sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Emélia

Foi há dez anos que conheci a Emélia. Era uma rapariga cheia de boas intenções. Apareceu desinibida na minha cidade e rapidamente se instalou no meu bairro, mesmo à porta de minha casa. Prometia mundos e fundos: acabar com o estacionamento caótico e melhorar a circulação automóvel. Tudo isto, claro, para benefício dos residentes. A proposta parecia irresistível, mas como lembra a sabedoria popular: “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Depois de instalada, a Emélia desleixou-se. Começou a crescer, a engordar e a gastar mais do que podia. A inoperância saltava à vista e a ilusão desvaneceu-se, os problemas de trânsito continuaram e a pobre rapariga começou a ser odiada. Continuava a falta de lugares e a circulação era um pesadelo, mas nem por isso ela deixava de ser implacável na cobrança. Falsa princesa recorria a sapos, que nunca conseguiu transformar noutra coisa, para perseguir os infractores.
- Ó Emélia, como querias tu que os lisboetas te gramassem, sempre empertigada e cruel, com essa atitude de Sheriff de Nottingham?

Agora soube que a Emélia, afinal, não existe juridicamente. Incrível, não? Ora leiam este artigo da Automotor.

terça-feira, 26 de outubro de 2004

Escolhas

A recente detenção em Espanha de terroristas islâmicos que estariam a preparar um atentado de grandes dimensões com o objectivo de destruir a Audiência Nacional, em Madrid, vem lembrar que, apesar da vitória de Zapatero, cuja eleição significaria para alguns o fim dos atentados, o terrorismo islâmico não se pára com mudanças de governo. É necessário reconhecer, de uma vez por todas, a guerra empreendida pelo Islão contra a Europa. É bom não esquecermos que não escolhemos os nossos inimigos.

Cinema


1. Ontem consegui ir ver o filme de Enki Bilal “Tykho Moon”, no auditório do Institut Franco-Portugais quase cheio. Gostei, como esperava, mas continuo a preferir a BD.

2. Chamo a vossa atenção para o docLisboa 2004, II Festival Internacional Documental de Lisboa, que decorre de 24 a 31 de Outubro na Culturgest. Merecem um destaque especial o premiado documentário sobre a ETA “La pelota vasca, la piel contra la piedra”, de Julio Medem, e a secção “Como entender o Médio Oriente”.

3. Ultimamente, acho que o cinema em Lisboa está de parabéns, com os excelentes festivais que têm decorrido: IndieLisboa, 5.ª Festa do Cinema Francês e docLisboa 2004.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Leitura obrigatória

Estive a matar saudades do meu amigo e camarada Miguel Jardim, comentador habitual deste blog (para quando colaborador?), afastado desta terra há muito (demasiado) tempo, lendo a excelente entrevista por ele concedida ao Causa Nacional, cuja leitura considero obrigatória.

Miguel, a tua entrevista lembrou-me as nossas longas conversas. Que saudades! Volta depressa, que conversar por e-mail não é a mesma coisa.

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Turquia (II)

No artigo «A entrada da Turquia» de Vasco Graça Moura, publicado ontem no Diário de Notícias, o eurodeputado reflecte que caso Bruxelas se decida pela adesão turca «só o tempo dirá se não foi uma imprudência muito cara».

Hoje, no mesmo jornal, Miguel Portas tenta contrapor os argumentos. Diz, por exemplo, «claro que a Turquia não é Europa - basta olhar para os mapas», concordo inteiramente. E continua, «mas porque há-de ser a geografia a fronteira da política? Que se saiba, a União é uma construção política. Iniciou-se na Europa ocidental e estende-se hoje a leste. Porque não, amanhã, a sul e a «oriente», desde que os respectivos povos o desejem?». É caso para perguntar: para quando a adesão do Líbano e de Israel? E porque não o Burkina Faso ou a Bolívia?

