sábado, 30 de abril de 2005

Cultura a metro

Será que nesta era consumista a Cultura também se poderá vender enlatada num hipermercado? Será que dar uma demão de Cultura numa cidade pode transformá-la? Ao analisar a iniciativa Capital Nacional da Cultura, o Eurico de Barros dá hoje, na sua coluna no Diário de Notícias, uma resposta categórica: “A vida cultural de uma cidade tem que ser uma realidade orgânica, em vez de uma festa importada artificial e maciçamente.

É caso para dizer que, em Faro, o circo chegou à cidade…

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Arco da Insónia


Tanto escrevo, ó mão escrava,
E nem um poema fulgura,
Nem um verso se me crava
A fundo na carne ou grava
Na alma qualquer gravura

Ai tempo de sangue e lava,
O tempo em que eu te abraçava,
Meu amor, e em que enlaçava
cada noite p'la cintura

Dormes o sono dos justos
Enquanto eu, até às tantas,
Ceifo sombras, sonhos, sustos,
Sofro a insónia que implantas...

Mar vivo de um tempo morto
Sem rapsodos, aedos...
Ai tempo, mais que remoto,
em que tínhamos um porto
(sempre, sempre, sempre um porto)
No cerne dos arvoredos.
(E beijo ainda o eu corpo
nos meus dedos!...)


Nosso lombo e nosso ópio
Nossa noite Nosso dia
Corpo à sombra de si próprio
Cântico desta agonia

Pernas Braços - um bailado
Orquestrado em convulsão.
Ó corpo - oceano encrespado,
Crispado mas navegado
Por um corpo, um outro
Corpo - embarcação.

Varado de lado a lado
Corpo teu martirizado
Lava do mesmo vulcão

Corpo ó corpo aprisionado
À minha libertação

Rodrigo Emílio
in «Serenata a Meus Umbrais».

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Aniversário (V)

A pedido do Duarte Branquinho, sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor, aqui vai, com um abraço, para assinalar o primeiro aniversário do seu blogue, o meu primeiro Bilhete publicado, de jornalista.
É este um género pouco cultivado entre nós, que eu viria a desenvolver, até nisso já com este meu feitio de ir a contrapelo. Corriam os anos sessenta quando viu a luz do dia e, dado não ter encontrado o original no prazo de horas, tive de o reescrever, de cabeça. Espero que não tenha perdido, de todo, a frescura dos meus vinte anos.

O Gato e a Velha

Era um canto para que apetecia olhar logo ao descer os três degraus de entrada naquele café esconso, meio tasca, à beira daquela rua que escorria uma fauna menos boa.
O tempo, qual pequeno animal acinzentado e viscoso, parecia passar despercebido, pegajoso e indiferente, no meio daquela tarde soturna de um Inverno que teimava em prolongar-se.
Lá estava a velha, cercada de sacos baratos e gastos, cheios de jornais velhos a condizerem com o capote ruço que mal lhe cobria o corpo informe onde outrora, talvez, carnes rijas tivessem despertado apetites.
E estava também o gato, cinzento e gordo, enfastiado, que se dignava olhar distraidamente o tampo da mesa em que a velha se servia de um galão e de um bolo de arroz – almoço atrasado, jantar adiantado?
De súbito ela ofereceu-lhe uma parte do bolo mas ele, desprendido, virou a cabeça, recusando. Aí ela olhou, rápido, em volta. Depois meteu aquelas migalhas à boca, mastigou, deglutiu e olhou de novo.
Mas só o gato tinha visto, e, esse, estava-se nas tintas.

Roberto de Moraes

Aniversário (IV)


Pena e Espada, o mesmo combate

Pena e Espada representa a feliz síntese entre o puro combate intelectual e a lúcida, visionária, intervenção política na blogosfera. Sou leitor habitual e comentador acidental deste blog, criação do meu amigo Duarte Branquinho, que conseguiu aliar uma escrita sóbria, objectiva, clara nas ideias, abrangendo diversos temas da actualidade política e cultural, com um propósito esclarecedor, sem dogmatismos, nem intolerâncias.

Revelador de uma perspectiva profética quando aborda determinados assuntos, como seja a Europa, ou o prosaico quotidiano da vida nacional. Pena e Espada nunca se furtou ao diálogo, mesmo com aqueles, que por este ou aquele motivo, não comungam da mesma mundovidência.

Passado um ano, o balanço só pode ser encorajador e positivo. Espera-se que o verbo prossiga com mais frequência, associando-se ao desejável vigor combativo. É meu desejo que a Pena esteja sempre molhada de tinta fresca que a Espada, sempre bem afiada, corte a direito. É um combate que deve ter continuidade.
Votos de um feliz aniversário!

