sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

Boas festas

Recebi de um amigo um postal de boas festas em mirandês. Apesar de não ter laços familiares a essa região, tenho o maior respeito por quem se tem batido pelo património cultural de Miranda do Douro. Assim, em sua homenagem, aqui ficam os meus votos a todos os que por essa Europa fora defendem a sua identidade:

Bengo desear-bos a bos i a la buossa familia un feliç Natal i anho noubo com muita paç, alegrie i felecidade.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

O fracasso do sistema de integração republicano


É impressionante como a recente violência étnica em França parece que não aconteceu. Os media esqueceram habilmente o sucedido, fazendo-o parecer uma coisa de somenos importância, resolvida já com um simples “desbloquear de verbas” por parte do governo francês.

A realidade é muito diferente. Assistimos ao fracasso do sistema de integração republicano. A ideia utópica de uma república livre, igual e fraterna, regulada pelo contrato social desmoronou-se.

A França, tal como o resto da Europa, está a ser invadida e colonizada por massas de alógenos que não desejam integrar-se e que, pelo contrário, querem impor os seus costumes repudiando e ocupando o país que os acolheu.

Durante o pico dos confrontos, pude assistir na televisão a uma entrevista com um imigrante português em França, que foi bastante elucidativa e exemplificativa do que se estava a passar. O Micael tinha ido, ainda criança, com os pais para Aulnay-sous-Bois. Era mais uma de tantas famílias portuguesas que na altura procuravam melhor sorte noutros países. Lembrava-se que, no início, viviam naquela cité franceses, portugueses e outros imigrantes de origem europeia, argelinos, entre outros. Era o sonho da integração pelo urbanismo (curiosamente, o mesmo urbanismo que é hoje apontado como uma das causas da violência). Se todos tivessem um sítio agradável para viver, todos viveriam felizes, em paz e harmonia... O tempo e a convivência mostraram outra realidade. Segundo o jovem português, os primeiros a abandonar o local foram os franceses. A estes seguiram-se os imigrantes europeus, incluindo os portugueses. Tal havia sucedido, principalmente, por dois motivos: a ascensão social e a melhoria da situação económica desses franceses e dos imigrantes europeus, conseguida com trabalho árduo, estudo e desejo de sucesso, e, por oposição, uma atitude cada vez mais intimidadora da comunidade magrebina que, através de uma discriminação positiva, começava a conquistar terrenos “seus”, nos quais começavam a vigorar as suas regras, contrariando as leis francesas, um espaço onde a juventude optava pela vida fácil do crime e dos gangues recusando a educação e os valores de uma terra que não passava, para eles, de um inimigo opressor.

Para quem ainda está convencido das boas intenções da comunidade muçulmana em França, reproduzo aqui o que me contou um amigo meu que viveu alguns anos nos arredores de Paris e presenciou pessoalmente o expansionismo colonizador islâmico. Quando já era um dos poucos europeus que vivia naquele bairro, teve uma conversa elucidativa com o dono – também ele português - de uma mercearia local. Dizia o merceeiro que os “beurs” lhe tinham partido o vidro da montra pela segunda vez, por ele insistir em continuar a vender bebidas alcoólicas. Comunicou ao meu amigo que, ao contrário do que tinha prometido a si mesmo quando jovens magrebinos lhe vieram dizer que o álcool era ofensivo para a religião deles, iria deixar de vender essas bebidas que, aliás, praticamente já não vendia, porque a maioria dos residentes eram muçulmanos. Estava disposto a isso para não ser obrigado a passar a loja conseguida com o trabalho de uma vida, à semelhança do anterior proprietário de um talho ali perto, ameaçado por vender carne de porco e obrigado a vender o estabelecimento, para o ver transformar-se em talho hallal. Muita coisa tinha mudado por ali, a escola já não servia refeições que contivessem porco, já não se podia andar em segurança à noite, a mesquita e as associações islâmicas eram cada vez mais frequentadas e influentes, o trânsito era interrompido pelas orações diárias, mais importantes que a circulação rodoviária, os “jovens”, apesar do seu comportamento violento e do desrespeito às autoridades, beneficiavam de apoios ao estudo e de centres de loisirs, para além do aumento significativo dos “animadores culturais”, na realidade membros de gangues pagos pela Mairie para acalmar as hostes...

