quinta-feira, 30 de setembro de 2004

À procura do Norte

Como uma adolescente responde a um teste de revista que lhe dá a certeza do seu amor ser correspondido, apesar de ela saber que não tem qualquer hipótese como o giraço do liceu, respondi às perguntas da Bússola Política e não me espantei com o resultado. Não é preciso embrenharmo-nos muito no questionário para perceber para onde estamos a ser conduzidos e como é fácil dar-lhe a volta. Apesar disto, decidi que imperaria a sinceridade e descobri que sou de esquerda e autoritário.

Pedi depois a alguns amigos para fazer o teste e eu próprio fiz algumas experiências. Confesso que foi divertido. Já se sabia, para se ser considerado de direita aqui é preciso ser um capitalista ultra-liberal; por outro lado, o que dirão os barnabés ao saber que pode ser considerado de esquerda alguém que concorde fortemente com “Em comparação com outras raças, a nossa tem muitas qualidades superiores”, “O aborto, quando a vida de mulher não está em risco, deve ser sempre ilegal” ou “A primeira geração de imigrantes nunca se consegue integrar completamente no seu país de acolhimento” e que discorde fortemente de “Em última análise, as pessoas dividem-se mais pela sua classe social do que pela sua nacionalidade” ou “Não há povos selvagens e civilizados, mas apenas culturas diferentes”? Cómico, não?

É fácil ver por que os nacionalistas são tão mal compreendidos, quando analisados por quem só vê o mundo a duas cores. É o reino do sistema binário. E depois espantam-se: “Como é que podes ser isto e pensar aquilo?” O universo maniqueísta do on/off é tão fácil...

Confirma-se aquilo que costumo dizer ironicamente: nesta dicotomia parida pela Revolução Francesa, para a esquerda sou de extrema-direita, para a extrema-direita sou uma espécie muito estranha de comuna.

terça-feira, 28 de setembro de 2004

Reflexão blogosférica

Desde o meu primeiro contacto com a blogosfera que fiquei fascinado por esta nova realidade. Encontrei um espaço livre, que é uma fonte de ideias e pensamentos, local de debate e reflexão, ponto de encontro de todos os que estão dispostos a ouvir e ser ouvidos.

Não, não é preciso acordarem-me. Rapidamente me apercebi que a blogosfera estava longe de ser o paraíso utópico atrás descrito e do qual, infelizmente, continua a afastar-se.

O anonimato permite tanto a liberdade de expressão como o insulto fácil; a realidade virtual permite a personalidade virtual, que pode ser criativa ou ofensiva; o multiplicar de blogs permite o acesso a milhares de ideias diferentes ou pode criar a censura pelo excesso, etc.

Até agora, penso que o saldo da blogosfera é positivo. Não sei se continuará assim, tenho as minhas sérias dúvidas... Só o futuro o dirá. Até lá a responsabilidade é nossa e o princípio orientador deve ser o respeito mútuo.

Relatório do 1.º Semestre


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6 meses

Foi há seis meses atrás que me lancei no meu blog pessoal, instigado por vários amigos. Quando comecei o Pena e Espada, lembro-me de um amigo – comentador blogosférico - me alertar: “É pá, não te metas nisso! Um blog é uma prisão...”, por outro lado houve outro – blogger – que me tranquilizou: “Um blog é para escreveres o que te apetece quando te apetece, sem compromissos senão contigo próprio”. Ao completar o primeiro semestre de existência, vejo que fiquei no meio destes extremos. É claro que escrevo quase tudo o que me dá na gana, mas também não nego que sinto uma obrigação para com os que me lêem.

Serve este post para dizer a todos os meus amigos, comentadores, visitantes assíduos, ocasionais e “pára-quedistas”, obrigado!

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Ile de France

aqui havia afirmado o meu gosto pelo RIF, estilo musical que muito aprecio.
Aqui fica uma referência obrigatória ao grupo Ile de France.
Para ouvir aqui e comprar aqui ou aqui.



