domingo, 2 de abril de 2006

Entrevista com Jean Mabire — Reflexões sobre o «Aventureiro» (I)


Traduzi recentemente uma entrevista com Jean Mabire, feita por Laurent Schang para a revista «Nouvelles de Synergies Européennes», para publicação numa página de internet galega, ainda em construção. O seu recente falecimento justifica que eu antecipe aqui a publicação dessa excelente conversa, que dividi em duas partes: a primeira em baixo e a segunda noutro post, que publicarei amanhã.


Jean Mabire quaisquer que sejam os domínios que tenha abordado nos seus noventa e poucos volumes publicados até hoje (170, aliás, como nos disse Jean Mabire na carta que acompanhou as suas respostas), dos SS franceses aos 55 dias de Pequim, de Amundsen à História da Normandia, sempre entre linhas, quando não em evidência, uma ideia recorrente, melhor dito, uma certa definição do homem, na qual os valores podem resumir-se numa palavra: a aventura.
Jean Hohbarr não se enganou, no que escreveu num número do “Français”: «Mabire reconhece-o, ele não considera a literatura um género “neutro”, mas antes como a expressão de uma visão do mundo». A isso não é estranho, sem dúvida, o sangue viking que corre nas suas veias de normando.
Ainda é assim hoje, a aventura parece definitivamente ser algo do domínio do passado, na altura do ditadura dos media e da fotografia por satélite. A conquista do espaço, o mercenarismo ou a façanha desportiva (ou a luta contra a Sida segundo alguns) serão as últimas formas de aventura abertas ao homem de amanhã?

Jean Mabire: Quando Ernst von Salomon, esse aventureiro-tipo do nosso século, se viu obrigado, depois da derrota do seu país, a responder a um questionário, necessitou de 650 páginas para o fazer, o que lhe permitiu noutro lugar escrever o seu melhor livro.
Apercebemo-nos então que ele nunca havia deixado de se pôr em cena a ele mesmo e que tinha ao longo de toda a sua vida misturado a sua bibliografia e a sua biografia. Esse não é o meu caso. Eu interesso-me bem mais pelas minhas personagens — imaginadas ou reconstituídas — que comigo próprio. E bem mais, talvez, pelos meus leitores do que pelas minhas personagens.
Na verdade, os meus “heróis” vivem uma aventura, começando pelo muito singular Roman Feodorovitch von Ungern-Sternberg, caso extremo, se é que ele o foi. Penso todavia que o termo aventureiro não lhe convém muito. Prefiro o termo militante. Ou, se quisermos, o de “soldado político”, expressão inventada, creio, por Ernst Roehm, que não é o menos singular de todos os meus assuntos e que tem a vantagem de ser mais verídico que romântico, daí o lado bastante “instrutivo” do livro que eu lhe dediquei.
Já que me fala de aventureiro, creio que é necessário recordar um ensaio (tão importante que dediquei ao seu autor uma crónica inteira no “Que lire?”)
Trata-se do “Portrait de l’aventurier” de Roger Stéphane. Sabemos que ele aí evoca três homens fora do comum: Lawrence da Arábia, André Malraux e o indispensável von Salomon. Este pequeno livro, publicado em 1950 e recentemente reeditado, é precedido de um estudo muito esclarecedor de Jean-Paul Sartre. São umas vinte páginas, mas parecem-me importantes para responder à sua pergunta. Sartre distingue muito bem: «Aventureiro ou militante: não acredito neste dilema. Sei perfeitamente que um acto tem duas faces: a negatividade, que é aventureira, e a construção que é disciplina. É preciso restabelecer a negatividade, a inquietude e a autocrítica na disciplina».
Numa famosa querela, com quase meio século, sinto-me mais próximo de Sartre que destes “Hussardos” que incomodavam o pesado comboio da literatura contemporânea.
Acredito, por outro lado, que há uma simplificação abusiva na oposição de aventureiro da acção e aventureiro do sonho. Drieu la Rochelle compreendeu-o tão bem, que se recusou encarcerar a aventura no irrisório da gratuidade. Se falarmos de vela, o amador pode revelar-se tão aventureiro como o navegador de competição. E vice-versa. Moilessier-Tabarly.
O oposto do aventureiro? É o burguês. Veja-se Flaubert que disse tudo, no fundo. O campo é vasto, infinito mesmo, incluindo a “boca” de Péguy que pretendia que os pais de família seriam os aventureiros do seu século.
Sobre a literatura como “visão do mundo”, quero ainda citar Drieu. Descobri recentemente um artigo de 20 de Fevereiro de 1932: «Não é possível a ninguém escrever uma linha que, a algum propósito, seja neutra. Um escrito terá sempre um significado político, tal como um significado sexual ou religioso».
Não, a aventura não é o passado. Acredite, viveremos ainda mais perigosamente no século XXI.