Miguel Ângelo Jardim

Aniversário (III)


Vinte Valores


Se prezas a Vida e a defendes, intransigentemente, contra a dominante civilização da morte;

Se queres a Propriedade ao serviço do Bem-Comum;

Se acreditas na Solidariedade, de vizinhança e de profissão, expressa no Municipalismo e no Associativismo;

Se cultivas a Tradição como garante da formação física, moral e espiritual da Família;

Se olhas com Pessimismo para o mundo em que vivemos, em oposição ao optimismo utópico dos tolos;

Se te repugna o individualismo passivo e vês no Organicismo um baluarte de Justiça;

Se respeitas os Antepassados e aprendes com a sua lição a preparar o futuro;

Se vês na Língua um dos últimos redutos da Pátria;

Se procuras conciliar Pensamento e Acção, com autenticidade, para melhor servires;

Se és um dissidente da cartilha igualitarista, pois sabes que a Diferença é a base da saudável Hierarquia;

Se dás a tua palavra de Honra e a cumpres com Fidelidade;


Então: És um Português de Vinte Valores!


Mendo Ramires

Aniversário (II)


Parabéns!

Nunca cessarei de me espantar com as coincidências que as datas nos oferecem. E também assim quanto ao “28 de Abril”! Sendo a contemporaneidade época de vacas magras no que toca a factores positivos para o nosso País, este dia consegue festejar um notável duo: nele nasceu o maior governante desde a infausta revolução francesa; igualmente surgiu um espaço internético onde, com brilho, se pensa sem cedência às modas ideológicas, nem ao seu cortejo de pequenas misérias. Mesmo quando não concordei deliciei-me com este cantinho de independência magistralmente animado pelo Duarte Branquinho. Parabéns!

Paulo Cunha Porto

Aniversário

Faz hoje precisamente um ano que iniciei o Pena e Espada. Decidi que não ia fazer a habitual análise retrospectiva e desenrolar a lista dos agradecimentos. Quero, contudo, deixar um muito obrigado a todos os que passam ou passaram por esta casa, não podendo esquecer um abraço ao meu amigo Pedro Guedes, que permitiu a minha estreia blogosférica no seu Último Reduto, em Outubro de 2003.

Como qualquer aniversariante, achei que neste dia devia haver prendas. Assim, pedi a quatro amigos meus, comentadores ou colaboradores, que não tendo blog não lhes falta talento, para enviar uma participação a publicar hoje. Aqui ficam, pela ordem de recepção, em posts separados, os textos dos meus camaradas Paulo Cunha Porto, Mendo Ramires, Miguel Ângelo Jardim e Roberto de Moraes.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Aproximando-se do fim

Por motivos urgentes de serviço, fui destacado para tomar parte numa reunião, que se realizaria no interior do Bunker mais próximo. Compareci à hora designada, convencido de que iriam tratar-se ali assuntos de extrema gravidade, relacionados com a capitulação, que se apresentava já como inevitável. Toda a resistência, que se tentasse, já não poderia ter eficiência, nem mérito; seria, apenas, uma atitude simbólica, de resultados finais absolutamente imprevisto! Berlim não poderia aguentar-se, no estado de esgotamento em que se encontravam os seus defensores.

À entrada do referido Bunker havia grande movimento: soldados que chegavam, soldados que partiam, oficiais que davam ordem – toda aquela actividade militar que caracteriza os momentos de grandes decisões.
Verifiquei que o desânimo andava já na alma dos soldados e que principiava a faltar o rígido conceito de disciplina, que tornou forte e célebre a unidade do exército alemão.
As ordens eram transmitidas sem grande convencimento e cumpridas sem grande diligência! Sobre todos, oficiais e soldados, pesava a certeza de que tudo se encontrava irremediavelmente perdido.
Entrei no Bunker e desci aos compartimentos inferiores, onde encontrei um soldado alemão, que falava, com singular destreza, o castelhano. Alegrou-me este encontro, porque teria maneira de entender quanto ali se dissesse.
O Bunker era espaçoso e complicado, forte e de magnífica concepção.
Na parte mais profunda, à esquerda, abria-se uma sala grande, mas de tecto baixo, de luz e ventilação artificiais. As paredes manchadas e o pavimento mutilado certificavam a quantidade de pessoas que ali teriam suportado as horas angustiosas dos grandes bombardeamentos da avaliação aliada!
Quando entrei, o General, sentado numa cadeira e rodeado por todos os chefes militares do Sector, na maior parte coronéis de artilharia, dá-lhes conta da verdadeira situação e, não obstante considerá-la de extrema gravidade, julga necessário resistir até ao último momento.
A o lado do General, taciturna e visivelmente preocupada, conserva-se, atenta e silenciosa, uma senhora alemã, que segue a exposição sem levantar os olhos de cima da mesa.
Impressionado pela presença de uma mulher numa reunião puramente militar, perguntei, em voz baixa, ao meu companheiro, quem era e o que fazia ali.
Disse-me, apenas, que era:
- Eva Braun.
Perante o meu ar de espanto, fez um ligeiro movimento de cabeça e levou-me a fixar um indivíduo que se encontrava no lado oposto da sala, sem qualquer uniforma, sentado em cima de um caixote. Em voz igualmente ciciada, pronunciou este nome:
- Martin Borman.

