta partidos”. Nada como o racismo e o medo para chamar a atenção do leitor e fazê-lo ler o texto até ao fim.

Basicamente, a notícia consiste na subida da intenção de voto no British National Party, por parte dos eleitores britânicos, e a preocupação dos restantes partidos, que vêem as suas posições confortáveis ameaçadas. Mas, claro está que, para o actual “jornalismo” politicamente correcto, esta é uma “má” notícia. Assim, toca de temperar a coisa e considerar, à partida, o BNPum partido de orientação fascista”. Felizmente, vivemos na era da internet e a consulta das posições e estatutos do partido em causa é fácil e rápida, mas pelos vistos isso não interessa quando se fabricam notícias. Continuando, o correspondente do «DN» dá-nos conta que a ministra do Emprego britânica ficou chocada ao conhecer a “incorrecta” intenção de voto de cada vez mais londrinos, que se deve, segundo um inquérito, ao “sentimento de "impotência e frustração" das comunidades de trabalhadores brancos”. Chocados devemos ficar todos nós, trabalhadores europeus, que assistimos à crescente falta de preocupação e consideração pelas nossas condições laborais por parte dos que nos (des)governam, ao mesmo tempo que estes se concentram em ajudar e privilegiar as massas imigrantes que invadem a nossa terra. Devemos também ficar chocados ao ver altos responsáveis políticos condenarem publicamente a livre escolha a que os cidadãos têm direito num estado democrático. Esta questão leva-nos de novo à notícia, onde é dito que “outra conclusão "preocupante" citada pelos investigadores é que muitos milhares de eleitores deixaram de ter vergonha em assumir o voto no BNP”. Preocupante, numa democracia, deveria ser o facto de alguém ter vergonha das suas livres opções políticas, sejam elas quais forem, nunca o contrário.

Para terminar, apesar de estar mais que justificado o título deste post, devo ainda dizer que o jornalista nem se dignou a confirmar o nome do líder do BNP, chamando-lhe “Nick Grifais”. Já agora, para que conste, o nome dele é Nick Griffin. Bastava ter ido à internet, como disse atrás, mas parece que brio profissional é algo que rareia actualmente nesta classe.

terça-feira, 18 de abril de 2006

Filmes de culto (VI)

Fight Club, David Fincher, 1999.

“Crimes” e criminosos

Mais uma vez as notícias nos deram conta da prisão de Pedro Varela e de um ataque institucional à Librería Europa. A fotografia de Varela à porta da sua livraria algemado por polícias encapuçados ilustra bem o estado a que o controlo de pensamento chegou no “Ocidente livre”. O “crime” neste caso, que se arrasta há anos, é publicar e vender livros cujas ideias são “politicamente incorrectas”. Só para que se retenham, repito as palavras-chave da frase anterior: crime, livros e ideias. Há algo que não bate, ou não devia bater, certo. “Genocídio”, “racismo” e “xenofobia” são chavões para justificar a apreensão de milhares de livros — que vão desde os históricos e datados aos contemporâneos e de investigação —, alguns computadores, bem como diverso material, no qual se incluem até quadros retirados das paredes. A ditadura do politicamente correcto sabe que pensar prejudica gravemente o pensamento único que quer impor a toda a força.

Tudo isto não é, infelizmente, novidade para Pedro Varela e a equipa da sua livraria. Quando estive pela primeira vez na Librería Europa, já lá vão meia dúzia de anos, falei com Maite Varela, irmã de Pedro, que me contou as peripécias do último ataque institucional e com uma apreensão idêntica a esta, assim como das manifestações e ataques à livraria por parte da extrema-esquerda que se seguiram, perante a passividade das autoridades locais. Mesmo depois da entrada da Europa ter sido incendiada, os vidros partidos e muitos livros destruídos, as portas abriram-se ao público pouco depois, numa demonstração de tenacidade e firmeza. Casos como estes levam-nos a questionar quem são os verdadeiros criminosos e se foram realmente cometidos crimes.