Pierre Mac Orlan, no seu famoso “Petit manuel du parfait aventurier”(Pequeno manual do perfeito aventureiro) dava ênfase ao paradoxo do aventureiro, ou seja, que este não existe, que não passa da recreação a posteriori, mineralização pseudo-mitológica por uma sociedade burguesa ávida de sonhos e façanhas; e que, a contrario, este mesmo aventureiro não mostrava nos seus actos mais que crueldade, niilismo e cinismo, senão avidez. Estamos, parece-nos, a mil lugares da mensagem que difunde as suas obras, mais próximas de Jack London que de Lawrence da Arábia.

JM: Eu devia ter uma dúzia de anos quando tirei da biblioteca do meu pai esse pequeno manual de que fala e lembro-me de ter ficado muito desiludido. Bruscamente privado do meu imaginário de adolescente, alimentado pela Ilha do Tesouro de Stevenson e dos Corsários do Rei de t’Serstevens. Daqui a minha posterior desconfiança em relação a Mac Orlan, mestre-desmistificador. Ele retirar-me-ia o desejo de ser um aventureiro. Eu tornar-me-ia, por reacção sem dúvida, militante.
Isto não retira nada ao sombrio fascínio dos cavalheiros da sorte. Mas eu identificava-me mais facilmente com Cyrano que com Olonnois ou Borgnefesse…
Ficar-me-ia sempre, do drama épico de Edmond Rostand, a opinião de que é bem mais belo quando é inútil... Esta sensação foi confortada pelo filme “A patrulha perdida” de John Ford, antes de encontrar o seu desenvolvimento com “O Deserto dos Tártaros” de Buzzati. Fui arrebatado pelo facto de que as batalhas fundadoras — essas aventuras exemplares — são sempre batalhas perdidas: Sidi Brahim, Camerone, El Alamo, Bazeilles, Berlim, Dien Bien Phu. Tal iria reforçar o meu pessimismo inato (sempre Flaubert, bem mais que Stendhal). Mas um pessimismo que incita mais à acção que ao sonho. Ver a esse respeito as sagas e Corneille.
No meu caso pessoal, o que foi arrebatador na guerra da Argélia em 1958-59, foi que eu sabia que ela estava perdida pelo exército no qual eu me batia. Voltamos a encontrar este sentimento a toda a força quando eu me juntei a Philippe Héduy e à equipa de “L ‘Esprit public” no fim de 1962.
Na idade das releituras, eu retomei La Bandera, La cavalière Elsa e mesmo Picardie, com um constante sentimento de mal-estar. A única trombeta a subsistir. A âncora da misericórdia.
É um facto que o romance de aventura não é mais que substituição. O leitor vive o que não é, revive mesmo o que não viveu. Fenómeno ao qual a televisão dá uma dimensão fascinante e onírica. “Fazemos” a guerra ou o amor por procuração em frente ao pequeno ecrã. Triunfo da ilusão absoluta.

O herói do seu último livro, Padraic Pearse (Patrick Pearse une vie pour l’Irlande, éditions Terre et Peuple), dá também essa impressão de oscilar entre o idealismo revolucionário e o mais negro niilismo, o amor dos homens e a fria determinação criminal. Um pouco como Ungern antes dele, e isso, numa perspectiva muito próxima dos Conquistadores de Malraux.

JM: Esse lado niilista e mesmo suicida de Patrick Pearse tem sido muitas vezes realçado pelos seus adversários. Se retira essa impressão do meu livro, é porque falhei na minha exposição. Pois essa é uma. Esse pequeno ensaio descreve uma espécie de marcha inevitável que conduz um homem — que é um escritor, logo um artista — do combate cultural ao envolvimento político e desse envolvimento à luta armada. Uma outra dimensão de Pearse e não a menor, o seu papel de educador em Saint-Enda.
Estamos muito longe de um aventureiro, como seria depois dele, pelos traços do seu carácter, um homem como Michael Collins. Pearse parece-me a mais alta encarnação do “soldado político”. Ele vai cometer um acto louco, mas que lhe parece o único capaz de despertar o povo irlandês. Evocar “Os Conquistadores” a seu respeito parece-me muito esclarecedor.
Não esquecer também que este pequeno livro situa-se na mesma linha que a minha grande obra sobre os instigadores dos povos (Jahn, Mazzini, Mickiewicz, Petöfi e Grundtvig). Pearse bate-se na sua esteira e conjuga em si todos os aspectos das suas diversas personalidades: poeta, educador, militante, profeta, mártir…
Ungern escapava a esta espécie de “racionalização da loucura”. Ele era ao mesmo tempo mais louco e mais lúcido.

(Continua)

1 comentário:

  1. Belo trabalho Duarte, já que é de facto uma extraordinária entrevista. Ansiosamente aguardo por ler a parte que falta da mesma.

    ResponderEliminar