terça-feira, 30 de novembro de 2004

Vira o disco...

Sampaio decidiu finalmente dissolver a Assembleia da República. Tem piada como agora toda a gente estava à espera desta decisão, mas há uns dias atrás, quando o país estava convicto da permanência do governo, foi a revista britânica Economist que alertou para a concretização desta possibilidade. O Presidente da República pode agora dormir descansado, já que, depois de tantos anos em Belém, conseguiu finalmente fazer uma coisa que será lembrada. Por outro lado, cai de novo nas graças da esquerda, ao abrir caminho a um governo PS, provavelmente com maioria absoluta. Faz, assim, com que o cargo de primeiro-ministro caia no colo de Sócrates exactamente da mesma forma que caiu a Durão Barroso, não por mérito próprio, mas por incompetência alheia.

domingo, 28 de novembro de 2004

Regresso ao passado em Almada

No Congresso do PCP, Jerónimo de Sousa foi “eleito” novo secretário-geral, como já se sabia de antemão, numa tentativa de devolver o partido aos “operários”. Os analistas apelidam-no de coveiro do partido e dizem que levará ao fim o PCP, ao afastar os “renovadores” e representar a “linha dura” marxista-leninista. A verdade é que este barco já se estava a afundar e não sei até que ponto a “linha mole” o salvaria. Uma coisa é certa, os comunistas decidiram afundar-se com o partido e escolheram, sem dúvida, o comandante certo, do tipo que fura os coletes salva-vidas…