Esta não era já a França que o havia recebido e a quem tinha agradecido com muito trabalho. Pensava que, “se Deus quisesse”, dentro de poucos anos gozaria a reforma na sua aldeia, perto da Guarda. A este desejo respondeu o meu amigo com um adeus. Para ele não seriam uns anos, estaria de regresso a Lisboa daí a uma semana.

Sobre a tão apregoada “integração” tenho apenas a dizer que quem se quer integrar, integra-se. Os imigrantes portugueses em França foram um exemplo disso. Não necessitaram de medidas excepcionais de apoio. No início não viviam em cités, mas sim em bidonvilles com condições degradantes. Ultrapassaram-nas com trabalho e com respeito ao país de acolhimento. O panorama hoje é totalmente diferente. Os imigrantes afro-magrebinos são incomparáveis aos portugueses e aos restantes imigrantes de origem europeia. Apesar de todos os apoios, não se integram. Porquê? Por uma razão muito simples: porque não se querem integrar! E isto leva-me a fazer aquela pergunta difícil, aquela para a qual os integracionistas não têm resposta: Como integrar quem não quer integrar-se?

quarta-feira, 21 de dezembro de 2005

A Chama

Este fogo resume uma tradição viva. Não uma imagem vaga, mas uma realidade. Uma realidade tão tangível como a dureza desta pedra ou o sopro do vento. O símbolo do Solstício é que a vida não pode morrer. Os nossos antepassados acreditavam que o sol não abandona os homens e que volta todos os anos ao encontro da primavera.

Cremos, como eles, que a vida não morre e que, para lá da morte dos indivíduos, a vida colectiva continua.

Que importa o que será amanhã. É levantando-nos hoje, afirmando que queremos permanecer como somos, que o amanhã pode vir.

Levamos em nós a chama. A chama pura deste fogo de fé. Não um fogo de lembrança. Não um fogo de piedade filial. Um fogo de alegria e de intensidade que temos que acender sobre a nossa terra. Lá queremos viver e cumprir o nosso dever como homens, sem renegar nenhuma das particularidades do nosso sangue, da nossa história, da nossa fé, amalgamadas nas nossas recordações e nas nossas veias...

Tudo isto não é a ressurreição de um rito abolido. É a continuação de uma grande tradição. De uma tradição que mergulha as suas raízes no mais profundo das idades e que não quer desaparecer. Uma tradição em que, cada modificação, só deve reforçar o sentido simbólico. Uma tradição que a pouco e pouco revive.

Jean Mabire

“Direitas”


Terminei a leitura da última edição da revista «Futuro Presente» e, apesar de não concordar com muitas das posições aí defendidas, reconheço a sua qualidade e aconselho-a aos que me lêem. Este número tem como tema central as “direitas”, indo o meu destaque para os artigos “Radicalismo de direita e neo-fascismo na Europa do pós-guerra: Um problema de definição”, de Marco Tarchi, “A Direita e as Direitas em França – o laboratório do século XIX”, de Jaime Nogueira Pinto, e “Para uma genealogia cultural”, um inédito de Rodrigo Emílio. De referir, ainda, a continuação do “Inquérito sobre a Europa”, iniciado no número anterior, e a habitual crónica de Roberto de Moraes, para além das restantes secções.

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

Leitura para hoje

Na habitual referência ao semanário «O Diabo», destaco na edição de hoje a entrevista com o Bispo Emérito de Braga, que afirma que “há um lóbi gay em Portugal com muita influência na sociedade” e classifica como “aberração” a equiparação ao matrimónio das uniões de facto e homossexuais. Noutro campo, D. Eurico Dias Nogueira considera que um diálogo com o Islão é difícil de ser conseguido porque, segundo ele, “o Islão tem uma atitude muito fechada, muito fundamentalista”.

De referir, também, as críticas do Padre Carlos Gabriel às autoridades nacionais relativamente aos crimes contra portugueses na África do Sul, dizendo que “o PS esteve sempre de "cócoras" em relação ao governo sul-africano”. Para além das páginas obrigatórias “O Diabo a Sete” e “Coisas do Diabo”, tem esta semana a palavra o nosso conhecido blogger João Pedro Dias com o artigo “O doce sabor do "bolo" de Bruxelas”.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Violência no paraíso

Quem se lembra de “Bowling for Columbine”? Onde Michael Moore apresentava, numa versão simplista e tendenciosa dos factos, em oposição a uma América na qual a violência armada não era culpa de quem a praticava, mas de “racistas” como Charlton Heston e a National Rifle Association, um paraíso multicultural a Norte. No Canadá, segundo o filme, vivia-se uma situação totalmente diferente, os crimes violentos e com armas de fogo eram raros e era impensável ligar certos tipos de violência a determinados grupos étnicos.

