quinta-feira, 20 de abril de 2006

“Matando a Sede nas Fontes de Fátima”

Finalmente tenho em mãos o recém-publicado “Matando a Sede nas Fontes de Fátima”, de que falei aqui no início da semana. Numa óptima edição da Antília, com uma capa com um excelente grafismo, a colectânea de poemas é precedida de um elóquio de António Manuel Couto Viana e encerrada com um posfácio de Silva Resende, que considera que “desde Moreira das Neves que nenhum outro escritor baptizava com tão filial delicadeza as suas musas na água lustral de Fátima”. Um livro formidável, onde a magistral poesia de Rodrigo Emílio é marcada pelo sentimento e pela espiritualidade. Dessas páginas devotas retiro um poema que tive já oportunidade de ouvir várias vezes cantado por José Campos e Sousa:

LITANIA POLONESA

Muito para o Zé Campos e Sousa — que consagrou musicalmente esta “Polonesa”, submetendo-a aos cuidados e à magia da sua voz de trovador d’império e ao seu talento de compositor.

Presos vão…, mas ‘stão de pé!
Dando as mãos — chegam e sobram!
(— Por quem é
que os sinos dobram?
Por quem é
que os sinos dobram?...)

Espaldados pela fé,
‘stão de pé — e não soçobram!
(— Por quem é
que os sinos dobram?
Por quem é
que os sinos dobram?...)

Frente ao mar, no interior,
nos estaleiros
navais,
nas minas,
reina o Horror:
é ano e senhor;
paira o Pavor
sobre ruínas.

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!


Os ecos dos tchecos,
quem é que os apaga?...
— Gipões soviéticos
irrompem em Praga.

…Já antes, já antes
— em lôbrego dia —
à força de tanques
se esmaga a Hungria.

— E o muro gelado,
d’arame farpado,
que corta Berlim?!...

— E o eco do brado
sem fim abafado
no ensopado
e ensanguentado
chão de Katyn?...

Foi tudo gelado
assim… Sempre assim!

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!


Soma e segue a multidão
dos que, à invasão de russos,
não podem opor senão
mais do que uma solução
de silêncios e soluços…

E por mais
que a Providência
dê sinais
de impaciência,
o rumo traçado,
p’ra todos talhado
é um — e só um:
encontro marcado
na vala comum!

Nossa Senhora das noites de insónia
Defenda a Polónia da própria Polónia!

Rodrigo Emílio

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