segunda-feira, 3 de abril de 2006

Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (II)

No seu livro “La Torche et le Glaive”, escreve estas palavras soberbas: «Escrever para mim não é um prazer nem um privilégio. É um trabalho como outro. Redigir um artigo ou distribuir folhetos são actos do mesmo valor (...) Escrever deve ser um jogo perigoso. É a única nobreza do escritor, a sua única maneira de participar nas lutas da vida». Ora, ao reler Dominique de Roux, qual não foi a surpresa de encontrar palavras semelhantes e escritas quase na mesma altura: «Neste últimos anos, compreendi o seguinte: a literatura e a acção revolucionária directa são, as duas, modalidades de aproximação à morte (...) É através da morte que a literatura se torna acção revolucionária e é pela morte que a acção revolucionária encontra a literatura». Não parece hoje usurpador ver nele um aventureiro das letras.
Com estas confidências, e com o risco de nos repetirmos, a aventura do próximo século não será mais interior? Entendida pela atitude que podemos qualificar de “Torna-te aquilo que és”. Não é esse no final o objectivo superior destinado à literatura, como os seus escritos nos deixam a pensar?


JM: Em primeiro lugar, não tenhamos muitas ilusões, nós os escritores, sobre a importância destas “aventuras” que são os nossos livros. Não sabemos bem que uso lhes darão os nossos leitores. Assim a influência de um Barrès parecia-nos ontem surpreendente e hoje inacreditável.
Sou de uma geração marcada com um ferro em brasa por Montherland e Malraux. Devo dizer que Sartre e Camus me pareceram de seguida de um enfado tremendo. Voltámos à literatura “fim de século” com o estetismo mediterrânico e o intelectualismo dreyfusiano.
O contra-ataque dos “Hussardos” pareceu-me menos pertinente que o dos rapazes da fornada seguinte, especialmente Dominique de Roux e Jean-Edern Hallier. Devemos juntar Jean-René Huguenin e Jean de Brem, mas morreram muito cedo.
Há que falar na morte. Dominique como Jean-Edern tinham esse fascínio, a presciência. É uma reflexão que não vem apenas com a idade. Aqui, mais uma vez, encontramos Malraux. A ideia trágica da vida. Põe de seguida uma espécie de oposição entre “acção interior” e “acção exerior”. Há aí uma tentação: a via real Guénon/Evola. Ela interessa-me, mas é um caminho que não me atrai muito. Sou mais fascinado, na mesma ordem de espírito, pela dialéctica paz/guerra. Digamos Giono/Malraux (sempre ele). Nietzsche pressentiu tudo isto muito bem. A tentação da torre de marfim choca com a brutal afirmação de que a rua pertence àquele que a desce.
É evidente que para um escritor, o acto de escrever é interior e o acto de publicar exterior. Duas aventuras estritamente complementares. Parece-me que faz alusão à “política”. Tanto a sua versão política e politiqueira me é totalmente estranha, tanto a saída da cidade, da minha pátria carnal na Europa, não deixou de me atormentar. Daqui, uma reflexão sobre o Estado, no qual o fim deve ser o de “fortificar” o povo e não o de servir uma ideologia.

Sempre no mesmo registo, mas outra aventura também intrinsecamente vivida desde há quase cinquenta anos, o envolvimento federalista, que combina no mesmo carácter absoluto o europeísmo e a defesa das identidades carnais. Diz no Manifesto pelo renascimento da cultura normanda que a cultura francesa apenas será salva pelo seu retorno às origens nas suas tradições regionais e a sua abertura à Europa das letras. Pode precisar?