sábado, 27 de novembro de 2004

A vocação da Europa

O espírito europeu é talvez a primeira manifestação histórica da fé e vontade de um futuro.
A humanidade europeia mal poderá dar o salto ousado que os mais confiantes esperam dela, se antes disso se não despir até ao seu ser nu, e se não regressar a sua verdadeira natureza. O entusiasmo que sinto por esta cura de nudez e verdade, a consciência de que ela é inevitável se quisermos abrir o caminho a um futuro digno, impele-me a exigir, perante todo o passado, a liberdade de pensamento. O futuro deve dominar sobre o passado, indicando-nos a nossa posição em face do que se passou. No entanto, devemos acautelar-nos contra o pecado mortal daqueles que dominaram o século XIX: da sua falta de consciência de responsabilidade. Eles esqueceram de se manter vigilantes no seu posto. Aquele que se deixa impelir pela corrente de um decorrer favorável dos acontecimentos, insensível perante os perigos e ameaças que espreitam ainda nas horas mais amenas, essa falha perante a responsabilidade com que foi incumbido. Hoje torna-se necessário despertar uma super-sensibilidade naqueles que podem senti-la.
Para a Europa não há nenhuma esperança, se o seu destino não for posto nas mãos de homens verdadeiramente à altura da época, que sintam o pulsar de todo o passado histórico, que reconheçam o actual nível da vida e detestem qualquer atitude arcaica e primitiva. Nós necessitamos de História em toda a sua vastidão, se lhe quisermos fugir e não recair nela.
Cada geração tem o seu próprio destino, a sua missão histórica. Nós pertencemos à nossa época só na medida em que somos capazes de aceitar as suas alternativas e combater numa das trincheiras abertas por ela, porquanto viver é, num sentido essencial, o alistamento sob as bandeiras e a decisão pela luta. Vivere militare est diz Séneca com o nobre gesto de um legionário.
Existem povos massa que se levantam resolutamente contra os povos grandes e criadores, contra aquela élite da estirpe humana que fez a História.
É ridículo que esta ou aquela pequena república se levante na ponta dos pés e ultraje a Europa do seu recanto do mundo, anunciando a sua retirada da História Mundial.
A retirada da Europa não teria importância, se houvesse alguém capaz de a substituir. Mas não existe ninguém. Nova Iorque e Moscovo não são nada de novo perante a Europa. São zonas à margem do domínio europeu que, desmembrando-se do tronco, perderam o seu significado.
Habituando-se o europeu a que ele não mande, então bastariam uma geração e meia para que o velho continente, e depois dele o mundo, se afunde em inércia moral, esterilidade e barbarismo geral. Só a consciência de dirigir e de se responsabilizar, e a disciplina que daí resulta, podem manter viva a alma do Ocidente. Ciência, Arte, Técnica e todo o resto só podem prosperar na atmosfera estimulante do sentimento de domínio. Se este falta, o europeu decairá cada vez mais. Os espíritos não terão por muito tempo aquela inquebrantável fé em si mesmos que os faz fortes, ousados e persistentes para a criação de grandes, novas ideias. Incapaz de acções de impulso criador, o europeu cairá no passado, no hábito e nos caminhos já percorridos.
Será, porém, tão certo que a Europa se encontre em decadência, renuncie ao domínio e abdique? Não será este aparente ocaso a crise salvadora que permite à Europa de se tornar verdadeiramente a Europa? Não foi a manifesta decadência das nações europeias uma necessidade inevitável, se um dia devesse surgir uma comunidade dos povos europeus que substituísse a multiplicidade da Europa pela sua verdadeira unidade?
Para os europeus irrompe agora a época em que a Europa pode tornar-se uma ideia nacional. E esta crença é muito menos utópica do que teria sido a profecia dalguns espanhóis no século XIX. Quanto mais o Estado nacional do Ocidente se mantiver fiel ao seu verdadeiro ser, tanto mais infalivelmente ele se desenvolverá num poderoso Estado continental.
Mal as nações do Ocidente se espalharam até às suas actuais fronteiras, logo à sua volta e por trás delas se tornou visível como que uma fundação da Europa. A Europa é a paisagem comum em que se movem todos os europeus desde a Renascença, e essa paisagem europeia são os próprios povos.
Enquanto se pelejam sobre uma leiva do solo, em muitos centros de outros estabelecia-se comércio com o inimigo, e trocavam-se ideias, formas de arte e princípios religiosos. O estrondo das batalhas foi, de certo modo, apenas um reposteiro, por detrás do qual com tanta mais tenacidade trabalhava o tear da paz, tecendo uma nas outras a vida das nações inimigas. Em cada geração nova cresce a identidade das almas ou, para nos exprimirmos com mais prudência e exactidão: espanhóis, alemães, italianos e franceses são e permanecem tão diferentes quanto se queira mas eles têm, no entanto, a mesma estrutura psíquica e, principalmente, são constituídos com o mesmo conteúdo, religião, ciência, direito e arte; valores sociais e eróticos são assuntos comuns. Mas estas são porém, as substâncias espirituais, das quais nós vivemos. A homogeneidade é, portanto, ainda mais perfeita do que se as almas fossem fundidas num mesmo molde.
Se fizermos hoje um balanço dos nossos bens espirituais - teorias e normas, desejos e suposições - verificar-se-á que a maior parte disso não deriva da nossa pátria, mas sim do fundo europeu comum. Em todos nós, o europeu sobrepassa de muito o alemão, espanhol, francês...
Se nós, como experiência, imaginássemos que tínhamos de viver meramente daquilo com que nós somos nacionais, se nós acaso experimentássemos despir o alemão médio de todos os costumes, pensamentos e sentimentos que ele tomou dos outros países do continente, ficaríamos surpreendidos como tal existência é impossível; quatro quintos dos nossos haveres são bens comuns europeus.
Só unicamente a decisão dos grupos de povos da Europa, uma comunidade, pode estimular de novo o pulso da Europa. O nosso continente tornará a adquirir a fé em si próprio e, como consequência natural, tornará a exigir novamente de si mesmo algo de grande.
A verdadeira situação da Europa, por consequência, poderia descrever-se da seguinte maneira: o seu longo e glorioso passado conduzia-a a um novo nível de vida em que tudo se engrandeceu; mas as suas circunstâncias estruturais, que se mantém desde o passado, são anãs e dificultam a força de expansão da actualidade.
A Europa surgiu como estrutura de pequenas nações. Pensamentos e sentimentos nacionais foram, em certo sentido, as suas mais características descobertas. Agora, porém, ela vê-se forçada a dominar-se a si própria. Isto é obra do violento drama que se desenrolará nos anos futuros.
Ortega y Gasset
in “Agora” n.º 346, de 2/3/1963.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Rodrigamente cantando (III)