Para os bem-pensantes que ordenaram esta perseguição, eu também devo ter cometido algum crime ao lá comprar livros, para depois fazer ainda pior — lê-los! Leitura e reflexão, consciência crítica e opinião divergente: “crimes” na actual sociedade do pronto-a-pensar. Que irá na cabeça desses censores “democráticos” quanto ao destino final dos livros apreendidos? A fogueira? Não, não pode ser, quem pensava assim eram “os outros”, hoje há liberdade…

segunda-feira, 17 de abril de 2006

The Man in the High Castle

Como se falou aqui em Philip K. Dick, mestre da ficção científica, não posso deixar de fazer uma referência obrigatória ao excelente “The Man in the High Castle”. Nesta incursão pelo universo da história alternativa, PKD apresenta-nos um mundo onde o Eixo ganhou a II Guerra Mundial e os EUA estão, por isso, ocupados na costa leste pelos alemães e na costa oeste pelos japoneses. No centro, os Rocky Mountain States são autónomos e é aí que vive o autor do muito popular e lido, apesar de censurado nas zonas ocupadas: “The Grasshopper Lies Heavy”. Este “livro-dentro-do-livro” conta uma versão diferente da História, na qual os Aliados ganharam a guerra. Mas as surpresas desta obra de Dick não ficam por aqui, quando nada é o que parece, é a própria realidade que fica em causa…

Mais um livro do Rodrigo


A editora Antília continua a manter acesa a chama da obra do poeta Rodrigo Emílio. Depois de “Pequeno Presépio de Poemas de Natal”, publicado no ano passado, vai lançar agora “Matando a Sede nas Fontes de Fátima”. Mais uma iniciativa louvável para divulgar e preservar o trabalho de um autor tão injustiçado.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

Filmes de culto (V)

Blade Runner, Ridley Scott, 1982.

já tão próximo o fim...

Já tão próximo o fim e tão absurdo
Mas não não é possível
— qualquer coisa há-de vir depois de tudo
súbita imprevisível

Nada estará perdido enquanto houver
em nós alguma fé
Mesmo que só a morte nos espere
— morreremos de pé

José Manuel
in «Tempo Presente» n.º 22 (1961).

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Filmes de culto (IV)


The Deer Hunter, Michael Cimino, 1979.

O regresso do que não foi

Depois da tempestade, a bonança. O Paulo está de volta sem nunca se ter realmente ido embora. Melhor para ele e, especialmente, para nós. Cá ficamos ansiosamente a aguardar o início da produção do nosso amigo, que regressou com uma calma penada.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

O mau jornalismo habitual (II)

Mais um caso que convém registar. Leio no «Diário de Notícias» que “o director da revista Mais Alentejo, António Sancho, corre o risco de se tornar o primeiro jornalista a cumprir pena de prisão efectiva em Portugal, após o 25 de Abril, por um crime de liberdade de imprensa.” Como não podia deixar de ser, o meu amigo Pedro Guedes deu logo conta disso e reagiu prontamente. Lembrou Manuel Maria Múrias, preso “democraticamente” por este crime.

Filmes de culto (III)

A Clockwork Orange, Stanley Kubrick, 1971.

Legendagem

Sobre a série de posts sobre filmes que para mim são de culto, que iniciei há dias, o meu amigo Mendo sugeriu-me que acrescentasse à legenda o realizador da obra. Segundo ele, seria “pedagogia”. Recusei inicialmente a sugestão e justifiquei-me reencaminhando os possíveis interessados para o Google. Mas ele voltou à carga dizendo que “todas as obras devem ser assinadas”, ainda para mais estando lá o título e a data. Uma coisa é certa: de cinema e pedagogia sabe ele bem mais do que eu. E, nestes casos, só há uma coisa a fazer: acatar uma sugestão oportuna. Assim, não só a partir de agora a legenda incluirá o realizador do filme, como os posts anteriores serão revistos.

terça-feira, 11 de abril de 2006

O misantropo desenjaulado

Na minha visita habitual à casa do meu caríssimo amigo Paulo Cunha Porto, esbarro com a má notícia do dia. Vai fechar a loja e parece que é de vez. Lá vamos nós iniciar mais uma campanha para o regresso de um blog que, apesar de nos ter habituado a um grande número de posts todos os dias, sempre se caracterizou por elevada qualidade, ganhando em pouco tempo um merecido lugar de referência na blogosfera. Mas, conhecendo-o como penso conhecer, não me parece que ceda. Justifica-se com “alterações da sua vida”, razões que respeito, como não podia deixar de ser.

