quarta-feira, 27 de abril de 2005

Aproximando-se do fim

Por motivos urgentes de serviço, fui destacado para tomar parte numa reunião, que se realizaria no interior do Bunker mais próximo. Compareci à hora designada, convencido de que iriam tratar-se ali assuntos de extrema gravidade, relacionados com a capitulação, que se apresentava já como inevitável. Toda a resistência, que se tentasse, já não poderia ter eficiência, nem mérito; seria, apenas, uma atitude simbólica, de resultados finais absolutamente imprevisto! Berlim não poderia aguentar-se, no estado de esgotamento em que se encontravam os seus defensores.

À entrada do referido Bunker havia grande movimento: soldados que chegavam, soldados que partiam, oficiais que davam ordem – toda aquela actividade militar que caracteriza os momentos de grandes decisões.
Verifiquei que o desânimo andava já na alma dos soldados e que principiava a faltar o rígido conceito de disciplina, que tornou forte e célebre a unidade do exército alemão.
As ordens eram transmitidas sem grande convencimento e cumpridas sem grande diligência! Sobre todos, oficiais e soldados, pesava a certeza de que tudo se encontrava irremediavelmente perdido.
Entrei no Bunker e desci aos compartimentos inferiores, onde encontrei um soldado alemão, que falava, com singular destreza, o castelhano. Alegrou-me este encontro, porque teria maneira de entender quanto ali se dissesse.
O Bunker era espaçoso e complicado, forte e de magnífica concepção.
Na parte mais profunda, à esquerda, abria-se uma sala grande, mas de tecto baixo, de luz e ventilação artificiais. As paredes manchadas e o pavimento mutilado certificavam a quantidade de pessoas que ali teriam suportado as horas angustiosas dos grandes bombardeamentos da avaliação aliada!
Quando entrei, o General, sentado numa cadeira e rodeado por todos os chefes militares do Sector, na maior parte coronéis de artilharia, dá-lhes conta da verdadeira situação e, não obstante considerá-la de extrema gravidade, julga necessário resistir até ao último momento.
A o lado do General, taciturna e visivelmente preocupada, conserva-se, atenta e silenciosa, uma senhora alemã, que segue a exposição sem levantar os olhos de cima da mesa.
Impressionado pela presença de uma mulher numa reunião puramente militar, perguntei, em voz baixa, ao meu companheiro, quem era e o que fazia ali.
Disse-me, apenas, que era:
- Eva Braun.
Perante o meu ar de espanto, fez um ligeiro movimento de cabeça e levou-me a fixar um indivíduo que se encontrava no lado oposto da sala, sem qualquer uniforma, sentado em cima de um caixote. Em voz igualmente ciciada, pronunciou este nome:
- Martin Borman.

O General concluiu a sua exposição com estas palavras: - Devemos marcar, perante a História, a corajosa atitude do povo alemão, que só completamente esmagado permitirá que passe, por cima dele e da Europa, o Cilindro russo. Cada um ao seu posto – e RESISTIR! Quando a resistência for impossível – MORRER!
Estas últimas palavras foram pronunciadas, por todos nós, em posição de sentido.
Saímos do Bunker.

No momento em que me dispunha a regressar ao ponto de partida, vi parar, conduzido por uma motocicleta, provida de side-car, um Coronel da Guarda Pessoal de Hitler e, ao descer, reconheci-o.
Era o mesmo que eu tinha acompanhado, por duas vezes, ao campo russo.
Voltei atrás e cumprimentei-o Reconheceu-me logo e foi o primeiro a falar:
- Hitler morreu! Por sua expressa vontade, o novo Führer é o General Chefe da Defesa de Berlim.
Não me deu tempo para formular qualquer pergunta, porque se afastou rapidamente; desapareceu à entrada do Bunker.
Segui pensando no desabar de tudo aquilo e tentando adivinhar, por hipóteses, como teria morrido aquele homem forte, voluntarioso e dominador, que eu vira passar, na madrugada anterior, no cruzamento das ruas Elsasser, Friedrich e Hessische, tomando rumo norte da cidade de Berlim.
A batalha continua encarniçada e terrível por parte dos russos, que procuram dominar, por todo o preço, os últimos focos de resistência alemã.
Esta, todavia, não cede, senão à maneira que o dilúvio de metralha a vai pulverizando.
Adimrável dignidade, a destes homens, que sabem morrer maravilhosamente, na defesa dos últimos palmos de terra da sua Pátria!

Volto ao Bunker para receber ordens concretas quanto ao destino a dar aos homens confiados ao meu Comando.
Atende-me um oficial do Estado Maior, que tem os olhos húmidos e um ar de profundo abatimento:
- Já não vale a pena fixar-lhe qualquer tarefa, que seria penosa e inútil!
E depois de uma pequena pausa, sem olhar para mim, pondo os olhos no chão, acrescentou:
- O Exército Alemão rendeu-se!
Chocado pela notícia, sentindo o terreno a fugir-me debaixo dos pés, ainda perguntei:
- Que devo fazer agora?
- Nada! Faça-se “comunista”...
O ar com que pronunciou estas últimas palavras encerrava mundos infinitos de ironia, de raiva e de amargura!...
Compreendi o sentido – e não me revoltei.

Miguel Ezquerra Sanchez

in «Lutei até ao fim – Memórias de um voluntário espanhol na Guerra de 1939-1945» (Lisboa, 1947).

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