Não precisei de esperar muito pelo CD, pois o Vítor Luís teve a amabilidade de me trazer um ontem (obrigado!). Já o ouvi na totalidade e acho que o melhor elogio que posso fazer a esta excelente homenagem ao Rodrigo é aconselhar-vos todos a comprá-lo. Entretanto, aproveitem para ler a entrevista de José Campos e Sousa no Portal Nacionalista.

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Ilusionismo político

A imprensa chama-lhe “remodelação”, o governo considera-o um “ajuste de funções”, mas toda a gente reconhece o tradicional jogo das cadeiras. É um velho truque do ilusionismo político que podia também chamar-se “como parecer que se faz alguma coisa não fazendo absolutamente nada”. Para além desta areia para os olhos, o governo jogou ainda mais uma carta de outro jogo, o dos nomes. Pensava o cidadão que não havia mais nomes para mudar ou ministérios para criar, mas enganou-se. Em desespero, pode-se sempre reabilitar, qual toxicodependente, um ministério extinto por este mesmo governo.

A questão dos nomes de ministérios e da facilidade de criação e extinção dos mesmos é um dos casos mais incríveis da governação no nosso país. É claro que é a melhor medida a tomar por quem inicia funções e não sabe o que fazer. Quando saírem as novas orgânicas e os serviços estiverem reestruturados, já mudou o ministro, o governo, ou em último caso já foram extintos. É um ciclo vicioso, um verdadeiro carrossel administrativo, que dá voltas e voltas e não chega a parte alguma.

A criação de novos ministérios ou a alteração das suas designações deviam ser medidas excepcionais e devidamente fundamentadas. Veja-se, por exemplo, o caso do actual governo, não por uma embirração especial, mas apenas por ser o actualmente em funções. Liderando um governo de suposta continuidade, Santana Lopes logo se apressou a mudar nomes e criar ministérios. Que bela lição de continuidade! Que bela lição de contenção das despesas públicas! O actual primeiro-ministro gastou rapidamente muitas das cartas do baralho do ilusionismo político, mas a oposição pouco se importou e nada disse, já que, assim que tiver oportunidade, quer usar os mesmos truques.

Santana Lopes era um político no futebol e é um dirigente desportivo na política. Mestre das artes do espectáculo, é - ele próprio - a central de comunicação que Sampaio não deixou passar.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Eurocracias

O novo caso da “Comissão Barroso” vem mostrar, mais uma vez, a cara do totalitarismo democrático. O crime de Buttiglione foi a sua opinião e foi prontamente corrido. O comissário francês Barrot foi condenado por financiamento ilegal do seu partido e continua a ter todo o apoio de Durão Barroso. Para reflectir...

Rodrigamente cantando (II)

Enquanto espero pelo CD, aconselho a todos a leitura da opinião de Walter Ventura sobre este trabalho de José Campos e Sousa, publicada hoje no semanário “O Diabo” e disponível no Último Reduto , no Nova Frente e no Sexo dos Anjos. Por aqui, deixo-vos um dos poemas do Rodrigo musicados neste “Rodrigamente cantando”:

Vou-me embora p’ra Brasília

Abraço a brisa d’Abril.
Na brandura abrasadora,
Vou-me embora pró Brasil,
Vou-me embora. Vou-me embora.
Você me cede um corcel
(De certo cede, Corção.
o nosso Manuel
Não me diria que não.
Mas você sabe que ele
É silêncio em digressão…)
Na verdejante vigília
Ponho o meu sonho em desfile.
Vou-me embora p’ra Brasília.
Que é o brasão do Brasil!
Sem deixar quaisquer indícios,
Sem deixar qualquer quesília,
Vou-me avistar com o Vinicius,
Vou-me embora p’ra Brasília.
Vou e vou e vou e vou,
P’ra perto de seu Gilberto,
E dessa incessante Cecília
E dalguma Nêga Fulo.
Vou-me embora p’ra Pasárgada.
Lá, estou bem mais em família!
Vou-me embora. Decido:
Vou-me embora p’ra Brasília.