É caso para perguntar: O misantropo desenjaulou-se?
Paulo, temos que ir almoçar…

Filmes de culto (II)

Apocalypse Now, Francis Ford Coppola, 1979.

Faz o que eu digo…

Da edição de hoje do semanário «O Diabo», onde o destaque vai para o comentário de vários especialistas à “estratégia publicitária” do governo responsável pelo interminável “estado de graça” nos media do executivo do PS, sob o título “Máquina de propaganda de Sócrates está a construir país virtual”, transcrevo aqui uma das sempre recomendáveis “Coisas de o Diabo”:

«A cumplicidade no silêncio
Ir a Angola e não ter uma palavra, ainda que diplomática, a demarcar-se da política de corrupção endémica praticada, sem cessar, há mais de trinta anos, por um dos maiores cleptocratas a nível mundial, não é apenas um lamentável acto de cumplicidade com a “nomenklatura” angolana. É, acima de tudo, um gesto de desumano desprezo e até de agressão psicológica a um povo inerme e tiranizado, faminto de pão e justiça.
Sócrates e o seu governo têm cada vez menos autoridade para nos pregar o habitual e hipócrita discurso da moralidade pública.
»

O mau jornalismo habitual

Na blogosfera são frequentes as críticas ao mau jornalismo que já se tornou habitual no nosso país. Da “esquerda” à “direita”, das instituições aos particulares, dos mais aos menos conhecidos, you name it… Tenho lido casos onde o que vem a público chega a ser o oposto daquilo que se passou. Lembro-me, por exemplo, de recentemente Pacheco Pereira, por altura do congresso do PSD, se queixar da deturpação das suas palavras na imprensa.

Um caso no último fim-de-semana envolve a chamada “extrema-direita”, que a imprensa tanto gosta de retratar como a “fonte de todos os males”. Para “apicantar” a notícia sobre a deslocação à Alemanha de polícias portugueses por ocasião do Mundial de Futebol, muitos media acrescentaram que o “perigo” estava em 15 membros da FN que vão estar na mesma altura no país para outro evento. Mais, no canal de Balsemão, as imagens escolhidas para ilustrar esta notícia temperada foram as da homenagem aos portugueses assassinados na África do Sul, organizada pelo PNR e pela FN e que decorreu ordeiramente, como é hábito, sem quaisquer incidentes.

Nesta crescente tabloidização dos media, o estereótipo do “papão da extrema-direita” é sempre uma aposta ganha. E assim se desrespeitam o público, a profissão, as organizações difamadas e, neste caso, até os nossos compatriotas mortos no violento pós-Apartheid.

domingo, 9 de abril de 2006

Na Presidência nada de novo

O Presidente da República deu o seu aval ao subsídio para matar os portugueses que é a nova lei da nacionalidade. Outra coisa dificilmente seria de esperar. Um assunto de extrema importância, como este, não foi debatido a nível nacional e não foram tidas em conta as suas graves consequências a médio-longo prazo, acabando por ser votado, como escrevi na altura, “com a mesma indiferença e ignorância como se do horário de funcionamento das lotas de tratasse”. Na Assembleia da República não houve votos contra e dos grupos parlamentares que se abstiveram, o do BE queria ainda mais facilitismos (!) e o do CDS-PP, que havia apresentado algumas (poucas) críticas, confessou-se depois refém de disciplina partidária.

Ora a notícia vinda a «Público» ontem, diz que “Cavaco não cede ao CDS e promulga lei da nacionalidade”. Como se o Presidente, nesta partidocracia, pudesse contrariar uma votação maioritária, na qual se incluía o seu próprio partido, atendendo a quem se primeiro se absteve e mais tarde se lembrou da asneira que fez... Não sei se Cavaco queria promulgar esta lei assassina, ou se o fez contrariado. O que vemos é que os “medos”, apregoados pela “esquerda”, de um presidente intervencionista parecem não ter fundamento. Por outro lado, as supostas preocupações do partido de Ribeiro e Castro parece que se tornaram, de um dia para o outro, em oportunidade de crescimento pois, segundo notícia hoje divulgada, o “CDS-PP quer africanos a participar activamente no partido”.