A última edição do «Economist» revela-nos uma evolução da situação surpreendente, ou talvez não... A violência armada está em rápido crescimento naquele país e é hoje uma das principais preocupações nas grandes cidades. Toronto, por exemplo, bateu o recorde de assassinatos com armas de fogo em 2005. Na British Columbia as apreensões de armas de fogo aumentaram 50% em três anos e o número de gangues duplicou em dois anos, sendo os de origem punjabi os mais violentos. Nessa província há outro dado impressionante, o cultivo crescente de cannabis rende quase tanto dinheiro como a indústria do turismo. Da próxima vez que for acenada a bandeira do sucesso e exemplo canadianos, é bom lembrar que a situação está a alterar-se radicalmente e muito depressa.

De pequenino…


Tive este fim-de-semana a oportunidade de ver e ouvir o “Schulhof-CD” (CD do Recreio) de 2005, enviado pelo Andreas Molau, editor do Deutsche Stimme, a quem agradeço. Com este CD, disponível também na internet, repetiu o NPD uma excelente iniciativa dirigida ao público mais jovem. O CD contém treze músicas de bandas nacionalistas alemãs e termina com o hino nacional alemão. A acompanhá-lo vem um pequeno livrinho com uma banda desenhada, na qual o jovem Alex, descontente com a situação no seu país, recusa as propostas de elementos de partidos de esquerda e de direita, acabando por juntar-se ao NPD, por intermédio da sua amiga Tina. Podemos ainda encontrar a letra do hino nacional alemão e os contactos do partido. Quando conheci o Andeas Molau em Espanha, há cerca de um mês atrás, disse-me que na Alemanha já tinham distribuído gratuitamente centenas de milhares de CDs, tanto desta edição como da de 2004, à porta das escolas e que tinha sido um sucesso, pois a aceitação havia sido óptima. Segundo ele, a geração mais nova de alemães começa a perder os complexos de culpa da geração anterior e está mais aberta aos ideais nacionalistas perante a ameaça da imigração em massa e da mundialização. Um exemplo a seguir.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Fruto proibido

Quando falei da minha intenção de escrever este post a alguns amigos, fui automaticamente recordado do actual “peso” do tema e aconselhado a desistir dos meus intentos. Assim, antes de passarmos ao que interessa, começo com um esclarecimento necessário. Não é uma desculpa, é mais um aviso à navegação e uma salvaguarda – hoje em dia cada vez mais necessária – em relação a posteriores interpretações livres ou extensivas das minhas considerações.

O tema, como já muitos devem ter adivinhado, é a recente polémica relativa ao chamado “revisionismo do Holocausto”. Daí a necessidade de afirmar, pelas razões supracitadas, que este texto não pretende “rever” ou “negar” qualquer holocausto, independentemente de quem tenham sido as vítimas ou os culpados, ou da altura em que tenha sido cometido.

Adiante. Há dias, ao fazer um zapping, na minha ocasional busca de algo interessante para ver na televisão, dei de caras com David Irving. Não teria sido nada de mais, porque o programa onde o revi a fazer comentários sobre Adolf Hitler e a II Guerra Mundial era de 1989, se o historiador não estivesse nesse exacto momento preso na Áustria por “negar o Holocausto”, o que constitui crime nesse país, à semelhança da vizinha Alemanha.

Antes dele, havíamos tido notícia de outras prisões, por igual delito, como a de Ernst Zündel e a de Germar Rudolf. Ambos conseguiram chegar às páginas dos jornais, em especial Zündel, porém com pouco destaque, após as suas detenções. O caso de Irving levantou mais poeira, talvez por ser cidadão britânico, talvez por ser um historiador razoavelmente conhecido e com bastantes obras de valor reconhecido. Lembro-me, por exemplo, do excelente “The War between the Generals”, publicado pela Penguin Books em 1981, que recebeu o aplauso da crítica. O jornal «The Times», na altura, considerou o autor “one of Britain’s foremost historians”.

