Nada como uma vinda ao campo para reequilibrar o estado de espírito. Ao contrário de certos amigos meus, detractores do mundo rural, que consideram afirmações como esta mais um mau anúncio do tipo “vá para fora cá dentro”, não só gosto sinceramente destas fugas da urbe, como preciso delas. Lembro-me sempre de uma grande amiga que, descontente com a frequência das idas ao centro do país, explicava: “Eu não sou do campo, sou do Campo de Ourique!” A quem comungue deste sentimento, aconselho a parar de ler estas linhas campestres.
Do alpendre da casa do Monte, é visível um mar de oliveiras bem espaçadas que desce tranquilamente até encontrar o azul da água da barragem. Ao fundo, a terra ergue-se de novo e, acima, as nuvens do céu impedem que tenha as cores habituais desta região. A chuva alterou os cheiros, mas o ar mais frio é revigorante. Parar, observar, sentir. Mudo a minha disposição e entro nos ritmos locais. Pressa? Para quê?
Depois do pequeno-almoço, uma ida à vila para café e jornais. De regresso a casa, reparo que o tempo não passou. Altura para ler, conversar e preparar as brasas para o almoço. Os legumes e as frutas são colhidos pouco antes. Não têm designações nem dimensões regulamentares, não vêm embalados nem rotulados. Pelo contrário, têm cheiro e sabor, coisa que rareia cada vez mais nos alimentos uniformizados. Come-se tarde e o vinho é tinto e encorpado, claro. Tudo a condizer. Pressa? Para quê?
Os miúdos adoram. O mais velho, especialmente. Quis ajudar. Apanhou fruta, aprendeu o nome das ávores, viu bichos, sujou-se com lama, e, alertado pelo som dos chocalhos, avistou um rebanho de ovelhas. Teve um dia em cheio e agora dorme o sono dos justos. Em família, o serão é passado com um jogo de tabuleiro, mas a hora é avançada e a cama espera. Fico acordado. O quilo de papel impresso comprado pela manhã foi lido e, talvez por isso, lembro-me de testar o telemodem. É verdade, o portátil veio atrás... pelo sim, pelo não. Tenho rede! É tarde, mas apetece-me escrever, e não sobre o que li, talvez amanhã. Pressa? Para quê?