Música (V)

Estava na altura de “mudar o disco” — de tal forma que fui até lembrado disso nos comentários — e por isso, continuando em italiano, aqui fica “Nella macchina di Marco”, música do primeiro álbum do grupo Aurora, intitulado “Dritto al cuore di chi crede” e com data de 2001.

Nella macchina di Marco

Nella macchina di Marco
Secchio e colla e scopa accanto
Nel silenzio della notte
Giran quattro teste matte

A cercare nuovi muri
A vegliare su striscioni
A punire i traditori
Ed a cantar strane canzoni

Nella macchina di Marco
La sua bella lo guarda negli occhi
Parcheggiato sotto la luna
E lui pensa che fortuna!

Un amore così grande
Capitato tanto presto
Poi lei dice mi dispiace
Questa musica non mi si addice

E la radio che va canta solo di sangue e vittoria
E la radio che va è l'orgoglio di una storia
Le cassette di Marco hanno tutte un certo impegno
Un impero lontano, un destino un grande sogno

Nella macchina di Marco
Ammaccata dai compagni
Volantini o manifesti
Nel silenzio tanti miti

Le torce degli sbirri
Le risate dei fratelli
Tappetini sempre sporchi
Del sudore dei nostri sogni

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Ainda o Canadá

A questão dos cidadãos portugueses expulsos do Canadá vai ainda merecer aqui um breve comentário. Pensei que a minha posição sobre a imigração ilegal era clara, mas o assunto fez com que alguns amigos me interpelassem directamente e alguns leitores via correio electrónico. O governo canadiano procedeu bem e o seu exemplo, neste aspecto, deve ser seguido. Acho que não é preciso lembrar que se trata de um país que recebe milhares de imigrantes anualmente, mas com regras. É claro que as suas políticas de imigração não devem ser um modelo para a Europa, mas o rápido cumprimento da lei e a celeridade dos processos de expulsão devem ser, obviamente, saudados.

Quanto aos aspectos caricatos deste episódio, devo dizer que não gosto de ver portugueses a utilizar o esquema da “mentirinha piedosa” e dizer que são perseguidos política ou religiosamente no seu país, para fintar o processo de legalização. Por outro lado, há um contraste claro na preocupação relativamente às condições de recepção de imigrantes ilegais em Portugal e no acolhimento de portugueses de origem, como desta vez, onde nada foi feito. Por fim, quanto à performance do actual ministro dos Negócios Estrangeiros, as suas figuras — tristes — continuam a falar por si.

Para terminar, como muito bem disse o BOS, os nossos compatriotas emigrados que mais necessitam de uma tomada de posição do governo português são os que residem na África do Sul, mas esse assunto é, pelos vistos, “inconveniente”…

Não há duas sem três

Já nos fez uma, para depois fazer outra. Ficamos à espera...

terça-feira, 4 de abril de 2006

a morte

a morte tem um corpo
depois de si. A sílaba final
que lhe dá a consistência
é tão corpórea que é taça
de perecimento. A morte
é uma sílaba tão delicada
que é metade e todo da palavra.
Traz em si arreganhos
e naus embriagadas,
e um éter tão éter
que um pássaro basta
para lhe dar vida.
A palavra morte é a própria morte.
É um substantivo tão profundo
que a sua face
é curso, e é vária.
Não em texto
que a descreva
— é tão egoísta e escusa
que só poucos dão por ela
ou dela se alimentam.

José Valle de Figueiredo

in «Tempo Presente» n.º 19 (Novembro de 1960).

