sexta-feira, 24 de junho de 2005

Manifestação (IV): O tratamento jornalístico

A cobertura feita pelos media do protesto contra a criminalidade no passado dia 18 de Junho em Lisboa merece uma reflexão. Esta é uma situação recorrente na comunicação social portuguesa. Quando não pode ignorar certas notícias, faz uma adaptação livre, invertendo a ordem dos factos ou a sua importância, fabricando uma história não só politicamente correcta como supostamente mais vendável e rentável.

As primeiras notícias começaram por classificar um protesto que foi convocado apelando a todas as pessoas independentemente da sua ideologia e filiação partidária que se manifestassem contra a crescente criminalidade como uma concentração de “skinheads” e “nazis”. Continuando a tentar desencorajar as pessoas a comparecerem no Martim Moniz, os media, recorrendo a “especialistas”, fizeram as mais alarmistas e assustadoras previsões de confrontos e de contra-manifestações violentas, que nunca aconteceram. Mesmo depois da iniciativa ter decorrido na perfeita normalidade e provocado a adesão de centenas de populares, os telejornais abriram com imagens de um cordão policial que evitou “possíveis desacatos”, não informando que os “pequenos incidentes” aconteceram já terminada a manifestação. Quanto a números, foram apresentados valores dos 100 aos 500 participantes, quando as imagens os desmentiam claramente. Ainda na televisão, as imagens de páginas pessoais de Internet e fóruns de participação livre eram propositadamente confundidas com as dos organizadores e dos apoiantes. Por fim, para não entrar em excessivos pormenores, foram entrevistadas dezenas de pessoas e foi tudo filmado exaustivamente, para depois vermos em casa um trabalho construído não para informar, mas para motivar um ódio político. Com o estado a que chegámos, há já felizmente muita gente que simplesmente não acredita em tudo o vê e lê.

Para atenuar as acusações de subjectividade, recorro ao jornalismo comparado. Quem teve a oportunidade de ver a notícia do canal Euronews, notou diferenças óbvias face à cobertura nacional. Aí respeitou-se o princípio da prioridade ao essencial, falando de seguida no acessório e fazendo depois a ligação a uma notícia relacionada. Falou-se da manifestação e das suas motivações, ilustrando com filmagens da marcha, fazendo depois uma breve referência aos “pequenos incidentes”, sem recorrer a imagens, para depois ligar com a visita do Presidente da República ao Bairro da Cova da Moura. Este canal noticioso europeu, para além de ser insuspeito de qualquer ligação política aos nacionalistas, faz uso das informações e imagens cedidas pela RTP.

Parece-me que os jornalistas portugueses conheciam já o “Livro de Estilo do Bom Jornalista”, que o BOS publicou hoje.

Termino com a ressalva de que nem só os nacionalistas são alvo deste tratamento mediático vergonhoso, como nem todos os jornalistas se prestam a fazer um trabalho tão medíocre e marcado pela falta de objectividade, muita da responsabilidade deste resultado final está nos editores e directores, que não ousam agitar as águas paradas da sociedade portuguesa para não arriscar posições.

1 comentário:

  1. A nível político arrisco-me a dizer que só os nacionalistas são alvo deste tipo de tratamento, embora também nos caiba alguma responsabilidade, mas isso são outras contas.

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