Tanto escrevo, ó mão escrava,
E nem um poema fulgura,
Nem um verso se me crava
A fundo na carne ou grava
Na alma qualquer gravura
Ai tempo de sangue e lava,
O tempo em que eu te abraçava,
Meu amor, e em que enlaçava
cada noite p'la cintura
Dormes o sono dos justos
Enquanto eu, até às tantas,
Ceifo sombras, sonhos, sustos,
Sofro a insónia que implantas...
Mar vivo de um tempo morto
Sem rapsodos, aedos...
Ai tempo, mais que remoto,
em que tínhamos um porto
(sempre, sempre, sempre um porto)
No cerne dos arvoredos.
(E beijo ainda o eu corpo
nos meus dedos!...)
Nosso lombo e nosso ópio
Nossa noite Nosso dia
Corpo à sombra de si próprio
Cântico desta agonia
Pernas Braços - um bailado
Orquestrado em convulsão.
Ó corpo - oceano encrespado,
Crispado mas navegado
Por um corpo, um outro
Corpo - embarcação.
Varado de lado a lado
Corpo teu martirizado
Lava do mesmo vulcão
Corpo ó corpo aprisionado
À minha libertação
Rodrigo Emílio
in «Serenata a Meus Umbrais».
sexta-feira, 29 de abril de 2005
Arco da Insónia
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