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (II)

No seu livro “La Torche et le Glaive”, escreve estas palavras soberbas: «Escrever para mim não é um prazer nem um privilégio. É um trabalho como outro. Redigir um artigo ou distribuir folhetos são actos do mesmo valor (...) Escrever deve ser um jogo perigoso. É a única nobreza do escritor, a sua única maneira de participar nas lutas da vida». Ora, ao reler Dominique de Roux, qual não foi a surpresa de encontrar palavras semelhantes e escritas quase na mesma altura: «Neste últimos anos, compreendi o seguinte: a literatura e a acção revolucionária directa são, as duas, modalidades de aproximação à morte (...) É através da morte que a literatura se torna acção revolucionária e é pela morte que a acção revolucionária encontra a literatura». Não parece hoje usurpador ver nele um aventureiro das letras.
Com estas confidências, e com o risco de nos repetirmos, a aventura do próximo século não será mais interior? Entendida pela atitude que podemos qualificar de “Torna-te aquilo que és”. Não é esse no final o objectivo superior destinado à literatura, como os seus escritos nos deixam a pensar?


JM: Em primeiro lugar, não tenhamos muitas ilusões, nós os escritores, sobre a importância destas “aventuras” que são os nossos livros. Não sabemos bem que uso lhes darão os nossos leitores. Assim a influência de um Barrès parecia-nos ontem surpreendente e hoje inacreditável.
Sou de uma geração marcada com um ferro em brasa por Montherland e Malraux. Devo dizer que Sartre e Camus me pareceram de seguida de um enfado tremendo. Voltámos à literatura “fim de século” com o estetismo mediterrânico e o intelectualismo dreyfusiano.
O contra-ataque dos “Hussardos” pareceu-me menos pertinente que o dos rapazes da fornada seguinte, especialmente Dominique de Roux e Jean-Edern Hallier. Devemos juntar Jean-René Huguenin e Jean de Brem, mas morreram muito cedo.
Há que falar na morte. Dominique como Jean-Edern tinham esse fascínio, a presciência. É uma reflexão que não vem apenas com a idade. Aqui, mais uma vez, encontramos Malraux. A ideia trágica da vida. Põe de seguida uma espécie de oposição entre “acção interior” e “acção exerior”. Há aí uma tentação: a via real Guénon/Evola. Ela interessa-me, mas é um caminho que não me atrai muito. Sou mais fascinado, na mesma ordem de espírito, pela dialéctica paz/guerra. Digamos Giono/Malraux (sempre ele). Nietzsche pressentiu tudo isto muito bem. A tentação da torre de marfim choca com a brutal afirmação de que a rua pertence àquele que a desce.
É evidente que para um escritor, o acto de escrever é interior e o acto de publicar exterior. Duas aventuras estritamente complementares. Parece-me que faz alusão à “política”. Tanto a sua versão política e politiqueira me é totalmente estranha, tanto a saída da cidade, da minha pátria carnal na Europa, não deixou de me atormentar. Daqui, uma reflexão sobre o Estado, no qual o fim deve ser o de “fortificar” o povo e não o de servir uma ideologia.

Sempre no mesmo registo, mas outra aventura também intrinsecamente vivida desde há quase cinquenta anos, o envolvimento federalista, que combina no mesmo carácter absoluto o europeísmo e a defesa das identidades carnais. Diz no Manifesto pelo renascimento da cultura normanda que a cultura francesa apenas será salva pelo seu retorno às origens nas suas tradições regionais e a sua abertura à Europa das letras. Pode precisar?