Não deixa de ser irónico, hoje, vê-lo na televisão, ver as suas obras nas prateleiras e saber que, para além de estar preso, está a ser tratado como um reles mentiroso, ou pior, classificado como um “nazi”. Todas as histórias, por mais trágicas, têm sempre um lado cómico. Até agora, no episódio Irving, houve uma que merece ser referida e que foi noticiada pelo «Telegraph». Durante uma visita à biblioteca da prisão onde se encontra, o historiador britânico descobriu algumas obras suas e assinou-as. Isto causou um certo mal-estar ao director da prisão que garantiu prontamente que iria desfazer-se dos ditos livros.

Depois deste surto de detenções, assistimos às declarações de Mahmud Ahmadinejad, actual presidente do Irão, e às reacções igualmente inflamadas dos governantes de Israel. Com ou sem revisionismo, Irão e Israel permaneceriam inimigos mortais ad aeternum, mas este tema é particularmente sensível aos judeus, como é compreensível. Aliás, é perfeitamente natural o repúdio da grande maioria dos judeus pelos chamados “revisionistas do Holocausto”. Simplesmente, penso que os primeiros escolheram a solução errada. Passo a explicar.

A minha formação em História diz-me que proibir a investigação, por mais loucas ou disparatadas que sejam as suas conclusões, é errado. Por muito que incomode os italianos um estudo que chegue à conclusão que Colombo era português, por muito que choque a Igreja Católica uma investigação que diga que Jesus foi casado e teve filhos, ou por muito que ofenda os judeus uma teoria que defenda que o Holocausto provocou cinco milhões de mortos, não devem ser proibidas. Devem, isso sim, ser debatidas e, se necessário for, contrariadas com argumentos e provas, em resumo, com outras investigações, nunca com leis.

Em geral, a defesa da liberdade de expressão é consensual, mas neste assunto tem-se vindo a adoptar, cada vez mais, uma atitude censória. Aqui é que a porca torce o rabo, como reza a expressão popular. Começo por um exemplo puramente académico. Imaginemos que amanhã, um dito “revisionista do Holocausto” chegava à conclusão de que este tinha vitimado sete — e não seis — milhões de pessoas. Seria considerado crime? Seria julgado por isso?

De qualquer maneira, quando se opta pela censura e se utilizam sanções legais como a prisão, dá-se uma importância elevada ao assunto. Quero dizer que, com tudo o que tem acontecido, o chamado “revisionismo do Holocausto” teve talvez a maior propaganda de sempre. Dir-me-ão que a importância é dada ao Holocausto e não aos seus revisores ou negadores, mas o que acontece é que eles é que sobem ao palco dos media. A publicidade é tal, que o tema tem corrido os jornais e televisões de todo o mundo, dando a conhecer a existência de uma “versão proibida” dos acontecimentos da II Guerra Mundial a milhares de pessoas que nunca dela haviam ouvido falar. Mais: se é proibido, gera automaticamente maior curiosidade. Todo este processo lembra-me o que me dizia um familiar meu sobre os livros censurados durante o Estado Novo: “A quantidade de merda que eu li, apenas por saber que tinha sido censurado!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Música

Sabemos que na internet, nomeadamente na blogosfera, o que é bom é para se copiar. Assim, depois de ver os posts de música do BOS e a “Música Ambiente” na barra lateral do Último Reduto, não resisti. A partir de hoje, os leitores do Pena e Espada podem ser também ouvintes. Ainda não defini qual periodicidade de alteração da música que estará disponível. A experiência o ditará e estou, como sempre, aberto a sugestões, que agradeço. Para começar, podem ouvir “Mon enfant”, dos franceses Vae Victis, uma faixa retirada do álbum “Hors-la-loi”, de 2000.