Rodrigo Emílio

sábado, 20 de novembro de 2004

Invocação


Foi no mês de Novembro de 34 que eu conheci, em Madrid, José Antonio Primo de Rivera.
Rara e extranha figura de revolucionário que sabia aliar, com elegância extrema, a irreverente audácia do “frondeur” à natural e requintada gentileza do Grande de España.

Nervoso, espiritual, culto, José Antonio seduzia logo ao primeiro encontro, pelo seu encanto com que emanavam, da sua personalidade, confiança e fé, através de altos conceitos intelectuais da mais pura linhagem europeia e revolucionária.

Estou ainda a ver com que avidez ele escutava e absorvia qualquer ideia que lhe despertasse sentimentos inéditos numa visão mais audaciosa da vida e da esperança humana. Então os olhos, os seus largos olhos profundos, alargavam-se ainda mais, como janelas que se abrissem de par em par, a-fim-de que entrassem por elas, sem entraves, livre e benéfica, a clara luz do sol.
Conversámos muito. Trabalhámos bastante, em poucas horas. Talvez que de tantos amigos que lhe recolheram, dia a dia, o pensamento generoso, poucos tenham, como eu, bem sentido a verdadeira projecção dessa bela alma.

Toda a sua batalha política levava-a de vencida como um apostolado. Amava as Ideias, no verdadeiro sentido da palavra amar, isto é, devotava-se-lhes totalmente.
Por isso, o seu pensamento surge-nos sempre como penetrado duma mística poderosa, iluminada pelos reflexos interiores da sua sensibilidade admirável.
Era um crente, antes de ser um soldado.

Pobre José Antonio! Como não considerar, num constrangimento de angústia, a ingratidão, a injustiça do Destino para com este homem singular, o rude e incansável semeador que não chegou a contemplar a seara doirada, a alta e ondulante seara doirada, que, com tanto amor, com tanta fé, sonhara e entrevira…

Um Estado Nacional-Sindicalista, Uma Revolução que toma os Vinte e Sete Mandamentos por bandeira, ó José Antonio! Eis o teu sonho a quem tu, generosamente, concedeste tudo, tudo até a própria vida.

Jamais, jamais se me apagará na memória a figura esbelta, viril, triunfante, de José Antonio Primo de Rivera.

Ei-lo, aprumado, desenvolto, enquadrado na porta de sua casa na Calle Serrano, despedindo-se de mim, braço ao alto, tranquilo e forte – romanamente!

Até sempre, disse… Neste mundo, era até nunca mais!

Rolão Preto
in “Revolução Espanhola”

José Antonio e a Europa

«José Antonio fue un europeo de España. Conforme transcurre el tiempo y se contempla con mayor objetividad, no exenta de emociones, aquella figura extraordinaria, se vislumbran y llegan a pasar a un plano preferente aspectos no resaltados en principio de su pensamiento; y uno es, sin duda, el que hace referencia a Europa. Su sensibilidad exquisita, su formación clásica y sus dotes de observador, le impulsan en el marco temporal en que vive, a darnos su visión de Europa.

Para José Antonio, España no es una nación aparte, encerrada en su torre de marfil, ajena al pálpito de un continente y de un contenido, del cual aspira a desentenderse. Una concepción cerrada e celtibérica de España es absolutamente ajena al modo de ver y reflexionar de José Antonio. (…)
»

Blas Piñar

20-N


A 20 de Novembro de 1936, José Antonio Primo de Rivera era assassinado pelos rojos na prisão de Alicante. Morria jovem – como morrem os heróis – o sonhador da Revolução.
Estas foram as suas palavras para os seus fuziladores:

«Quereis verdadeiramente que eu morra? Quem vos disse que eu sou vosso inimigo? Quem vos disse não tem nenhuma razão para afirmá-lo. O meu sonho era a Pátria, o Pão e a Justiça para todos os espanhóis e sobretudo para todos os que se sacrificam. Quando se está próximo da morte não se pode mentir. Repito-vos antes de morrer: nunca fui vosso inimigo. Porque quereis que eu morra?»