JM: A identidade de um povo é tanto o seu espírito como a sua carne. É por isso que o “cultural primeiro” me parece mais decisivo que o famoso “político primeiro” de Maurras. Na verdade, eu não nego a visão política. Mas eu situo-a fora das múltiplas e nefastas contingências actuais. Para mim, tudo se resume na dialética, digamos antes o confronto, entre estas duas entidades, não-contraditórias mas complementares, que é o Império, ou seja a Europa, e os povos que não se confundem certamente com os estados-nações existentes.
A Europa, se quer preservar a sua identidade e afirmar-se em relação ao resto do mundo, quer dizer resistente em primeiro lugar e antes de tudo ao imperialismo americano, deve ser antes de tudo una e diversa.
Una politicamente, militarmente, diplomaticamente, economicamente. Mas diversa culturalmente. É por isso que a França só tem significado ao assegurar em primeiro lugar o que a Plêiade chamava “a defesa e ilustração da língua francesa”. Neste domínio, o papel da Valónia como o da Suíça românica é capital, mesmo se estas duas entidades exaltem o desprezo do parisianismo mais estéril.
Esta cultura francesa, encarnada numa língua, só poderá encontrar alguma ao integrar todas as suas especificidades regionais.
Não falo aqui das línguas ditas “minoritárias”, bretão, flamengo, alemão, corso, catalão, basco, occitano, mas também dos diferentes dialectos de Oil, como do que chamamos o “francês regional”, que varia segundo as províncias e os costumes.
A actual promoção da “linguagem dos subúrbios” leva a um terrível empobrecimento, entre outros factores pelo emprego do “verlan”[1], que é contrário de uma criação para se tornar uma mecânica.
Manter a linguagem escrita contra a linguagem falada é um dos aspectos da guerra cultural. Isto choca certamente na modernidade que conhecerá em breve uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare.
Esta atitude implica a preocupação com as “humanidades” como se dizia em tempos, ou seja o conhecimento do grego e do latim. Devemos aí juntar, para as pátrias carnais respeitantes, uma certa conivência com as suas raízes mais profundas. Ou seja, na Normandia, por exemplo, as noções elementares sobre o modo nórdico primitivo que nos permitirá manter a ligação com a nossa cultura mais antiga.


E porque para si a aventura continua, pode, para os leitores de «Nouvelles de Synergies Européennes», indicar-nos algumas pistas de leitura...

JM: Não tenho de momento o projecto de escrever um grande documento sobre a Segunda Guerra Mundial, apesar de estar longe de terminar com o vasto panorama dos “corpos de elite”, começado há quase trinta anos na editora Balland. Falte-me escrever dois volumes da História dos voluntários franceses na frente Leste: 1943 e 1944. Espero que o meu amigo Eric Lefèvre me forneça como fez no passado, os documentos necessários à evocação dessa aventura. Deixo a outros o encargo de evocar as motivações e os combates dos voluntários bálticos, ucranianos ou húngaros. Isso exigir-me-ia muito tempo em pesquisas e traduções.
Depois de Béring e Amundsen, tinha o desejo de fazer reviver outros exploradores polares como o sueco Nordenskjöld e o dinamarquês Rasmussen. Mas o mercado do livro e a falta de curiosidade do público são tais que não considero lançar-me nessas aventuras. Agora, concentro-me nas minhas crónicas de “Que lire?”. O volume 6 está terminado e deve sair no fim deste ano. Já vou em mais de 450 escritores e faltam-me cerca de duzentos autores que considero indispensável tratar.
Tenho também a intenção de dedicar um livro a esse mistério que é a permanência da Normandia desde há onze séculos. O meu projecto de uma gigantesca História dos escritores normandos, em vários volumes, continua neste momento num estado de notas e fichas, falta encontrar um editor suficientemente ousado.
Quanto ao romance sobre a última guerra sobre o qual tenho a ideia há mais de meio século, será talvez reduzido a uma simples novela.

Da parte da redacção, Jean Mabire, obrigado.
[1] N. do T.: tipo de calão que consiste na inversão das sílabas de certas palavras.

domingo, 2 de abril de 2006

Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (I)


Traduzi recentemente uma entrevista com Jean Mabire, feita por Laurent Schang para a revista «Nouvelles de Synergies Européennes», para publicação numa página de internet galega, ainda em construção. O seu recente falecimento justifica que eu antecipe aqui a publicação dessa excelente conversa, que dividi em duas partes: a primeira em baixo e a segunda noutro post, que publicarei amanhã.


Jean Mabire quaisquer que sejam os domínios que tenha abordado nos seus noventa e poucos volumes publicados até hoje (170, aliás, como nos disse Jean Mabire na carta que acompanhou as suas respostas), dos SS franceses aos 55 dias de Pequim, de Amundsen à História da Normandia, sempre entre linhas, quando não em evidência, uma ideia recorrente, melhor dito, uma certa definição do homem, na qual os valores podem resumir-se numa palavra: a aventura.
Jean Hohbarr não se enganou, no que escreveu num número do “Français”: «Mabire reconhece-o, ele não considera a literatura um género “neutro”, mas antes como a expressão de uma visão do mundo». A isso não é estranho, sem dúvida, o sangue viking que corre nas suas veias de normando.
Ainda é assim hoje, a aventura parece definitivamente ser algo do domínio do passado, na altura do ditadura dos media e da fotografia por satélite. A conquista do espaço, o mercenarismo ou a façanha desportiva (ou a luta contra a Sida segundo alguns) serão as últimas formas de aventura abertas ao homem de amanhã?