A culpa é nossa

Mais uma vez as palavras de José Manuel Barata-Feyo na «Grande Reportagem» são politicamente incorrectas e merecem ser aqui reproduzidas. No seu artigo “Viva la muerte!”, na última edição da «GR», começa desta forma: “Azar o meu que nasci europeu, branco e cristão. Qualquer outra origem teria sido melhor. Ao que parece, qualquer outro destino também...” Este pessimismo reflecte bem a observação da culpabilização extrema dos europeus nos dias que correm, impedidos - ao contrário de todos os outros povos – de se orgulharem, afirmarem e preservarem a sua identidade. Ora leiam: “Chegou por fim o século XXI e, com ele, a derrocada de todas as convicções – das minhas, como europeu, branco e cristão, entenda-se. Subitamente iluminados por uma aparição, os meus semelhantes pela raça, pela cultura e pelo cristianismo descobriram que somos culpados de ter ganho as guerras em vez de as ter perdido. As militares, é certo, mas também as outras, a guerra dos Descobrimentos, da Razão, da Democracia, do Humanismo, da Solidariedade, a guerra dos Direitos do Homem. A minha ração diária escorre apenas pela ignomínia da Colonização, da Escravatura, da Inquisição e de mais horrores que cometemos. Os nossos, que não os dos outros. São dedos apontados ao presente, mas que tiveram o cuidado de apagar o contexto histórico. Sem ele é mais fácil imputar-nos o monopólio da culpa e omitir que a reconhecemos e corrigimos, tanto quanto possível. Eis, aliás, outra vitória de que somos culpados e uma nova suspeita de crime: abolimos a escravatura; derrotámos o obscurantismo e a intolerância das Igrejas; melhor ou pior, descolonizámos e varremos a noite das ditaduras, de esquerda e de direita. Falsa e magra penitência, dizem-nos os militantes da expiação. Nada pode resgatar a abjecção cometida. É indispensável reconhecer que fomos e continuamos a ser intrinsecamente maus! Nós, que não os outros. Porque os outros são bons. Assim exige a dicotomia...

Os europeus, façam o que fizerem, serão sempre os únicos culpados de todos os males do mundo, segundo os ditames do politicamente correcto. Barata-Feyo vai mais longe e afirma: “Somos a fonte de todos os males e a origem de todos os vícios. Somos o pecado original!” É assim, sem dúvida, que hoje se pretende que se vejam os europeus, apesar de todo o contributo da nossa cultura e civilização.

Embalado por esta dicotomia absurda e irónica nós-maus/eles-bons, Barata-Feyo conclui também ironicamente: “Se a Europa está reduzida ao execrável, o homem branco ao remorsos e o cristianismo à Inquisição; (...) se a salvação do mundo passa por uma cruzada contra nós e pela nossa autodestruição; se assim é, então a redenção colectiva, a justiça e a paz na Terra estão finalmente à vista, apontadas há uma semana por Muriel Degauque, a belga que entrou para a história como "a primeira bombista suicida europeia". De que maneira mais honrosa e com que melhor consciência pode acabar um europeu, branco e cristão do que no sopro de uma explosão e no voltejar sangrento dos seus próprios restos?

domingo, 11 de dezembro de 2005

Honrosa excepção

Dizia eu aqui há dias, que os media haviam deixado passar em branco os 150 anos da aclamação de D. Pedro V, e ontem pude ler uma honrosa excepção no «Diário de Notícias». É claro que quem marcou a diferença foi o Eurico de Barros, ficando aqui a reprodução do seu “Grande Rei, reinado curto”.

«Entretidos com as angústias da crise, os estados de alma futebolísticos e o restolhar dos "famosos", os media não deram por uma das mais importantes efemérides deste ano, os 150 anos da morte de D. Pedro V, que se assinalam hoje.

O filho primogénito de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, que subiu ao trono em 1855, aos 18 anos, após uma educação esmerada e um período de viagens de estudo ao estrangeiro, na companhia de seu irmão Luís, só reinou seis anos. O tifo levou-o a 11 de Novembro de 1861, dois anos depois da sua mulher, a Rainha D. Estefânia, ter sido vitimada pela difteria.

Nesse curto espaço de tempo, este jovem de uma precocidade rara, superiormente inteligente e culto, sequioso de saber, dotado em simultâneo das qualidades da acção e da reflexão, e empenhado em participar no bom governo do Reino e na sua modernização, apesar de rodeado por uma classe política medíocre e corrupta e de se confrontar com um país em aflição, deixou o seu nome ligado à construção de estradas, à expansão do caminho-de-ferro e das linhas telegráficas; ao desenvolvimento do comércio e da indústria; à fundação do Curso Superior de Letras; à criação da Direcção-Geral da Instrução no Ministério do Reino; à apresentação do projecto de Código Civil; à concessão de liberdade para todos os escravos que desembarcassem em território português, entre várias outras iniciativas e empreendimentos.

