sábado, 18 de março de 2006

Livros de família

Ao percorrer com os olhos a nova disposição dos livros nas estantes do escritório de casa da minha mãe, instalado naquele que foi em tempos o meu quarto, reencontro, por entre inúmeros calhamaços de Direito, uma leitura de referência da minha adolescência. A “História da Europa” de João Ameal, dividida em três volumes sendo o primeiro subtitulado “Das primeiras Civilizações do Mediterrâneo às Invasões Germânicas”, o segundo “Da formação da Europa ao Tratado de Tordesilhas” e o último “De Vasco da Gama à Revolução Francesa” , é a única História da Europa feita por um autor português, tanto quanto sei. Conversei com a minha mãe sobre esta obra e disse-lhe que tencionava relê-la num futuro próximo. Sabendo, como não podia deixar de ser, da minha paixão pelos livros e pela História, decidiu oferecer-ma e enriquecer a minha biblioteca. Este post é uma homenagem à obra, um agradecimento pela oferta e a história de um livro herdado. Tenho vários outros que adquiri por via familiar, mas cujas histórias ficam para outra oportunidade.


Do Prefácio
Pareceu-me oportuno, quando tantas forças se conjugam para desfazer a Europa — piores ainda os venenos da demissão interna que os assaltos de inimigos externos! — indagar como a Europa se fez. (...)
Pareceu-me oportuno que se recordem, nesta hora de angústia, de batalha, de perigo, as grandes linhas da História da Europa. E que tal iniciativa pertença a um português. Mais ainda porque, nenhum português tentou a aventura. (...)
Há na presente obra o intuito de repor em termos de veracidade e de justiça o esforço do nosso Povo entre os Povos europeus. Quer isto dizer que nela se olha a Europa — como é natural e legítimo por ser um português a escrevê-la — sob o ângulo português. Trata-se de uma apologia? De modo nenhum. Trata-se de uma narrativa em que nunca se perde de vista, ou tendenciosamente se esconde, ou se diminui com acinte, tudo quanto, pelos séculos adiante, Portugal deu à Civilização Ocidental — dentro da qual nasceu, da qual constituiu e constitui uma das expressões mais fiéis e na qual tem chegado a ocupar, em determinados períodos, flagrante lugar de vanguarda. Nem mais, nem menos. Por isso acentuei há pouco ser desejável que um escritor português se votasse ao empreendimento de compor a História da Europa — uma vez que não pode ser integralmente conhecida a História da Europa desde que nela se não atribua o merecido relevo à grande presença e à considerável intervenção do homem português.

João Ameal
in “História da Europa”, Livraria Tavares Martins (Porto, 1961).

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