JM: A identidade de um povo é tanto o seu espírito como a sua carne. É por isso que o “cultural primeiro” me parece mais decisivo que o famoso “político primeiro” de Maurras. Na verdade, eu não nego a visão política. Mas eu situo-a fora das múltiplas e nefastas contingências actuais. Para mim, tudo se resume na dialética, digamos antes o confronto, entre estas duas entidades, não-contraditórias mas complementares, que é o Império, ou seja a Europa, e os povos que não se confundem certamente com os estados-nações existentes.
A Europa, se quer preservar a sua identidade e afirmar-se em relação ao resto do mundo, quer dizer resistente em primeiro lugar e antes de tudo ao imperialismo americano, deve ser antes de tudo una e diversa.
Una politicamente, militarmente, diplomaticamente, economicamente. Mas diversa culturalmente. É por isso que a França só tem significado ao assegurar em primeiro lugar o que a Plêiade chamava “a defesa e ilustração da língua francesa”. Neste domínio, o papel da Valónia como o da Suíça românica é capital, mesmo se estas duas entidades exaltem o desprezo do parisianismo mais estéril.
Esta cultura francesa, encarnada numa língua, só poderá encontrar alguma ao integrar todas as suas especificidades regionais.
Não falo aqui das línguas ditas “minoritárias”, bretão, flamengo, alemão, corso, catalão, basco, occitano, mas também dos diferentes dialectos de Oil, como do que chamamos o “francês regional”, que varia segundo as províncias e os costumes.
A actual promoção da “linguagem dos subúrbios” leva a um terrível empobrecimento, entre outros factores pelo emprego do “verlan”[1], que é contrário de uma criação para se tornar uma mecânica.
Manter a linguagem escrita contra a linguagem falada é um dos aspectos da guerra cultural. Isto choca certamente na modernidade que conhecerá em breve uma espécie de francês básico muito análogo ao que é o americano em relação à língua de Shakespeare.
Esta atitude implica a preocupação com as “humanidades” como se dizia em tempos, ou seja o conhecimento do grego e do latim. Devemos aí juntar, para as pátrias carnais respeitantes, uma certa conivência com as suas raízes mais profundas. Ou seja, na Normandia, por exemplo, as noções elementares sobre o modo nórdico primitivo que nos permitirá manter a ligação com a nossa cultura mais antiga.


E porque para si a aventura continua, pode, para os leitores de «Nouvelles de Synergies Européennes», indicar-nos algumas pistas de leitura...

JM: Não tenho de momento o projecto de escrever um grande documento sobre a Segunda Guerra Mundial, apesar de estar longe de terminar com o vasto panorama dos “corpos de elite”, começado há quase trinta anos na editora Balland. Falte-me escrever dois volumes da História dos voluntários franceses na frente Leste: 1943 e 1944. Espero que o meu amigo Eric Lefèvre me forneça como fez no passado, os documentos necessários à evocação dessa aventura. Deixo a outros o encargo de evocar as motivações e os combates dos voluntários bálticos, ucranianos ou húngaros. Isso exigir-me-ia muito tempo em pesquisas e traduções.
Depois de Béring e Amundsen, tinha o desejo de fazer reviver outros exploradores polares como o sueco Nordenskjöld e o dinamarquês Rasmussen. Mas o mercado do livro e a falta de curiosidade do público são tais que não considero lançar-me nessas aventuras. Agora, concentro-me nas minhas crónicas de “Que lire?”. O volume 6 está terminado e deve sair no fim deste ano. Já vou em mais de 450 escritores e faltam-me cerca de duzentos autores que considero indispensável tratar.
Tenho também a intenção de dedicar um livro a esse mistério que é a permanência da Normandia desde há onze séculos. O meu projecto de uma gigantesca História dos escritores normandos, em vários volumes, continua neste momento num estado de notas e fichas, falta encontrar um editor suficientemente ousado.
Quanto ao romance sobre a última guerra sobre o qual tenho a ideia há mais de meio século, será talvez reduzido a uma simples novela.

Da parte da redacção, Jean Mabire, obrigado.
[1] N. do T.: tipo de calão que consiste na inversão das sílabas de certas palavras.

1 comentário:

  1. Faço minhas as palavras do JM.

    Bela entrevista e bem traduzida.
    Parabéns, Duarte!

    ResponderEliminar