segunda-feira, 8 de maio de 2006

Hitler e Jünger

Pacheco Pereira descobriu as leituras de Hitler em “Hitler’s Library”, de Ambrus Miskolczy, que considera interessante, chamando a atenção para “Hitler, leitor de Ernst Jünger”. Esta referência deve-se certamente à obra “Sobre as Falésias de Mármore” — cuja melhor edição portuguesa é a da Vega, de 1987 — e a sua proximidade com o grupo de oficiais alemães responsáveis pelo atentado de 1944. Sobre este livro e a atitude do führer em relação ao escritor alemão recordo aqui o artigo de Roberto de Moraes “Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra”, publicado na revista «Vida Mundial» em 1976, que aqui reproduzi, com a autorização do autor, há quase dois anos. Aqui fica o excerto:

«No seu romance “Auf den Marmorklippen” (“Sobre as Falésias de Mármore”), cujas provas reviu em Setembro de 39, de novo sob uniforme, já com os galões de capitão, traduzindo a promoção que lhe fora comunicada por telegrama pelo próprio comandante em chefe do Exército, von Brauchitsch, sinal de rara distinção, logo houve quem visse — sobretudo em certos círculos do ministério de Goebbels — uma denúncia do totalitarismo.
No entanto, apesar da insistência de muitos, já depois de terminada a guerra, e não obstante a simpatia fácil e as vantagens que daí lhe adviriam junto das autoridades de Ocupação, sempre o autor negou que o sinistro ditador das “Falésias” representasse Adolfo Hitler. E contudo, no “Diário”, de passagem, há uma referência clara ao desacordo entre Polis e Ethos. Mas, como também escreveu, a propósito das acusações de não apurar suficientemente as responsabilidades de guerra, ama a sua pátria.
Logo proibido na Alemanha, quando do seu aparecimento, embora a suspensão mais tarde fosse levantada, tendo sido até traduzido na França ocupada de 1942, o livro tornaria Jünger suspeito.
De resto, o tema das “Falésias” — a “destruição do mundo tradicional e cavalheiresco”, o fim das “guerras leais em que combatiam cavaleiros” — é o mesmo das “Abelhas de Cristal” e de “Heliopolis”. Na linha dos velhos mitos germânicos, os heróis, “após terem lutado em vão contra as hordas de novos bárbaros, retiram-se para mundos misteriosos e distantes, colocando no rosto máscaras de ouro”, símbolos da morte e da entrada num ciclo de redenção.
Jünger, sem conspirar propriamente, pertencia aos círculos de certa oposição interna — o grupo do general comandante da região militar de Paris, von Stuelpnagel, junto de quem servia. E, se na sua ligação aos que, em 20 de Julho de 44, tentaram eliminar o Führer, não o levou ao Tribunal do Povo, onde os processos, expeditivos e simples, de Freisler, não deixariam, certamente, de o incriminar, tal deve-se, não tenho dúvida, a uma profunda e misteriosa solidariedade. Hitler, o antigo combatente das primeiras linhas, conservava um respeito indelével pelo antigo tenente de “destacamentos especiais”, Ernst Jünger, ferido catorze vezes e titular, desde os 23 anos, da mais alta condecoração militar alemão do tempo, o “Pour le Mérite”, e poeta luminoso do heroísmo.
Esta fidelidade teria levado certa vez o chefe supremo da Alemanha a avisar os homens das “guerras” dos microfones e dos títulos de caixa alta: “Deixem o Jünger em paz.”
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2 comentários:

  1. E tambem a qualidade cultural (admiravel) da Hungria...

    Saudacoes

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  2. Fabuloso! Obrigado por ter «postado»!

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