Guerra Química em Coimbra

Ainda me ri com pretensa manifestação espontânea de “estudantes”, ontem em Coimbra, provavelmente convocada por SMS. A determinada altura, um deles queixa-se – revoltado – de que a Polícia usou gás mostarda (!!!) contra os manifestantes. Santa ignorância! Segundo este futuro doutor, depois dos exércitos europeus na I Guerra Mundial, é agora a PSP de Coimbra que usa esta poderosa arma química. Terá a nossa Polícia comprado um carregamento ao Saddam Hussein antes das inspecções da ONU?

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Cine Bilal

Este post chega atrasado. A 5.ª Festa do Cinema Francês traz a Portugal, entre outros, os filmes do mestre da BD Enki Bilal, sendo que o seu último filme “Immortel”, baseado na inesquecível trilogia de Nikopol, foi exibido no passado dia 10, no cinema S. Jorge. É o que dá andar desatento, fica para a próxima.

Apesar desta falha, chamo a atenção para a exibição hoje às 21 horas, no Institut Franco-Portugais, do primeiro filme de Bilal “Bunker Palace Hotel”, de 1989. É a segunda vez que este filme é projectado no nosso país. Consegui vê-lo há uns anos num ciclo no Cine 222 e devo dizer que gostei, mas que fica muito aquém da BD. No entanto, acho obrigatório para qualquer apreciador de Bilal. No próximo dia 25, no mesmo sítio e à mesma hora, terá lugar a projecção de “Tykho Moon”, de 1997, o segundo filme do autor. Vamos lá ver se não falho este...

Crise

Há dias, um amigo meu ligado à área financeira disse-me em conversa que em alturas de grande crise há um negócio que regista grandes subidas: os jogos de azar. Quer-me parecer que o recente aparecimento do concurso “Euromilhões” é um péssimo prenúncio...

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

Pseudo-debate

Sobre um suposto debate sobre a distinção entre Direita e Esquerda no último programa “Prós e Contras” na RTP 1, não me vou dar ao trabalho de tecer quaisquer comentários. Vou apenas lembrar a afirmação de Nuno Magalhães, Secretário de Estado da Administração Interna, de que a Constituição Americana previa, segundo ele, o “direito à felicidade”. Foi prontamente ridicularizado pela ala esquerda do pseudo-debate, mas não pelas razões certas...

É que a Constituição Americana não prevê tal direito, o documento onde está previsto o “direito à busca da felicidade” é a Declaração de Independência, de 4 de Julho de 1776. Aqui fica o extracto do texto original:

«We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that
they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among
these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.
»

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Morte Shopping

Só ontem tive conhecimento, através da comunicação social, da intenção de uma empresa espanhola instalar no Bairro de Alvalade, mais concretamente na Rua Conde Ficalho, um autêntico centro comercial funerário. O “Morte Shopping”, como é apelidado pelos moradores, terá uma sala de maquilhagem e preparação de corpos, câmaras frigoríficas, capela, 9 salas destinadas a velórios, cafetaria e funcionará continuamente 7 dias por semana. Uma “maravilha” nesta pacata zona residencial.

Felizmente, os moradores já se mobilizaram contra esta tentativa. Para mais informações consultem a página www.funerarianobairro.com e assinem - como eu já fiz - a petição on-line.

terça-feira, 12 de outubro de 2004

Bom dia, noite

Há um ano atrás, mais concretamente em Setembro de 2003, o Pedro chamou a atenção para o filme Buongiorno, notte, de Marco Bellochio. Fiquei curioso, os “anos de chumbo” da Itália dos 70 sempre despertaram o meu interesse. Em Abril deste ano, anseava-se no Último Reduto pelo DVD, dado haver dúvidas sobre a estreia do filme em Portugal. Foi preciso esperar até ontem - no meu caso - para conseguir ver o filme e, devo dizer-vos, valeu a pena.