D. Pedro V conviveu com grandes nomes da cultura do seu tempo, como Herculano e Camilo, interessou-se pelos assuntos militares (raramente trajava à civil) e conquistou o seu povo logo no início do reinado, quando Lisboa foi assolada, por uma epidemia de cólera-morbo, seguida de uma de febre amarela, e o monarca recusou deixar a capital, quase deserta. Ficou, visitando os enfermos e supervisionando o combate às doenças. O mesmo povo, à sua morte, chorou-o do fundo do coração, e, como corressem rumores de que o Rei teria sido envenenado pelos políticos, houve sérios tumultos em Lisboa.

Honra seja feito à Texto, que acaba de reeditar 'D. Pedro V - Um Homem e um Rei', de Ruben Andersen Leitão. No resto, um país sem memória é um país sem futuro.»

quarta-feira, 7 de dezembro de 2005

D. PEDRO V

"Estou plenamente convicta da imensa
superioridade de D. Pedro quando comparado
com qualquer outro jovem príncipe"
Rainha Vitória


HÁ 150 ANOS FOI A ACLAMAÇÃO DE D. PEDRO V Primeiro filho de D. Maria II e de D. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha, um desses príncipes cultíssimos que a Alemanha então exportava para renovar a seiva de algumas casa reais bem necessitadas, D. Pedro nasceu em 1837.
Em Novembro de 1853 morria inesperadamente a Rainha, com apenas 34 anos de idade, das consequências do 11.º parto, abrindo assim um período de dois anos da regência de D. Fernando II, Rei Consorte desde o nascimento do filho, que se estenderia até este atingir a idade de 18 anos, prescrita na Lei, em 1855.
Inicia-se então um período de viagens de estudos em que visita, com seu irmão Luís (mais tarde Rei), vários países europeus.
Dos relatórios e cartas que então escreveu, encontra-se já bem patente, no âmbito de uma precocidade invulgar, a sua inteligência superior, seu espírito de rigor, sua incansável vontade de saber, de aprender, quer no domínio das ciências, quer no das letras, e também, embora em menor medida, no das artes. São já documentos de um espírito maduro e não de um rapaz no fim da adolescência.
Logo no início do seu reinado depara com a epidemia de cólera-morbo seguida, um ano depois, pela não menos mortífera febre-amarela. Ao invés de muitas famílias mais abastadas e de não poucos políticos, o Rei não abandona a capital desdobrando-se em cuidados aos doentes, que visitava com perigo da própria vida, assim como em inspecções à operacionalidade de medidas de luta que havia delineado. O povo nunca esqueceria esta sua faceta.
Da estirpe de um D. João II a que se juntava algo da inteligência percutante e sombria de um D. Duarte, D. Pedro aliava as qualidades do homem de reflexão às do homem de acção, pois se era um realista que não podia ignorar o estado desgraçado em que se encontrava o Reino (muitos anos de guerra civil endémica, sucessão ininterrupta de Governos, humilhações face ao estrangeiro com a convenção de Gramido, revoltas como a da Maria da Fonte e a subsequente Patuleia, etc.), realista dobrado de pessimista, que não ocultava o idealista que também, lá bem no fundo, não deixava de ser.
Idealista activo, aliás, que só se dava por satisfeito na realização - livre e dentro da Constituição, isto é, pelos seus Governos e com apoio nas Cortes - dos planos que pensava e inspirava, ou procurava inspirar, e na possível aplicação prática das ideias que servia.
Atormentavam-no as limitações, principalmente quando eram contrárias aos interesses da Pátria e filhas de movimentos e interesses escondidos, intencionalmente egoístas e destrutivos.
No que se chocava amiúde com a classe política, corrupta e incapaz, na sua grande maioria, pois não era Rei que se deixasse ficar, mas sim soberano com tendências intervencionistas, exercendo o Poder Moderador - aliás perfeitamente legal e consignado na Constituição -, que fazia com zelo, clareza de espirito, inteligência e conhecimento aprofundado das causas, o que embaraçava e irritava muitos dos seus ministros.