O General concluiu a sua exposição com estas palavras: - Devemos marcar, perante a História, a corajosa atitude do povo alemão, que só completamente esmagado permitirá que passe, por cima dele e da Europa, o Cilindro russo. Cada um ao seu posto – e RESISTIR! Quando a resistência for impossível – MORRER!
Estas últimas palavras foram pronunciadas, por todos nós, em posição de sentido.
Saímos do Bunker.

No momento em que me dispunha a regressar ao ponto de partida, vi parar, conduzido por uma motocicleta, provida de side-car, um Coronel da Guarda Pessoal de Hitler e, ao descer, reconheci-o.
Era o mesmo que eu tinha acompanhado, por duas vezes, ao campo russo.
Voltei atrás e cumprimentei-o Reconheceu-me logo e foi o primeiro a falar:
- Hitler morreu! Por sua expressa vontade, o novo Führer é o General Chefe da Defesa de Berlim.
Não me deu tempo para formular qualquer pergunta, porque se afastou rapidamente; desapareceu à entrada do Bunker.
Segui pensando no desabar de tudo aquilo e tentando adivinhar, por hipóteses, como teria morrido aquele homem forte, voluntarioso e dominador, que eu vira passar, na madrugada anterior, no cruzamento das ruas Elsasser, Friedrich e Hessische, tomando rumo norte da cidade de Berlim.
A batalha continua encarniçada e terrível por parte dos russos, que procuram dominar, por todo o preço, os últimos focos de resistência alemã.
Esta, todavia, não cede, senão à maneira que o dilúvio de metralha a vai pulverizando.
Adimrável dignidade, a destes homens, que sabem morrer maravilhosamente, na defesa dos últimos palmos de terra da sua Pátria!

Volto ao Bunker para receber ordens concretas quanto ao destino a dar aos homens confiados ao meu Comando.
Atende-me um oficial do Estado Maior, que tem os olhos húmidos e um ar de profundo abatimento:
- Já não vale a pena fixar-lhe qualquer tarefa, que seria penosa e inútil!
E depois de uma pequena pausa, sem olhar para mim, pondo os olhos no chão, acrescentou:
- O Exército Alemão rendeu-se!
Chocado pela notícia, sentindo o terreno a fugir-me debaixo dos pés, ainda perguntei:
- Que devo fazer agora?
- Nada! Faça-se “comunista”...
O ar com que pronunciou estas últimas palavras encerrava mundos infinitos de ironia, de raiva e de amargura!...
Compreendi o sentido – e não me revoltei.

Miguel Ezquerra Sanchez

in «Lutei até ao fim – Memórias de um voluntário espanhol na Guerra de 1939-1945» (Lisboa, 1947).

Der Untergang

Vi recentemente, num cinema apinhado, “A Queda – Hitler e o fim do III Reich”, realizado por Oliver Hirschbiegel e baseado nas memórias de Traudl Junge, secretária do Führer e num livro de Joachim Fest.

Apesar de não apresentar grande novidade o filme é uma grande produção, com excelentes cenários e guarda-roupa, bem realizado, seja nas difíceis cenas de combate urbano, seja na acção dentro do Bunker, na qual por vezes parecemos participar, e uma boa banda sonora. As explosões dos bombardeamentos em Berlim, por exemplo, estão muito bem filmadas e com óptimo som, tendo tal intensidade que dão uma sensação de realismo e proximidade fantástica.

Esta é uma tragédia onde está muito bem descrita a forma como se desagrega o III Reich e o choque entre as SS, a Wehrmacht, através dos seus Generais, e o Partido, personificado por Goebbels e as milícias do Volkssturm, perante o enfraquecimento e a morte do seu elemento aglutinador: Hitler.

