terça-feira, 18 de abril de 2006

“Crimes” e criminosos

Mais uma vez as notícias nos deram conta da prisão de Pedro Varela e de um ataque institucional à Librería Europa. A fotografia de Varela à porta da sua livraria algemado por polícias encapuçados ilustra bem o estado a que o controlo de pensamento chegou no “Ocidente livre”. O “crime” neste caso, que se arrasta há anos, é publicar e vender livros cujas ideias são “politicamente incorrectas”. Só para que se retenham, repito as palavras-chave da frase anterior: crime, livros e ideias. Há algo que não bate, ou não devia bater, certo. “Genocídio”, “racismo” e “xenofobia” são chavões para justificar a apreensão de milhares de livros — que vão desde os históricos e datados aos contemporâneos e de investigação —, alguns computadores, bem como diverso material, no qual se incluem até quadros retirados das paredes. A ditadura do politicamente correcto sabe que pensar prejudica gravemente o pensamento único que quer impor a toda a força.

Tudo isto não é, infelizmente, novidade para Pedro Varela e a equipa da sua livraria. Quando estive pela primeira vez na Librería Europa, já lá vão meia dúzia de anos, falei com Maite Varela, irmã de Pedro, que me contou as peripécias do último ataque institucional e com uma apreensão idêntica a esta, assim como das manifestações e ataques à livraria por parte da extrema-esquerda que se seguiram, perante a passividade das autoridades locais. Mesmo depois da entrada da Europa ter sido incendiada, os vidros partidos e muitos livros destruídos, as portas abriram-se ao público pouco depois, numa demonstração de tenacidade e firmeza. Casos como estes levam-nos a questionar quem são os verdadeiros criminosos e se foram realmente cometidos crimes.

Para os bem-pensantes que ordenaram esta perseguição, eu também devo ter cometido algum crime ao lá comprar livros, para depois fazer ainda pior — lê-los! Leitura e reflexão, consciência crítica e opinião divergente: “crimes” na actual sociedade do pronto-a-pensar. Que irá na cabeça desses censores “democráticos” quanto ao destino final dos livros apreendidos? A fogueira? Não, não pode ser, quem pensava assim eram “os outros”, hoje há liberdade…

4 comentários:

  1. Não, não vão para a fogueira, encontram-se mais tarde à venda em determinados sítios. Os cabrões-ladrões que os apreendem sabem como fazer dinheiro...meia dúzia para o processo e o resto para várias feiras do relógio lá do sítio!
    Ah! Não se esqueçam das velinhas para os eternos coitadinhos!

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  2. Estou de acordo em relação à falsa liberdade de pensamento, veiculada e peneirada pelo discurso dogmático e demagógico do politicamente correcto. Não há pachorra.

    Mas fui ao site da Libreria e não gostei do que lá vi, desde a opção estética aos links. Enfim, can't have it all.

    P.S. De qq modo, havendo fogueiras já eu lá teria ardido há muito, muito tempo, certamente não pela literatura supostamente 'subversiva'... Convido-vos à leitura de 'Stigma - Notes on the Management of Spoiled Identity' de Erving Goffman.

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  3. é a liberdade de expressão meu caro amigo.

    Abraços.

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  4. "Há que confrontar a hipótese original segundo a qual o poder é essencialmente da ordem da repressão". Michel Foucault

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