sexta-feira, 22 de abril de 2005

A nossa “guerra civil”

Já sei que vou ouvir os comentários do costume acerca do título, mas a verdade é que o que se passa nas estradas portuguesas é uma “guerra civil” que faz mais vítimas do que o terrorismo em certos países. Longe vão os tempos em que a culpa – a tal que nunca morre solteira – era das más estradas e do parque automóvel envelhecido. Numa onda de modernidade e com o patrocínio europeu, o cenário alterou-se radicalmente. Ligou-se o rectângulo de uma ponta à outra com auto-estradas, permitiu-se o acesso a carros novos com a generalização do crédito e o consumismo desenfreado, para além das inspecções periódicas, da obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, etc. Ou seja, copiaram-se as boas práticas estrangeiras e mudou-se tudo o que era possível mudar, excepto a nossa mentalidade. Aquela que nos faz adoptar uma postura que em demasiados casos nos leva a perpetuar esta sangria rodoviária sem sentido.

Os portugueses continuam a morrer e a matar-se na estrada. E a culpa é nossa. Não alteramos a nossa maneira de ser, porque “mais cego é o que não quer ver” e nos inquéritos anuais divulgados, os automobilistas nacionais consideram que “a culpa da situação é dos condutores, mas que eles próprios conduzem bem”.

Perante tal situação, foi lançada uma operação de marketing pomposamente apelidada de “novo código”. Ora a grande novidade, para além do colete reflector, é a subida generalizada das multas. Numa atitude típica de “se não podes vencê-los, lucra com eles”, os nossos (des)governantes preparam-se para anunciar o sucesso da iniciativa, já que a curto prazo este elemento intimidador funciona, para depois voltarmos ao topo do ranking europeu de sinistralidade.

O cerne do problema – reconhecido por todos – é a mentalidade dos portugueses e enquanto não houver uma tomada de consciência generalizada que a faça alterar continuaremos na mesma. Ainda hoje me lembro da melhor descrição dos condutores portugueses que ouvi, fê-la uma actriz britânica reformada, que havia escolhido o Algarve como residência, numa entrevista na televisão: “os portugueses são excelentes pessoas, simpáticos, hospitaleiros, prestáveis, mas quando estão atrás de um volante crescem-lhes cornos e transformam-se em autênticos demónios…

«O Diabo», 19/04/2005.

1 comentário:

  1. Não concordo, de todo. As nossas estradas (e autoestradas) são uma merda (e basta passar a fronteira para se ver a diferença), mal sinalizadas e mal construidas. Os nossos carros também continuam a ser umas latas velhas, as inspecções funcionam mal e as escolas de condução pior. É claro que resolver estes problemas é dificil, e opta-se pela solução fácil: atirar a culpa para cima do pagode, que de tanto ouvir a mesma ladainha, até já acredita (é a velha história, uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade).

    NC

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