A diferença fundamental neste filme é que alemães fazem de alemães, o que, só por si, torna as personagens mais verdadeiras, afastando-o das americanadas de Hollywood. Hitler é interpretado por Bruno Ganz, que compensa as diferenças fisionómicas com uma excelente representação e o diferente tom de voz com a imitação do sotaque com que o Führer falava em privado. Outra nota positiva para a actriz romena Alexandra Maria Lara, no papel de Traudl Junge. Não me vou prender aqui com algumas imprecisões históricas, destacando apenas o papel incompreensivelmente apagado de Martin Borman e a ausência de referências aos voluntários estrangeiros, que mencionarei mais à frente.

Humano, demasiado humano
Uma das críticas apontadas a “Der Untergang” era a de apresentar um Hitler “humano”. Parece-me que este foi apenas um ardil utilizado para publicitar um filme sobre uma figura histórica normalmente retratada como um “monstro”. A verdade é que, seja qual for a opinião que se tenha sobre Adolf Hitler, ninguém põe em causa que ele fosse humano e, assim, capaz não só de odiar como de amar. Ao entrar na sua esfera pessoal, este filme debruça-se sobre um lado muito desconhecido do Führer: não bebia, não fumava, era vegetariano e demonstrava grande afecto pelo seu Pastor Alemão e por muitas pessoas que dele eram próximas.
Apesar dos 60 anos que nos separam do fim da II Guerra Mundial, não é ainda possível analisar fria e objectivamente o III Reich e o impacto tremendo que este teve na História da Europa e do Mundo. Nunca a diabolização ou deificação de figuras dignificou a História. Outros acontecimentos ensinaram-nos que apenas a distância temporal atenuará a subjectividade.

Pormenor “esquecido”
Entre outros, há um pormenor, de maior importância, que parece ter sido deliberadamente “esquecido”. Refiro-me à presença de voluntários estrangeiros de várias nacionalidades que se encontravam em Berlim nos últimos dias da Guerra e que tiveram um papel activo na defesa da cidade. Sem entrar em grandes detalhes, lembro aqui o livro de Jean Mabire “Mourir à Berlin – Les Français, derniers défenseurs du Bunker d’Adolf Hitler” e um extracto do artigo de François Delatour “Le combat fou des SS Français”, (Historiama, Hors-série 40): «A 30 de Abril, Hitler suicida-se. No dia 1 de Maio, a poucas centenas de metros do Führerbunker, os condenados da França destroem o seu sexagésimo primeiro carro de combate soviético em seis dias e disparam os últimos cartuchos do III Reich.» Para além de franceses, lembro também os espanhóis e, em especial, Miguel Ezquerra Sanchez, que esteve no Bunker pouco tempo antes da morte de Hitler, tal como relata nas suas memórias, das quais publicarei um excerto no post seguinte.

D’O Diabo

Na edição de hoje do semanário «O Diabo», destaco o artigo “Vivó 25 do A”, do sempre recomendável Walter Ventura, do qual aqui deixo o seguinte excerto: «(…) o tal Movimento dos Capitães que, apesar de algumas reivindicações pertinentes, era constituído maioritariamente por militares que, como dizia o Armando Costa e Silva, “faziam da tropa modo de vida”, detestavam a guerra, estavam cansaditos de tantas comissões “lá fora” e, dizia-se nas messes, andariam desconfiados de eventuais infidelidades conjugais enquanto “denodadamente lutavam” por esses sertões fora. Da vida militar, parecia só gostarem da farda, que fazia um vistaço entre o mulherio do bairro, mai-las algumas pequenas sinecuras que a profissão garantia… e boa vida nos quartéis, quando não havia guerra, é claro.» Ainda no “Diabo a Sete”, é o dia da participação do BOS na coluna “Os meus blogues”, desta vez com o artigo “A refundação da direita”.

Turquia (IX)

O Governo turco prepara uma campanha contra o reconhecimento do genocídio arménio perpetrado pelos otomanos durante a I Guerra Mundial. O ministro da Justiça turco afirmou que Ancara considera “inevitável que todas as instituições do Estado e as organizações não governamentais trabalhem para refutar as alegações sem fundamento que são feitas no mundo inteiro. Não houve genocídio”. Fossem os turcos realmente europeus e de certo que o genocídio já havia sido reconhecido há muito.

terça-feira, 26 de abril de 2005

Comentários

Desde o passado fim-de-semana que não tem sido possível aceder aos comentários neste blog. Tal deve-se a um problema no servidor da CommentThis.com, nas palavras deles: “We've had a server failure. We are working to get everything running again”.