Bellochio retrata o rapto de Aldo Moro da perspectiva dos terroristas que o mantêm prisioneiro num apartamento, tendo que aparentar normalidade perante os vizinhos. O realizador e argumentista, que intercala muito bem imagens e noticiários da época com a acção do filme, apresenta também uma versão alternativa dos acontecimentos. E se Chiara, uma das terroristas das Brigadas Vermelhas e a personagem principal, pusesse em causa os métodos e objectivos da organização? E se esta terrorista com consciência permitisse a fuga do Presidente Moro? E se...

“Bom dia, noite” é um filme a não perder. Uma obra que, não sendo um documentário narrativo nem uma ficção politizada, se destaca de tantas outras sobre este conturbado período da História italiana.


Múmia

Sobre a crise sucessória no PCP, o partido que todos sabem que não passa de uma recordação do período e do pensamento jurássico, Alberto Gonçalves reflecte hoje no Correio da Manhã sobre o melhor candidato:
«Penso sobretudo na múmia de Lenine, com 134 anos e em aceitável estado de conservação. Mesmo porque os moscovitas não a querem por lá, talvez não custasse importá-la para dirigir o PCP, fundado e mantido à imagem dela. Dado que nem a múmia nem o PCP têm onde cair mortos, o gesto seria uma bênção.»

Santos da Casa

O leitor e comentador FG Santos, ainda há dias aqui referido pela sua crítica construtiva, teve a óptima ideia de iniciar o seu blog pessoal. O Santos da Casa já está linkado e passará a ser mais uma das minhas visitas diárias. Aconselho todos os leitores a passarem por lá.

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Um caso de Nickname

Uma semana ausente e qual não é o meu espanto ao ver que nos comentários do Portal Nacionalista há alguém que assina “branquinho”. Não sou eu, obviamente, nem qualquer parente meu. Penso que para quem me conhece, nem que seja apenas blogosfericamente, tal é fácil constatar, pelo teor dos comentários e pela escrita. Creio que seja apenas uma infeliz coincidência, já que o nome no e-mail associado a esse nick é “zedesousa”.

Prova de vida

É verdade, ainda cá estou. A meio da semana passada recebo um telefonema: “Então, aconteceu alguma coisa?”, no dia seguinte, outro. No e-mail, algumas mensagens do tipo “não tens escrito nada...” Finalmente, nos comentários, o meu grande amigo Mendo Ramires pergunta-me se este blog é semanal. Tudo isto justifica, obviamente, uma explicação aos leitores.

Foi muito simples (parece que estou a explicar um acidente de viação a um polícia de trânsito), decidi aproveitar a semana anterior para fazer umas “férias em casa”. Em teoria parecem óptimas: fico em Lisboa com a família, ponho a leitura em dia, aproveito para escrever e ainda trato de alguns assuntos pendentes. Na prática, por entre obrigações familiares, noites mal dormidas e tantas voltas a dar, não consegui levar a cabo o plano traçado. O maior dano foi o blog e os mais prejudicados os leitores. Pobre pena que não tens mergulhado na tinta por estes dias... Eu também acusei o toque, vá-se lá saber porquê, mas faz-me falta a blogosfera.

domingo, 3 de outubro de 2004

Crítica construtiva

Nos comentários ao post relativo aos seis meses do Pena e Espada, o leitor FG Santos não se limitou a deixar umas palavras simpáticas. Fez uma crítica construtiva, aquilo que desde o início deste blog espero que os leitores façam, gostem ou não do que lêem.

Começa ele por dizer que não está de acordo comigo em muitos pontos, óptimo! O pensamento único deve ser o nosso pior inimigo. Depois, caracteriza o meu tom como calmo e sereno, faz-se o que se pode. Numa blogosfera cada vez mais insultuosa e intolerante, acho que é a melhor forma de estar. Se esta característica é rara na área nacional, não tenho tanta certeza. Blogs como o Último Reduto, Nova Frente, o Sexo dos Anjos, entre outros, são óptimos exemplos de postura neste universo.