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

O efeito da ilegalização


Vlaams Belang

Depois da ilegalização do Vlaams Blok decretada pelo Supremo Tribunal Belga, que o considerou uma organização “racista”, mil delegados do partido reuniram-se em Antuérpia para criar o Vlaams Belang (Interesse Flamengo). Renasce assim aquele que era o maior partido belga e ocupava um terço dos lugares no Parlamento Flamengo. Continua o combate identitário contra o totalitarismo democrático.


terça-feira, 16 de novembro de 2004

Mário Saa (III)


Reverto-me em mudas falas
e morro à custa de tê-las;
endoideço com pensá-las
mas não sei viver sem elas.

Pegam-se tanto, às carradas!...
mas o melhor é deixá-las;
que o dá-las por acabadas
não é senão prolongá-las.

Antes o tempo as consuma
que a gente querê-las superar:
sopra-se o laivo da espuma
por baixo encontra-se o mar.

Por baixo encontra-se o mar
a muitas braças do fundo;
pois mar, e homens, e ar,
são inda a espuma do mundo.

Quem pode nunca apagá-las,
quem pode nunca perdê-las!...
Os ecos seguem-se às falas,
os dias seguem-se às estrelas!

Mário Saa
in Tempo Presente n.º 1 (1959)

Só acontece aos outros

A notícia recentemente vinda a público sobre um atentado preparado por um grupo de 18 muçulmanos que se encontravam no Porto e que tinha como alvo Durão Barroso e inúmeras figuras internacionais que participavam num jantar no Palácio do Freixo, em vésperas da abertura do Euro 2004, vem deitar por terra as certezas apaziguadoras de alguns que gostam de classificar Portugal como um cantinho de paz onde nunca acontece nada. Os que acham que o terrorismo “só acontece aos outros”…

Parece que, mesmo depois da tragédia de Madrid, muitos continuavam a negar o choque de civilizações em curso, resultado da guerra empreendida pelo Islão contra a Europa. Agora temos a prova que também somos um alvo. Não somos um oásis esquecido pelos terroristas. Quero ver com que descaramento é que certos políticos vão continuar a defender o absurdo fim das forças armadas e dos serviços de informações.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Modernidade da Arquitectura Tradicional

Para todos os que se interessam por arquitectura e urbanismo, aconselho vivamente a leitura do excelente artigo «Léon Krier e a Modernidade da Arquitectura Tradicional» da autoria de Francisco Cabral de Moncada. Podemos ler uma breve descrição do arquitecto luxemburguês, conhecido como renovador de uma arquitectura e urbanismo tradicionais, e uma recensão crítica do livro de Krier «Arquitectura: Escolha ou Fatalidade?». Aqui fica um excerto:

“O aspecto caótico de muitas paisagens e cidades; a tristeza, o tédio ou a insegurança dos antigos centros desertificados ou das periferias irreconhecíveis, deprimentes ou selváticas; a indigência ou arbitrariedade arquitectónicas e a má qualidade da maioria das novas construções desde há mais de cinquenta anos; a dificuldade constante das deslocações entre casa, trabalho e lazer, com desperdício sistemático de tempo, energia e saúde - eis alguns dos mais penosos e persistentes efeitos da nossa civilização industrial na sua feição actual.
Apesar do aparente conformismo geral, muitos e cada vez mais se inquietam e justamente indignam, não só por não vislumbrarem sinais decisivos de correcção, mas também por não acharem acesso a informação esclarecedora das verdadeiras causas destas desordens.”

domingo, 14 de novembro de 2004

A frase


Na Holanda mataram a liberdade de expressão com balas. Na Bélgica mataram-na nos tribunais.