Quando o Pena e Espada nasceu - há quase um ano - o Blogger não disponibilizava comentários e, por isso, tive que me virar para outro lado. Agora, para solucionar esta falha, recorri aos comentários da “casa”, que continuarão disponíveis. Só não sei se vou manter os outros comentários, isto é, depois de resolvido o problema técnico. É sempre uma perda, mas sinceramente não gosto de ter duas opções diferentes para comentar, como têm outros blogs. Acho que vai ser ano novo, comentários novos...

segunda-feira, 25 de abril de 2005

Os invejosos

Aqui ao lado, alguns dos nuestros hermanos, roídos de inveja da nossa História Contemporânea, decidiram reabrir uma ferida e, não contentes com isso, cobriram-na com sal. Falo dos invejosos, daqueles que preferiam ter tido um 25 de Abril e principalmente um PREC, em vez de uma transição pacífica.

Os invejosos retiraram recentemente a última estátua de Franco que existia em Madrid. O que se esqueceram de dizer foi que a alguns metros do local deixaram ficar estátuas de antifranquistas. Abriram a ferida, para exigir agora a destruição do Valle de los Caídos, na maior manifestação de falta de respeito por Espanha, pela sua História e, principalmente, pela Paz. Na Basílica do Vale dos Caídos estão sepultados, para além de Francisco Franco e de José Antonio Primo de Rivera, os corpos de milhares de combatentes da Guerra Civil de Espanha de ambos os lados, naquele que foi o colocar simbólico de uma pedra nesse conflito fratricida.

Tal como os Taliban destruíram as estátuas dos Budas, os invejosos tencionam agora, com os mesmos argumentos, destruir este monumento que é património nacional espanhol. Tudo porque é obra do “fascismo” e, perante isto, nada mais interessa. Os invejosos não aceitam que os “fascistas” tenham honrado a memória não só dos seus, mas daqueles contra quem combateram. Não aceitam que o “fascismo” tenha permitido o nascimento de um regime parlamentar sem violência. Os invejosos não aceitam o respeito e a tolerância.



Valle de los Caídos


25 de Abril. Sempre

me irritaram os feriados políticos. Seja o 5 de Outubro, que agora parece que se transformou no dia nacional da maçonaria, ou o 25 de Abril, declarado dia da liberdade, data do golpe de Estado que, apoiado numa reivindicação laboral, derrubou o que restava de um regime em fim de vida. Seguiu-se o que se sabe, da tentação soviética à eminência de uma guerra civil, para chegarmos aos dias de hoje com esta página mal encerrada da nossa História. Mas essa é outra conversa…

Quanto às comemorações, a nível popular comemora-se a liberdade de um fim-de-semana prolongado. A malta borrifa-se nos feriados políticos, para quem apenas servem para ficar mais um dia de papo para o ar. São assim os feriados políticos, sem significado. Assim sendo, façam as cerimónias que entenderem nestas ocasiões, mas a nível institucional, que estes são dois feriados que dispensava de bom grado.

A folga é a única razão que faz com que todos concordem que se continue a celebrar estas datas, da mesma forma que apenas o beberete assegura a festa anual da empresa.

domingo, 24 de abril de 2005

Se não consegues vencê-los…

Junta-te a eles. É o que me lembro ao ver a guinada para o centro das vitórias internas do PSD sobre o PPD e do CDS sobre o PP.

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Leituras em questionário

Eu já tinha visto, por essa Blogosfera fora, a chain letter que o BOS me passou e sabia que havia de aqui cair, já que eu não vou muito à bola com este tipo de coisas. De qualquer forma, aqui fica a quem interessar:

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Provavelmente, o próprio «Fahrenheit 451».

2. Já alguma vez ficaste apanhado por uma personagem de ficção?
Esta do “apanhado” não se aplica muito a mim, mas devo dizer que houve tantas personagens de ficção que me fascinaram, do Ulisses ao Homem-Aranha, passando pelo Rei Artur, que é impossível enumerá-las.

3. Qual foi o último livro que compraste?
«Novos Cátaros para Montségur», de Saint-Loup. Desde que o livro saiu que quis comprá-lo, mas sempre achei o preço exagerado; a Feira do Livro Manuseado resolveu o problema. Tenho também algumas coisas encomendadas pela Internet, mas como ainda não chegaram, acho que não contam...

4. Qual o último que leste?
«A guerra como experiência interior», de Ernst Jünger. Uma obra de que aqui já falei e que volto a aconselhar vivamente a todos.

5. Que livros estás a ler?
«Baudolino», de Umberto Eco. Tenho o vício dos romances históricos e este, para além de muito bem escrito, é bastante divertido. Entretanto, comecei também a ler «Europe, Tiers Monde, même combat», de Alain de Benoist, um excelente livro que já tem uns anitos, mas que apenas consegui adquirir recentemente através da Internet.

6. Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
Nunca achei que estas perguntas sobre permanências em “ilhas desertas” fossem sérias. Por isso, aqui fica a primeira resposta de que me lembrei. «Une Terre, Un Peuple», de Pierre Vial; «L’Archaeofuturisme», de Guillaume Faye; «Nova Direita, Nova Cultura», de Alain de Benoist; «Histoire et Tradition des Européens: 30000 ans d'identité», de Dominique Venner e «Europa – um império de 400 milhões de homens», de Jean Thiriart. A ilha é deserta, que livros podia eu levar senão sobre Povo, Comunidade, Civilização?
Agora, se fosse mesmo a sério, o mais certo era levar cinco resmas de papel e uma caixa de canetas.

7. A que 3 pessoas vais passar este testemunho?
Ao Viriato, ao Humberto Nuno de Oliveira e ao Caturo. Desculpem lá o mau jeito, mas tinha que passar a “batata” a alguém...

A nossa “guerra civil”

Já sei que vou ouvir os comentários do costume acerca do título, mas a verdade é que o que se passa nas estradas portuguesas é uma “guerra civil” que faz mais vítimas do que o terrorismo em certos países. Longe vão os tempos em que a culpa – a tal que nunca morre solteira – era das más estradas e do parque automóvel envelhecido. Numa onda de modernidade e com o patrocínio europeu, o cenário alterou-se radicalmente. Ligou-se o rectângulo de uma ponta à outra com auto-estradas, permitiu-se o acesso a carros novos com a generalização do crédito e o consumismo desenfreado, para além das inspecções periódicas, da obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, etc. Ou seja, copiaram-se as boas práticas estrangeiras e mudou-se tudo o que era possível mudar, excepto a nossa mentalidade. Aquela que nos faz adoptar uma postura que em demasiados casos nos leva a perpetuar esta sangria rodoviária sem sentido.

Os portugueses continuam a morrer e a matar-se na estrada. E a culpa é nossa. Não alteramos a nossa maneira de ser, porque “mais cego é o que não quer ver” e nos inquéritos anuais divulgados, os automobilistas nacionais consideram que “a culpa da situação é dos condutores, mas que eles próprios conduzem bem”.

Perante tal situação, foi lançada uma operação de marketing pomposamente apelidada de “novo código”. Ora a grande novidade, para além do colete reflector, é a subida generalizada das multas. Numa atitude típica de “se não podes vencê-los, lucra com eles”, os nossos (des)governantes preparam-se para anunciar o sucesso da iniciativa, já que a curto prazo este elemento intimidador funciona, para depois voltarmos ao topo do ranking europeu de sinistralidade.

O cerne do problema – reconhecido por todos – é a mentalidade dos portugueses e enquanto não houver uma tomada de consciência generalizada que a faça alterar continuaremos na mesma. Ainda hoje me lembro da melhor descrição dos condutores portugueses que ouvi, fê-la uma actriz britânica reformada, que havia escolhido o Algarve como residência, numa entrevista na televisão: “os portugueses são excelentes pessoas, simpáticos, hospitaleiros, prestáveis, mas quando estão atrás de um volante crescem-lhes cornos e transformam-se em autênticos demónios…

«O Diabo», 19/04/2005.

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Bento XVI

Não consigo esconder a satisfação de ver a revolta da “esquerda”, a tristeza da “direita canhota” e a desilusão de outros politicamente correctos com a eleição de Joseph Ratzinger. Este alarmismo, que muito se tem notado, mostra bem como ainda está presente na mentalidade de muitos a germanofobia com que os vencedores da II Guerra Mundial inquinaram o mundo ocidental. A pronta “descoberta” de supostas “páginas negras” no curriculum de Ratzinger, mostra bem a preocupação de determinados sectores com um Papa que tem, aparentemente, a intenção de fortalecer a Igreja Católica.

A escolha do nome Bento XVI, parece-me um bom indicador, já que S. Bento é o patrono da Europa e Bento XV (Giacomo della Chiesa) foi o Papa durante a fratricida I Guerra Mundial e tentou a todo o custo a paz, de modo a evitar aquilo que considerou “o suicídio da Europa”. Para além desta preocupação com a Europa, Ratzinger é um opositor à entrada da Turquia na União Europeia e tem alertado para o perigo islâmico.

Estes são alguns dos prós que têm deixado muita gente preocupada, esperemos para ver quais são os contras. Esperemos, principalmente, que este seja o Papa indicado para os tempos difíceis que a Europa vai atravessar.

terça-feira, 19 de abril de 2005

Blogs n'O Diabo (VI)

Estou de volta ao semanário «O Diabo» nas páginas do Walter Ventura, mais concretamente na coluna “Os meus blogues”, com o texto “A nossa guerra civil”, uma reflexão sobre a mentalidade dos portugueses ao volante e as suas consequências.

