Apesar de não apresentar grande novidade o filme é uma grande produção, com excelentes cenários e guarda-roupa, bem realizado, seja nas difíceis cenas de combate urbano, seja na acção dentro do Bunker, na qual por vezes parecemos participar, e uma boa banda sonora. As explosões dos bombardeamentos em Berlim, por exemplo, estão muito bem filmadas e com óptimo som, tendo tal intensidade que dão uma sensação de realismo e proximidade fantástica.Esta é uma tragédia onde está muito bem descrita a forma como se desagrega o III Reich e o choque entre as SS, a Wehrmacht, através dos seus Generais, e o Partido, personificado por Goebbels e as milícias do Volkssturm, perante o enfraquecimento e a morte do seu elemento aglutinador: Hitler.
A diferença fundamental neste filme é que alemães fazem de alemães, o que, só por si, torna as personagens mais verdadeiras, afastando-o das americanadas de Hollywood. Hitler é interpretado por Bruno Ganz, que compensa as diferenças fisionómicas com uma excelente representação e o diferente tom de voz com a imitação do sotaque com que o Führer falava em privado. Outra nota positiva para a actriz romena Alexandra Maria Lara, no papel de Traudl Junge. Não me vou prender aqui com algumas imprecisões históricas, destacando apenas o papel incompreensivelmente apagado de Martin Borman e a ausência de referências aos voluntários estrangeiros, que mencionarei mais à frente.
Humano, demasiado humano
Uma das críticas apontadas a “Der Untergang” era a de apresentar um Hitler “humano”. Parece-me que este foi apenas um ardil utilizado para publicitar um filme sobre uma figura histórica normalmente retratada como um “monstro”. A verdade é que, seja qual for a opinião que se tenha sobre Adolf Hitler, ninguém põe em causa que ele fosse humano e, assim, capaz não só de odiar como de amar. Ao entrar na sua esfera pessoal, este filme debruça-se sobre um lado muito desconhecido do Führer: não bebia, não fumava, era vegetariano e demonstrava grande afecto pelo seu Pastor Alemão e por muitas pessoas que dele eram próximas.
Apesar dos 60 anos que nos separam do fim da II Guerra Mundial, não é ainda possível analisar fria e objectivamente o III Reich e o impacto tremendo que este teve na História da Europa e do Mundo. Nunca a diabolização ou deificação de figuras dignificou a História. Outros acontecimentos ensinaram-nos que apenas a distância temporal atenuará a subjectividade.
Pormenor “esquecido”
Entre outros, há um pormenor, de maior importância, que parece ter sido deliberadamente “esquecido”. Refiro-me à presença de voluntários estrangeiros de várias nacionalidades que se encontravam em Berlim nos últimos dias da Guerra e que tiveram um papel activo na defesa da cidade. Sem entrar em grandes detalhes, lembro aqui o livro de Jean Mabire “Mourir à Berlin – Les Français, derniers défenseurs du Bunker d’Adolf Hitler” e um extracto do artigo de François Delatour “Le combat fou des SS Français”, (Historiama, Hors-série 40): «A 30 de Abril, Hitler suicida-se. No dia 1 de Maio, a poucas centenas de metros do Führerbunker, os condenados da França destroem o seu sexagésimo primeiro carro de combate soviético em seis dias e disparam os últimos cartuchos do III Reich.» Para além de franceses, lembro também os espanhóis e, em especial, Miguel Ezquerra Sanchez, que esteve no Bunker pouco tempo antes da morte de Hitler, tal como relata nas suas memórias, das quais publicarei um excerto no post seguinte.
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