Filip Dewinter
Dirigente do Vlaams Blok

TV Cabo

A TV Cabo decidiu fazer um novo alinhamento (desaparecimento) de canais de televisão. O primeiro propósito deste post é protestar contra o facto de me terem sido retirados dois canais que costumava ver, o ARTE, onde via diversos documentários e filmes, e o CNBC Europe, onde raramente perdia The McLaughlin Group.

Entretanto, vi na nova RTP Memória a reposição de “O Tal Canal”, que me recordou que, em tempos, Herman José foi um humorista com muito talento.

sábado, 13 de novembro de 2004

Imperdível

Foi uma óptima surpresa ler hoje o excelente artigo «Proibições» do Eurico de Barros, na última página do Diário de Notícias. Só para deixar água na boca, aqui fica um excerto: “Cada vez tenho mais saudades do tempo da Guerra Fria, em que havia um inimigo perigoso e bem definido e as democracias ocidentais precisavam de afirmar constantemente que tinham mais e melhor liberdade do que os regimes concentracionários de Leste.

Já que estão com a mão na massa, dêem uma vista de olhos no artigo «Liberdade vigiada» de Diogo Pires Aurélio, no mesmo jornal. Vejam como vale a pena: “Hoje em dia, quem pensar que a imigração é um problema só para xenófobos, ignorando que ela apresenta riscos com os quais a Europa não tem sabido lidar, engana-se e engana-se perigosamente.

Para terminar as leituras de hoje, passem pelo Público e leiam o editorial de José Manuel Fernandes, que termina assim: “depois do assassinato de Theo van Gogh, alguém duvida sobre de onde brota o pecado original da intolerância?

Totalitarismo democrático (II)

A novela da nova composição do órgão máximo do regime de pensamento único, vulgo Comissão Europeia, que ainda aqui não havia comentado, foi outra demonstração prática do totalitarismo democrático reinante. Imaginem que um dos comissários propostos, de seu nome Rocco Buttiglione, se lembrou de assumir as suas convicções publicamente. Convencido que em democracia podia dizer o que pensa sem que fosse por isso prejudicado, declarou que considerava a homossexualidade um pecado e que o casamento existe para permitir às mulheres terem filhos e a um homem protegê-los. Esqueceu-se que o regime de pensamento único não tolera posições contrárias à cartilha do politicamente correcto e, depois de uns dias de grande agitação, acabou por ser corrido.

Pois vejamos, Buttiglione diz que a homossexualidade é um pecado. É natural, é católico e concorda com a sua religião. Aliás, o Cristianismo, religião maioritária na Europa, considera a homossexualidade um pecado, tal como Judaísmo ou o Islamismo, por exemplo. Concorde-se ou não com ele, esta é a sua opinião. Por outro lado, o comissário-que-nunca-o-chegou-a-ser, defende uma concepção tradicionalista da família. E depois? Esta é outra posição pessoal, à qual ele aparentemente não tem direito.

Apesar de Buttiglione dizer que tais posições pessoais não influenciariam o seu desempenho na Comissão, não foi poupado. Perante o totalitarismo democrático ele havia pecado e a sua pena teria forçosamente que ser a humilhação e o ostracismo.

Se ele fosse homossexual, aí estava bem! Porque era um herói corajoso que se tinha assumido e significava que Durão Barroso, não só havia cumprido a quota de mulheres na Comissão, como a quota de gays. O único problema é que levantava outras questões, como a da quota de muçulmanos, a quota de negros, a quota de ex-toxicodependentes, a quota de pedófilos reintegrados, a quota de dactilógrafas que não tiraram cursos de informática, a quota de artistas de circo atacados por feras, etc., etc.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Totalitarismo democrático

Eric Hobsbawm chamou ao século XX a “era dos extremos”. Não sei o que os historiadores do futuro chamarão ao século XXI. A Europa foi “escolhida” para ser o tubo de ensaio da globalização massificadora, vivendo nós, por isso, sob o jugo do totalitarismo democrático que tudo impõe e de que tudo dispõe. Um totalitarismo como nem Stalin pode imaginar! Depois da fruta de tamanho normalizado, da religião dos direitos humanos e da ditadura do politicamente correcto, entra agora em vigor o regime de pensamento único.