Surpresa fundida (II)

A fusão Nova Frente/SG Buiça, ontem anunciada, revelou-se um nado morto. O BOS anunciou já o cancelamento das negociações e informou que cada um seguirá o seu caminho.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Conclave 2005

Já repararam como grande parte dos media e das pessoas estão a encarar a escolha do próximo papa? Para além de, como diz o Pedro Guedes na sua estreia no Café Expresso, a hipotética eleição do Cardeal-Patriarca de Lisboa “fazer lembrar um patriotismo à la euro2004” (melhor dizendo “patrioteirismo”), o Conclave 2005 é a mais recente feira de variedades para entretenimento de todos. Depois da cobertura da morte de João Paulo II ao melhor estilo do “Big Brother”, eis que passamos para a “Quinta dos Cardeais”. Este novo sucesso televisivo conta com a apresentação de todos os “papáveis” (belíssimo adjectivo para piadas de tasca...) e a análise, confiada a “especialistas”, sobre as possibilidades de cada um na “corrida”, para além de directos sobre a cor do fumo e até votações telefónicas com chamadas de valor acrescentado.

Até eu, que não sou católico, me espanto com a forma como certos católicos vivem entusiasticamente este triste espectáculo, folheando alegremente a mais recente revista “cor-de-rosa”, desconhecendo por completo a doutrina cristã. Por outro lado, certos responsáveis da Igreja congratulam-se com esta espantosa mobilização do rebanho... Não passa disso mesmo, de um rebanho! Mais um triunfo do imediatismo ignorante, neste mundo cada vez mais vazio de ideias e valores.

Surpresa fundida

A notícia do dia na blogosfera - a provar que este é um universo onde tudo pode acontecer - é a inesperada fusão entre o Nova Frente e o SG Buiça. Aguardam-se desenvolvimentos...

sábado, 16 de abril de 2005

Colecções

O Eurico de Barros reflecte hoje, na sua coluna no Diário de Notícias, sobre “A cultura da colecção”. Custa-me sempre a acreditar quando alguém me assegura que nunca coleccionou alguma coisa. Na minha adolescência não havia colega de escola que não juntasse latas, autocolantes, maços de tabaco, para citar apenas as colecções mais comuns. Nunca perdi esse gosto, ou melhor dizendo, instinto, como o caracteriza o Eurico. Hoje em dia, e só para falar em miniaturas, para além dos cavaleiros medievais que ele também colecciona, ainda tenho uns quantos aviões da II Guerra Mundial, todas reproduções de excelente pormenor e qualidade. Se das miniaturas passasse para carrinhos, figuras articuladas, e demais brinquedos que herdei, conservei ou juntei, ficava aqui a noite toda…

terça-feira, 12 de abril de 2005

Razões para ler «O Diabo»

Na edição de hoje do semanário «O Diabo», merecem destaque a excelente entrevista a José Adelino Maltez, o habitual “O Diabo a Sete” de Walter Ventura, desta vez com a participação de Manuel Azinhal na coluna “Os meus blogues”, e o artigo de Humberto Nuno de OliveiraA França e o não à Europa”. De referir ainda duas notícias que põem o dedo na ferida em assuntos de extrema importância e que pouco ou nada têm sido referidos pela “comunicação social”, uma sobre a gravidade da crise do petróleo e as suas possíveis consequências e outra sobre a possibilidade das políticas anunciadas pelo novo (des)governo fazerem com que as crianças possam vir a “aprender inglês sem saber português”. E ainda há quem gaste dinheiro em resmas de papel impresso sem conteúdo...

Publicação nacional (II)

O FG Santos, decidido a levar avante o projecto de uma publicação nacional, traçou os planos para uma revista, formato que também é o que mais me agrada. Com tanta motivação e planeamento, a coisa arrisca-se a sair brevemente, desde que resulte de esforço e vontade conjuntos. Como já havia previsto aqui, penso que haverá novidades num futuro próximo.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Feira do Livro Manuseado