Em relação à sua sugestão, “porque não desenvolver mais os textos de sua autoria, regra geral telegráficos? Na maior parte das vezes vai buscar a outros aquilo que quer dizer mas penso (desculpe a ousadia) que, sendo-lhe a pena fácil, aqui e acolá poderá presentear-nos com um post mais longo”, digo-lhe que o tamanho dos posts foi uma preocupação minha desde o início.

Pessoalmente, prefiro posts mais longos, mas fico com a ideia que são lidos por muito menos gente. Falei já sobre o assunto com outros bloggers e sou cada vez mais da opinião que o ideal é intercalar posts longos, com telegráficos e com referências a outros autores. Pelo seu comentário fico com a ideia que partilha desta opinião, mas que acha que os posts mais longos não têm sido tão frequentes. Concordo. Ainda bem que me alertou. As últimas entradas estão longe de ser telegráficas e, pelo número de comentários, vejo que foram lidas e originaram o que se espera num blog: discussão livre de ideias. Estou a ver que mais pena era exactamente o que o Pena precisava.

Obrigado, FG Santos, pela leitura assídua, pelos comentários e pelas sugestões.

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Turquia

Ao contrário do que aconteceu noutros países europeus, o debate sobre a entrada da Turquia na UE passou ao lado da discussão pública em Portugal, excepção feita à blogosfera. Nas últimas eleições europeias, apenas o PNR se opôs claramente à adesão turca, o PP estava com certeza ofuscado pelo poder e o PND andava “às aranhas” sem saber o que pensar...

Há cerca de dois anos, quando Giscard d'Estaing declarou publicamente que a Turquia não era um país europeu e que a sua adesão significaria o fim da UE, apenas uma voz se ouviu na imprensa portuguesa concordando com o político francês: Vasco Pulido Valente.

Hoje, volta a abordar o tema na sua coluna no Diário de Notícias, com a crónica intitulada «Alargamentos», que aqui reproduzo na íntegra por não estar disponível on-line:

Parece que há por aí, à Esquerda e à Direita, uma grande alegria, porque a UE considera que a Turquia «está em condições» de começar o seu «processo de adesão». Não se percebe francamente porquê. Como dia a dia se constata, a «Europa» a 25 já perdeu parte do seu sentido original. O alargamento trouxe uma
irredutível heterogeneidade: económica, estratégica, militar, nacional e histórica. Além disso, a própria dimensão do novo arranjo impede para sempre qualquer «convergência» social ou política, quanto mais não seja porque a França e a Alemanha não têm agora a força necessária para o seu antigo papel de «motor». Ser «motor» de seis, mesmo de 15, não é igual a ser «motor» de 25. O velho sonho (ou, se quiserem, a velha fantasia) de fazer da «Europa» uma «potência» capaz de equilibrar e limitar a América morreu em pouco tempo e sem ninguém dar por isso, enquanto a retórica ortodoxa o continuava, e continua, a celebrar. Com tudo isto e ainda por cima sem dinheiro, a UE, ou uma certa «inteligência» da UE, surpreendentemente persiste em trazer para o «clube» a Turquia asiática e, pior, islâmica. Porquê? Porque a Turquia pertence ao passado da Europa (pertence, de facto, como inimiga); porque a Turquia se tornou secular e democrática (uma coisa mais que duvidosa: o actual Governo, por exemplo, pensa em criminalizar o adultério); porque a Turquia serve de «barreira» ao extremismo árabe (ou talvez também lhe sirva de caminho e ajuda); e porque, enfim, a «Europa» deve mostrar a sua tolerância e não deve aparecer no mundo como um império cristão, rico e xenófobo. Esta mistura de má-fé, megalomania e medo é receita para desfazer a UE ou, pelo menos, para a reduzir a uma forma vácua. Por muito que espante a burocracia da UE e os beatos do costume, a realidade existe e não cabe nos planos deles.