O seu reinado, embora muito curto (uns escassos seis anos) foi rico em empreendimentos a que esteve intimamente ligado e dos quais foi, muitas vezes, tanto o pensador como o impulsionador: inauguração e planos para a expansão rápida do caminho-de-ferro; o mesmo para o telegrafo eléctrico; concessão de liberdade a todos os escravos que desembarcassem no continente, ilhas adjacentes, Índia e Macau; início da publicação da "Portugaliae Monumenta Histórica"; exposição industrial do Porto, a primeira internacional realizada em Portugal; criação da Comissão Central de Estatística do Reino; lançamento das primeiras carreiras regulares, a vapor, da metrópole para Angola; apresentação do projecto de Código Civil; introdução do sistema métrico: criação da Direcção-Geral de Instrução no Ministério do Reino; fundação do Curso Superior de Letras (mais tarde Faculdade de Letras, projecto pessoal do Rei); melhoria do curriculum da Escola Politécnica; supressão dos morgados e capelas ainda existentes; fundação da Associação Industrial Portuguesa.
Os assuntos militares, incluindo os mais técnicos, também o interessavam profundamente, seguindo-os de muito perto. Da sua iconografia, são raros os documentos fotográficos que o representam vestido à civil, pois andava normalmente fardado, envergando o sóbrio pequeno uniforme, com seu dólman azul ferrete (escuro) sem cordões nem agulhetas e correspondente calça de mescla cinzento-azulada. Levantava-se invariavelmente às sete da manhã começando logo a trabalhar, e das três às cinco da tarde, sempre que possível, visitava, sem avisar, quartéis, hospitais, instituições públicas, incluindo assistência a aulas no Curso de Letras e na Politécnica, onde se sentava, como qualquer aluno retardatário ao fim da sala. "Isto mantém alerta os indolentes", tal como escreveu a seu tio e mentor, o Príncipe Alberto de Inglaterra, também ele um Saxe-Coburgo.
A morte inesperada em 1859, por difteria, da sua amada mulher, a Rainha D. Estefânia, alemã oriunda da casa de Hohenzollern-Sigmaringen, tornou-o ainda mais sombrio extinguindo-se ele próprio a 11 de Novembro de 1861, vitima de tifo, que também levou mais dois dos seus irmãos e incapacitou parcialmente um outro por toda a vida. Precedeu na morte, por escassas semanas seu tio Alberto, príncipe-consorte da rainha Vitória que nunca deixou de pensar que o desaparecimento do monarca português, que amava como um filho, havia precipitado também a morte do marido, escrevendo numa carta dirigida ao rei dos Belgas, seu tio Leopoldo I, também ele um Saxe-Coburgo: "A morte de Pedro é uma terrível calamidade para Portugal e uma verdadeira perda para a Europa". E sublinhou a palavra "verdadeira ".
O povo chorou-o como nunca tinha chorado um Bragança nem nunca mais choraria outro, pelo menos até hoje. Convencido de que "os políticos" tinham envenenado o Rei, às ordens de Loulé, desencadearam-se verdadeiros tumultos em Lisboa e várias casas foram saqueadas e queimadas.
Devo dizer que não se surpreendeu muito (até pelo que também aconteceu, em parte, em 2002, no primeiro centenário da morte de Mouzinho) o facto até hoje e que eu saiba, nenhum média incluindo a TV se tenha referido, ainda que fosse apenas como simples efeméride, à figura deste Rei excepcional no aniversário dos 150 anos da sua aclamação.
São os média deste país que temos, país de invejazinhas e ódios vesgos, memória curta, atolado em superficialidade, premiando a mediocridade e a falta de rigor, favorecendo a ganância pacóvia, a hipocrisia e a corrupção, boçal e incívico em extremo mas prenhe de licenciaturas ridículas e inúteis. Pequeno país virtual e em bico de pés metidos em sapatos mais ou menos engraxados, de solas furadas, escondendo peúgas por lavar há muitas décadas.
Talvez seja melhor o silêncio, sim. Não mereciam de facto, um Rei como foi D. Pedro V.