Hoje, ao fim da tarde, fui à Feira do Livro Manuseado a decorrer na Rua Augusta, em Lisboa. Não resisto a um bom passeio entre livros a tentar descobrir um “achado”. O espaço não é muito grande e comprei muito pouca coisa, mas vale sempre a pena lá ir. Ora vejam algumas das pechinchas que encontrei:
  • Memórias de um Fascista”, Lucien Rebatet, Livros do Brasil, por € 5;
  • Novos Cátaros para Montségur”, Saint-Loup, Hugin, por € 8;
  • Apologia da Barbárie”, José Luis Ontiveros, Hugin, por € 3;
  • Vários títulos da colecção “B.A.-BA” da Hugin, por € 4.
Quem ainda não as tem, aproveite esta oportunidade. Estes livros são apenas uma amostra do que é possível encontrar. Outra boa notícia é que a Feira, cujo encerramento estava previsto para hoje, vai continuar aberta ao público durante este fim-de-semana, segundo me informou uma funcionária da caixa.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

Publicação nacional

O FG Santos lançou a ideia – recorrente na nossa área – de “incrementar o combate cultural nacional” através da “edição de um jornal semanal ou de uma revista mensal”. Adiantando trabalho, sugeriu prontamente uma redacção inteiramente formada por bloggers e comentadores, ficando eu obviamente lisonjeado ao ver que conta comigo para a equipa. Isto é música para os meus ouvidos e estou convicto que algo nascerá num futuro próximo. Na verdade, talentos não faltam – a blogosfera é prova disso – vontade também não e, perante o actual vazio no espectro das publicações nacionais, esta não é apenas uma boa ideia, é uma necessidade. No entanto, nos comentários, surgiram prontamente as inevitáveis preocupações com o financiamento, que considero sem dúvida o principal motivo por que um projecto destes ainda não se concretizou.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Ir a Roma e ver o Papa

Recordo-me de uma passagem de ano em Roma, há cerca de dez anos, onde fui em família. Cheguei a Fiumicino já o Sol se recolhia, o que fez com que a minha chegada à capital italiana coincidisse com a chegada da noite. Depositada a bagagem no hotel, decidi responder ao apelo do apetite e rumei ao Trastevere onde me esperava uma pizza e um chianti, num ristorante onde me senti tão bem que parecia lá ir habitualmente. Para lá chegar, fiz-me transportar num táxi onde o motorista me deu a conhecer a internacionalmente famosa condução romana. Num percurso que não demorou dez minutos, conseguiu ignorar dois semáforos que se encontravam vermelhos e ainda trocou insultos - exaltado - com um jovem que circulava numa Vespa em sentido contrário numa rua estreita. Aqui estava um homem capaz de dar uma pós-graduação em acelerações bruscas, travagens a fundo e curvas bem guinadas a muitos taxistas lisboetas.

Adorei a cidade e por isso não posso aqui descrevê-la como gostaria, dado que o texto atingiria uma dimensão considerável. Tentei aproveitar ao máximo e ver (não olhar) tudo o que consegui.

Em relação às comemorações no ano novo, por todo o lado pude ler desde que cheguei avisos alertando para o perigo do fogo de artifício e a sua proibição legal nesta altura. Explicaram-me que tal se devia ao costume romano de utilizar bombinhas, foguetes, cascatas, entre outros, quando se entrava no ano seguinte. É claro que proibições e avisos não demoveram a população local de cumprir a sua tradição festiva e quando no final do último dia do ano soaram as doze badaladas parecia que Nero havia voltado. A cidade incendiou-se com o fogo de artifício colocado em casas ou lançado nas ruas, para produzir um espectáculo memorável. Até às tantas da madrugada as ruas foram povoadas por multidões de pessoas que se cruzavam e desejavam mutuamente “auguri!

Recuperado de tão rija festança, decidi no dia seguinte fazer jus ao ditado. Dirigi-me à Piazza di San Pietro para ver o Papa, que ia transmitir a sua habitual mensagem de ano novo. Não consigo dizer Cidade do Vaticano porque fui até lá a pé e só me apercebi que tinha passado a fronteira quando o número de lojas de souvenirs religiosos se tornou asfixiante. Senti, como muitas pessoas que conheço que lá foram, que o Vaticano é parte de Roma. Nós não dizemos “ir a Roma e ver o Papa”? E eu vi-o, com a particularidade de que não apareceu na janela esperada por se encontrar debilitado fisicamente.

Quando João Paulo II se dirigia aos que lotavam a Praça de São Pedro, brinquei (já sei que com estas coisas não se brinca, mas não resisti…) com um familiar muito devoto que aquele provavelmente não era o Papa. Estava na janela errada e era difícil de identificar àquela distância, o que podia ter levado o Vaticano a testar um duplo que pudesse utilizar em ocasiões futuras.

Agora os católicos choram a partida de um Papa que lhes merecia o carinho e a admiração e o mundo espera o fumo branco enquanto arrisca palpites, ao mesmo tempo que continuam os bombardeamentos mediáticos, porque esta é uma escolha que definirá a posição da Igreja Católica nos desafios que se avizinham.