quinta-feira, 28 de abril de 2005

Aniversário (V)

A pedido do Duarte Branquinho, sólido camarada e jovem colega de História, disciplina que o não tolhe, antes lhe areja o espírito e lhe estrutura o sentido de humor, aqui vai, com um abraço, para assinalar o primeiro aniversário do seu blogue, o meu primeiro Bilhete publicado, de jornalista.
É este um género pouco cultivado entre nós, que eu viria a desenvolver, até nisso já com este meu feitio de ir a contrapelo. Corriam os anos sessenta quando viu a luz do dia e, dado não ter encontrado o original no prazo de horas, tive de o reescrever, de cabeça. Espero que não tenha perdido, de todo, a frescura dos meus vinte anos.

O Gato e a Velha

Era um canto para que apetecia olhar logo ao descer os três degraus de entrada naquele café esconso, meio tasca, à beira daquela rua que escorria uma fauna menos boa.
O tempo, qual pequeno animal acinzentado e viscoso, parecia passar despercebido, pegajoso e indiferente, no meio daquela tarde soturna de um Inverno que teimava em prolongar-se.
Lá estava a velha, cercada de sacos baratos e gastos, cheios de jornais velhos a condizerem com o capote ruço que mal lhe cobria o corpo informe onde outrora, talvez, carnes rijas tivessem despertado apetites.
E estava também o gato, cinzento e gordo, enfastiado, que se dignava olhar distraidamente o tampo da mesa em que a velha se servia de um galão e de um bolo de arroz – almoço atrasado, jantar adiantado?
De súbito ela ofereceu-lhe uma parte do bolo mas ele, desprendido, virou a cabeça, recusando. Aí ela olhou, rápido, em volta. Depois meteu aquelas migalhas à boca, mastigou, deglutiu e olhou de novo.
Mas só o gato tinha visto, e, esse, estava-se nas tintas.

Roberto de Moraes

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