sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Da liberdade de expressão

Quando escrevi sobre a polémica das caricaturas disse, sobre a liberdade de expressão, que “criticar o vigente sistema de "dois pesos e duas medidas" foi o único argumento válido apresentado pelo mundo islâmico e que deve levar os governos europeus a um repensar sério dos tiques e taras da ditadura do politicamente correcto.” Muitas vozes críticas se têm ouvido desde a publicação dos cartoons, mas quero aqui destacar o que José Pacheco Pereira escreveu ontem no jornal «Público», que também reproduziu no Abrupto: “Eu pensei que as coisas estavam melhores do que o que estão, mas, mais uma vez, se percebe como há apenas uma fina película entre a civilização e a barbárie. Película que estamos a deixar romper com a maior das displicências. Devia desconfiar que é assim porque os sinais estão por todo o lado. Mas a gente acredita, quer acreditar, que algumas dezenas de anos de democracia consolidada (na maioria da Europa) e duas centenas de anos desde a revolução americana e francesa tinham consolidado a liberdade como princípio. Mas não é, não é suficiente, como se vê.
Estamos em guerra e estamos a perder. Estamos a perder, antes de tudo, porque ainda não percebemos que estamos em guerra. A retórica olimpiana, de um mundo "multicultural", de uma "comunidade internacional" eficaz, assente na lei e na Realpolitik moderada, ofusca-nos e impede-nos de ver o que está à nossa frente. (...)

Hoje voltou à carga na revista «Sábado» (cuja digitalização foi já disponibilizada pelo Camisa Negra): “Uma das principais entorses à liberdade de expressão no "ocidente" é um resultado directo da II Guerra Mundial, do universo dos vencedores e vencidos. Refiro-me ao tratamento legal desproporcional entre os subprodutos do totalitarismo nazi-fascista e do totalitarismo soviético, sendo uns criminalizados e outros não (com excepção dos períodos mais agudos da guerra fria, como o banimento do PC alemão na RFA, e a "caça às bruxas" americana). Defendo que se acabe com essa dualidade de critérios, que considera o ódio rácico um crime e o "ódio de classe" aceitável. O actual debate das caricaturas dinamarquesas devia servir para termos mais liberdade e não menos.
No meu entendimento da liberdade de expressão, cabe o "revisionismo" negacionista, uma pseudo-história que nega o Holocausto, criminalizado em vários países, e cabe o direito a ter opiniões xenófobas, racistas e a propaganda nazi. Lamento desiludir os puristas do politicamente correcto, mas para mim a liberdade de expressão destina-se proteger o direito de outrem apresentar os seus pontos de vista, por muito ofensivos, miseráveis, violentos que me pareçam. No limite, esta é a salvaguarda última da minha liberdade.


Reflexões como estas devem levar a Europa a reflectir sobre os seus valores e sobre a hipocrisia que os está a minar.

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