Jean Mabire: Quando Ernst von Salomon, esse aventureiro-tipo do nosso século, se viu obrigado, depois da derrota do seu país, a responder a um questionário, necessitou de 650 páginas para o fazer, o que lhe permitiu noutro lugar escrever o seu melhor livro.
Apercebemo-nos então que ele nunca havia deixado de se pôr em cena a ele mesmo e que tinha ao longo de toda a sua vida misturado a sua bibliografia e a sua biografia. Esse não é o meu caso. Eu interesso-me bem mais pelas minhas personagens — imaginadas ou reconstituídas — que comigo próprio. E bem mais, talvez, pelos meus leitores do que pelas minhas personagens.
Na verdade, os meus “heróis” vivem uma aventura, começando pelo muito singular Roman Feodorovitch von Ungern-Sternberg, caso extremo, se é que ele o foi. Penso todavia que o termo aventureiro não lhe convém muito. Prefiro o termo militante. Ou, se quisermos, o de “soldado político”, expressão inventada, creio, por Ernst Roehm, que não é o menos singular de todos os meus assuntos e que tem a vantagem de ser mais verídico que romântico, daí o lado bastante “instrutivo” do livro que eu lhe dediquei.
Já que me fala de aventureiro, creio que é necessário recordar um ensaio (tão importante que dediquei ao seu autor uma crónica inteira no “Que lire?”)
Trata-se do “Portrait de l’aventurier” de Roger Stéphane. Sabemos que ele aí evoca três homens fora do comum: Lawrence da Arábia, André Malraux e o indispensável von Salomon. Este pequeno livro, publicado em 1950 e recentemente reeditado, é precedido de um estudo muito esclarecedor de Jean-Paul Sartre. São umas vinte páginas, mas parecem-me importantes para responder à sua pergunta. Sartre distingue muito bem: «Aventureiro ou militante: não acredito neste dilema. Sei perfeitamente que um acto tem duas faces: a negatividade, que é aventureira, e a construção que é disciplina. É preciso restabelecer a negatividade, a inquietude e a autocrítica na disciplina».
Numa famosa querela, com quase meio século, sinto-me mais próximo de Sartre que destes “Hussardos” que incomodavam o pesado comboio da literatura contemporânea.
Acredito, por outro lado, que há uma simplificação abusiva na oposição de aventureiro da acção e aventureiro do sonho. Drieu la Rochelle compreendeu-o tão bem, que se recusou encarcerar a aventura no irrisório da gratuidade. Se falarmos de vela, o amador pode revelar-se tão aventureiro como o navegador de competição. E vice-versa. Moilessier-Tabarly.
O oposto do aventureiro? É o burguês. Veja-se Flaubert que disse tudo, no fundo. O campo é vasto, infinito mesmo, incluindo a “boca” de Péguy que pretendia que os pais de família seriam os aventureiros do seu século.
Sobre a literatura como “visão do mundo”, quero ainda citar Drieu. Descobri recentemente um artigo de 20 de Fevereiro de 1932: «Não é possível a ninguém escrever uma linha que, a algum propósito, seja neutra. Um escrito terá sempre um significado político, tal como um significado sexual ou religioso».
Não, a aventura não é o passado. Acredite, viveremos ainda mais perigosamente no século XXI.

Pierre Mac Orlan, no seu famoso “Petit manuel du parfait aventurier”(Pequeno manual do perfeito aventureiro) dava ênfase ao paradoxo do aventureiro, ou seja, que este não existe, que não passa da recreação a posteriori, mineralização pseudo-mitológica por uma sociedade burguesa ávida de sonhos e façanhas; e que, a contrario, este mesmo aventureiro não mostrava nos seus actos mais que crueldade, niilismo e cinismo, senão avidez. Estamos, parece-nos, a mil lugares da mensagem que difunde as suas obras, mais próximas de Jack London que de Lawrence da Arábia.