Para quem não andou atento às notícias, a história passa-se na Bélgica e tenciona ser um exemplo a seguir, para bem do sacrossanto totalitarismo democrático. Neste pequeno reino da Europa do Norte, o regime de pensamento único local logrou a proibição do Vlaams Blok. Crime? Delito de opinião.

Estes flamengos ousaram pensar, veja-se o desplante. E, não contentes com isso, tiveram coragem de dizer o que pensam. Que atrevimento! Defender a identidade flamenga e europeia? É um claro crime contra o multiculturalismo obrigatório. Denunciar a islamização da Bélgica e da Europa? É um claro crime de intolerância religiosa e cultural. Ser contra a imigração invasora? É um claro crime de racismo e xenofobia.

Perguntam os cépticos - E a liberdade de opinião e expressão? Pergunta incómoda, sem dúvida. Mas, como dirá qualquer manual básico de totalitarismo democrático, tem que ser necessariamente restringida, nestes casos. E não será essa restrição naturalmente anti-democrática? - perguntam, insistindo, os cépticos. Claro que não, porque neste caso a restrição da liberdade e da democracia é em defesa da liberdade e da democracia. Parece complicado, mas é simples, para sua protecção, o totalitarismo proíbe – democraticamente – a democracia para a proteger.

É por isso, caros defensores do totalitarismo democrático, que a pena exemplar (aquela pena que não é suposto existir num estado de direito democrático...) aplicada pelo estado belga é um exemplo a seguir. Toca a proibir tudo o que for movimento, partido ou associação que se atreva a contrariar o regime de pensamento único, em especial se contar com o apoio popular. E não se esqueçam, para o caso de alguém perguntar, que tudo isto é em defesa da liberdade e da democracia. Porque os regimes precisam de se proteger (eternizar?)... Onde é que eu já ouvi isto?

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Turquia (III)

Apesar de o debate sobre a entrada da Turquia na Europa continuar “esquecido” pelos nossos (des)governantes e pelos meios de (des)informação, algumas vozes se vão ouvindo. Li hoje o artigo do jornalista Fernando Correia de Oliveira intitulado «O fim da União Europeia», publicado na revista Homem Magazine, que aconselho a todos e do qual reproduzo os seguintes excertos:

«Parte-se do princípio que a adesão terá um efeito positivo na Turquia. Quem assim pensa foi também responsável, na guerra fria, por alimentar o fundamentalismo islâmico, face ao inimigo comum que era o comunismo. Viram-se os resultados, cuja factura só agora começámos a pagar. O mais provável é que o "antídoto" laico europeu não funcione e seja aniquilado em duas ou três gerações, pelo "vírus" religioso islâmico, que já hoje se encontra fora de controlo.»

«A Europa será islâmica no final do século XXI. Só que, nessa altura, já não será Europa, terá sido engolida pelo imenso Oriente, atávico, obscuro - que tanto fascínio ingénuo provoca junto de alguns intelectuais europeus, como o comunismo provocou em todo o século XX.»

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Semana em revista

Uma semana fora e vejo que o mundo não se alterou. Bush ganhou como era de esperar e lembrou a todos que a eleições eram na América e não noutro país. Reconheço que não consigo gostar do Dubya, mas que me diverti a pensar quem terá dito mais palavrões depois de sabidos os resultados, a Teresa Ketchup Kerry ou o Michael Moore...

Na Holanda, mais um episódio do “choque das civilizações” numa demonstração da violência e intolerância islâmica, com o assassinato de Theo van Gogh, morto por ter a coragem de não ficar calado.

Em Paris, a vida de Arafat está por um rastilho que se vai queimando enquanto o mundo espera o rebentar de mais um barril de pólvora no Médio Oriente.

Em Portugal, o Benfica perdeu por 3-0 na Taça UEFA, para ganhar este fim-de-semana no Campeonato (não consigo usar “SuperLiga” porque acho uma piada de mau gosto) por 4-0.

Tudo como dantes, no Quartel General de Abrantes.