Roberto de Moraes




Esplêndida e pouco conhecida fotografia de D. Pedro V - actualmente conservada nas colecções do Palácio Nacional da Ajuda -, tirada ao tempo da sua aclamação, em 1855, por Wenceslau Cifka, um grande pioneiro da fotografia em Portugal e amigo pessoal de D. Fernando II. Foi, pelo próprio Cifka, primorosamente colorida como atesta, por exemplo, a precisa tonalidade da calça de mescla azul acinzentada -"cor de flor-de-alecrim", como ainda constava no regulamento de Dezembro de 1948 -, que foi estupidamente abolida, já bem nos nossos dias, nos anos setenta do século XX. O Rei enverga o pequeno uniforme de Marechal-General, como se vê pela bordadura da gola e dos canhões das mangas do dólman azul-ferrete, assim como pelas insígnias patentes sobre a dragona: ceptro cruzado com óculo e monograma real encimado pela coroa. Este posto, ao tempo já só apanágio exclusivo de Rei, era superior ao de Marechal do Exército e fora, no passado, atribuído também a raras personagens tais como o conde de Lippe, duque de Lafões, Wellington e, por último, em 1816, a Beresford, que já era marechal desde 1809. O posto deixou de existir em Outubro de 1910, com a queda da monarquia, pois a república não o considerou na reforma de 1911. Aqui, o soberano, de dezoito anos de idade, ainda não ostenta o bigode que mostram fotografias posteriores e leva um corte de cabelo bem similar ao de muitos jovens de hoje, incluindo os das Forças Armadas. O que talvez contribua para conferir a esta foto um estranho, insólito e quase mágico travo de intemporalidade que, não obstante a distância de 150 anos, dela se desprende, revelando bem a forte personalidade do retratado, sua clarividência penetrante e sombria, sublinhada já por um ricto de precoce amargura. R. de M.

O Esperançoso

150 anos passaram desde a aclamação de D. Pedro V. Os media, como é hábito, votaram-se ao silêncio, entretidos como sempre com as tricas políticas diárias. Na blogosfera houve excepções, como é o caso do BOS e do FGSantos, que eu tenha lido. Este monarca, com uma inteligência notável e uma cultura e saber vastíssimos, distinguiu-se dos demais. Profundo conhecedor dos dossiers e decidido a intervir na boa governação do Reino, como era seu dever, elevou-se em relação à classe política medíocre da altura, tornando-se odiado por esta e amado pelo povo. Para lembrar nesta casa “O Esperançoso”, publicarei a seguir um artigo do meu amigo Roberto de Moraes, retirado do último número do «Lanceiro», com a sua autorização. Aqui fica a minha singela homenagem àquele que foi, sem dúvida e apesar do seu curto reinado, um dos nossos mais brilhantes reis.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Activismo em alta

O número e a qualidade de acontecimentos e iniciativas na área nacional tem vindo a aumentar significativamente. Este é um óptimo sinal para o crescimento do nacionalismo em Portugal, tanto no plano político como no plano cultural.

Estive presente, na passada quarta-feira, no lançamento de um livro do Rodrigo Emílio, que correu da melhor forma. Na sala maior do Círculo Eça de Queirós lotada, assistiu-se à apresentação do “Pequeno presépio de poemas de Natal”, a cargo de António Manuel Couto Viana, seguida algumas músicas tocadas pelo José Campos e Sousa. Passou-se depois à sala de jantar, decorrendo a refeição num convívio salutar entre os presentes, para depois regressarmos à sala principal para mais umas músicas. Uma óptima noite a celebrar um dos nossos maiores poetas, infelizmente falecido no ano passado. Está de parabéns a editora Antília, em primeiro lugar plena existência, depois pelo autor escolhido para se estrear e, finalmente, pela óptima organização do lançamento.

No Dia da Restauração da Independência, marcado pelo habitual “esquecimento” dos media, foi com grande alegria que participei nas comemorações que terminaram na Praça da Figueira com um discurso do Presidente do PNR, José Pinto-Coelho, perante todos aqueles que não se demoveram, apesar do frio e da chuva torrencial.

Ao fim da tarde, tive a honra de participar no Colóquio “Portugal (in)dependente”, que foi um sucesso. Os únicos pontos negativos foram a vandalização das paredes exteriores do edifício onde se realizou o evento, por parte dos habituais intolerantes da extrema-esquerda, e a exiguidade do espaço, incapaz de albergar todos os interessados. Esta iniciativa transversal, que envolveu várias organizações nacionalistas, decorreu de forma exemplar. Depois das excelentes exposições do Humberto Nuno de Oliveira e do Miguel Jardim, seguidas de uma pequena intervenção minha, teve lugar um debate com várias participações. Para terminar da melhor maneira, pudemos apreciar, ao jantar, a gastronomia típica portuguesa e, ainda, visitar uma banca que disponibilizava diversas publicações, entre outro material.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2005

Primeiro de Dezembro. Pessoa. Portugal!

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar 'sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Fernando Pessoa
in "Mensagem" (1934).