JM: Eu devia ter uma dúzia de anos quando tirei da biblioteca do meu pai esse pequeno manual de que fala e lembro-me de ter ficado muito desiludido. Bruscamente privado do meu imaginário de adolescente, alimentado pela Ilha do Tesouro de Stevenson e dos Corsários do Rei de t’Serstevens. Daqui a minha posterior desconfiança em relação a Mac Orlan, mestre-desmistificador. Ele retirar-me-ia o desejo de ser um aventureiro. Eu tornar-me-ia, por reacção sem dúvida, militante.
Isto não retira nada ao sombrio fascínio dos cavalheiros da sorte. Mas eu identificava-me mais facilmente com Cyrano que com Olonnois ou Borgnefesse…
Ficar-me-ia sempre, do drama épico de Edmond Rostand, a opinião de que é bem mais belo quando é inútil... Esta sensação foi confortada pelo filme “A patrulha perdida” de John Ford, antes de encontrar o seu desenvolvimento com “O Deserto dos Tártaros” de Buzzati. Fui arrebatado pelo facto de que as batalhas fundadoras — essas aventuras exemplares — são sempre batalhas perdidas: Sidi Brahim, Camerone, El Alamo, Bazeilles, Berlim, Dien Bien Phu. Tal iria reforçar o meu pessimismo inato (sempre Flaubert, bem mais que Stendhal). Mas um pessimismo que incita mais à acção que ao sonho. Ver a esse respeito as sagas e Corneille.
No meu caso pessoal, o que foi arrebatador na guerra da Argélia em 1958-59, foi que eu sabia que ela estava perdida pelo exército no qual eu me batia. Voltamos a encontrar este sentimento a toda a força quando eu me juntei a Philippe Héduy e à equipa de “L ‘Esprit public” no fim de 1962.
Na idade das releituras, eu retomei La Bandera, La cavalière Elsa e mesmo Picardie, com um constante sentimento de mal-estar. A única trombeta a subsistir. A âncora da misericórdia.
É um facto que o romance de aventura não é mais que substituição. O leitor vive o que não é, revive mesmo o que não viveu. Fenómeno ao qual a televisão dá uma dimensão fascinante e onírica. “Fazemos” a guerra ou o amor por procuração em frente ao pequeno ecrã. Triunfo da ilusão absoluta.

O herói do seu último livro, Padraic Pearse (Patrick Pearse une vie pour l’Irlande, éditions Terre et Peuple), dá também essa impressão de oscilar entre o idealismo revolucionário e o mais negro niilismo, o amor dos homens e a fria determinação criminal. Um pouco como Ungern antes dele, e isso, numa perspectiva muito próxima dos Conquistadores de Malraux.

JM: Esse lado niilista e mesmo suicida de Patrick Pearse tem sido muitas vezes realçado pelos seus adversários. Se retira essa impressão do meu livro, é porque falhei na minha exposição. Pois essa é uma. Esse pequeno ensaio descreve uma espécie de marcha inevitável que conduz um homem — que é um escritor, logo um artista — do combate cultural ao envolvimento político e desse envolvimento à luta armada. Uma outra dimensão de Pearse e não a menor, o seu papel de educador em Saint-Enda.
Estamos muito longe de um aventureiro, como seria depois dele, pelos traços do seu carácter, um homem como Michael Collins. Pearse parece-me a mais alta encarnação do “soldado político”. Ele vai cometer um acto louco, mas que lhe parece o único capaz de despertar o povo irlandês. Evocar “Os Conquistadores” a seu respeito parece-me muito esclarecedor.
Não esquecer também que este pequeno livro situa-se na mesma linha que a minha grande obra sobre os instigadores dos povos (Jahn, Mazzini, Mickiewicz, Petöfi e Grundtvig). Pearse bate-se na sua esteira e conjuga em si todos os aspectos das suas diversas personalidades: poeta, educador, militante, profeta, mártir…
Ungern escapava a esta espécie de “racionalização da loucura”. Ele era ao mesmo tempo mais louco e mais lúcido.

(Continua)