quinta-feira, 20 de abril de 2006

A jihad que muitos se recusam a ver

A guerra santa empreendida pelo Islão contra o Ocidente e, no que nos diz directamente respeito, contra a Europa, está à vista de todos, mas muitos recusam-se a constatar essa realidade evidente. Esta cegueira auto-induzida deve-se principalmente àquilo a que chamo a micropolítica, ou seja, a preocupação com diferenças e pormenores ínfimos ignorando o essencial, que neste caso é um conflito civilizacional à escala mundial. Não interessa aqui se se é de “esquerda” ou de “direita”, se se é ou não cristão, se se acredita ou não numa Europa federal, entre tantas outras posições, para ver the big picture. Como já escrevi muitas vezes, nós não escolhemos os nossos inimigos. Assim, por muito que alguns queiram recusar a guerra declarada pelo Islão, tal atitude não vai simplesmente fazê-la desaparecer. Os atentados terroristas islâmicos não são obra de “meia dúzia de fundamentalistas enlouquecidos”, como pretendem alguns bem-pensantes. Estes ataques têm objectivos claros e definidos, baseiam-se numa crença religiosa profunda que pretende que o Islão domine o mundo, e os seus autores sentem-se guiados por uma vontade divina. Eles cumprem o seu dever como muçulmanos, no plano espiritual, ao mesmo tempo que influenciam directamente os acontecimentos políticos, no plano material. Não se tratam de acções tresloucadas, mas de ataques cirúrgicos. Um claro exemplo disso foi o terrível atentado de 11 de Março de 2004, em Madrid, na vizinha Espanha.

Sobre este assunto versa hoje a excelente análise de Luciano Amaral no «Diário de Notícias», que reflecte sobre o conteúdo do auto de acusação emitido pelo juiz Juan del Olmo aos autores do atentado de 11-M. Aí é apresentado como prova pelo juiz um texto posto a circular na internet, segundo o qual “deveria "aproveitar-se ao máximo a proximidade da data das eleições gerais em Espanha", pois um atentado espectacular faria com que "a vitória do Partido Socialista [fosse] praticamente garantida e a retirada das tropas espanholas [do Iraque] está na lista do seu projecto eleitoral"”. Como muito bem considera o autor, “o dia 11 de Março de 2004 ficará na História como aquele em que um grupo terrorista islâmico quis ter e teve um efeito directo e determinante no resultado de umas eleições na Europa ocidental”.

Quanto à motivação dos autores do atentado, o auto de acusação refere que estes “foram claramente movidos pelo espírito da jihad (ou guerra santa), neste caso concreto ainda mais legitimado pela ideia corrente no Islão de que a Espanha (e Portugal) correspondem ao Al-Andalus (o nome dado à Península Ibérica pelos ocupantes muçulmanos entre o séc. VIII e o séc. XV), uma terra roubada ao Islão pelo cristianismo e que para ele deveria ser reconquistada. Não se pense que esta relíquia intelectual é própria apenas dos jihadistas do 11 de Março. Os outros jihadistas também a invocam - Ayman al-Zawahiri, o lugar-tenente de Ben Laden, já o fez -, mas, mais interessante ainda, o mesmo fizeram personagens supostamente moderadas, como o Rei de Marrocos. Porque, na verdade, o tema não é lateral no Islão, estando associado a uma suposta profecia de Maomé (registada num hadith), segundo a qual o Islão viria um dia a reinar na Península Ibérica. Coisa que já fez, precisamente entre os séc. VIII e XV. Agora trata-se de recuperar esse "paraíso perdido"”.

Luciano Amaral diz claramente: “Parece que o quadro existente não deveria oferecer dúvidas: está em curso uma jihad contra o Ocidente, da qual, como subobjectivo específico, até consta a reconquista do Al-Andalus para o Islão.” Mesmo assim há quem não queira ver, por isso chamou ao seu artigo “Compreensão lenta”.

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