Discografia:

Franc-Parler (1998)
Panique Médiatique (2000) - split CD com ZetaZeroAlfa
Non à la dictature planètaire (2001)

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

Mário Saa (II)


De gorro e gola cativo
meus vagos passos perpassam
o espaço, que a espaços passam,
o espaço, que a espaços vivo.

Solenes passos dilatam
o debuxo do meu busto;
meus passos movem-se a custo,
meus gestos lassos dilassam.

Meus olhos, longos ais,
meus olhos compridos, atam
as coisas que em si desatam,
meus olhos unos, plurais.

Transformam tudo em laguna,
em mansidão pensativa,
em ligação rediviva
em que cada coisa é una

com cada coisa cativa
de seu próprio isolamento.
A vista é mais ligativa
Que o calor do pensamento!

Mário Saa
in Tempo Presente n.º 1 (1959)

sexta-feira, 17 de setembro de 2004

And now for something completely different...

A avaliar pelo top de audiências, podemos dizer que o nosso país é de “maus humores”. Os programas de (suposto) humor mais vistos nos canais de televisão portugueses são verdadeiros atentados à inteligência, como a repetição (!) de “Os Malucos do Riso”, na SIC, e “Os Batanetes” na TVI.

Neste quadro negro, há felizmente uma honrosa excepção, que merece aqui a devida vénia. Refiro-me ao “Gato Fedorento”, cujo blog tem lugar nos links desde o início do Pena e Espada.

Confinado a um curto espaço de emissão no canal cabo SIC Radical, o “Gato Fedorento” traz-nos um humor jovem, criativo, feito com muita carolice e improviso.

Sketches como o genial “Homem a quem parece que aconteceu não sei quê”, tornaram-se já clássicos modernos para qualquer apreciador de bom humor.

Como grande apreciador dos “Monty Python” que sou, não podia deixar de gostar do excelente trabalho destes jovens. Parabéns!

O “Gato Fedorento” é de rir e chorar por mais.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Má notícia

Chegou ao fim o Portugal e Espanha. Infelizmente, terminou um dos projectos mais interessantes na blogosfera.

Vamos esperar que os seus autores, ou pelo menos alguns deles, se lancem numa nova aventura.

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Pierre Vial na Radio Courtoisie

Hoje, das 17 às 20 horas, Jean-Gilles Malliarakis leva ao seu programa na Radio Courtoisie Pierre Vial, presidente da associação “Terre et Peuple”, que será acompanhado por Jean Haudry e Jean Mabire, para debaterem o tema “Identité et Enracinement” (Identidade e Enraizamento).

A Radio Courtoisie, auto-intitulada “rádio do país real e da francofonia”, é uma rádio cultural e associativa totalmente independente de patrocínios publicitários, que emite em FM em França e através da Internet para todo o mundo.

A não perder!

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Europa (IV)

“A Europa não pode viver sem as pátrias e, realmente, ela morreria, se matasse os seus próprios órgãos, ao matá-las; mas as pátrias já não podem viver sem a Europa. Nascidas da Europa, devem tornar à Europa. Elas rasgaram-na, no tempo do seu crescimento maravilhoso, como crianças que se emancipam cruelmente da mãe para devorarem a sua parte do destino; mas hoje precisam de refugiar-se e revigorar-se nela.
A necessidade de pão e de trabalho e todas as outras necessidades exigem-no. As pátrias da Europa, separadas, só podem diminuir-se e morrer. Nos tempos de hoje, uma pátria não pode viver no seu campo; precisa do campo das outras, pelo menos de todos os campos de um continente, de todas as suas minas, de todas as suas fábricas e também de todos os seus talentos, de todos os seus génios.
Grandes forças se ergueram no mundo e unificaram ou unificam os continentes. A Europa que vê isto, deve fazer isto também. Ou então será, apenas, uma nuvem de poeira que se extingue, turbilhonando no sopé das montanhas.
Eis que, de novo, finda o primaveril tempo das cidades e das pátrias, dos principados e dos reinos: eis que torna o tempo estival dos impérios. Depois de Atenas, é o império de Alexandre ou de César.
Europa! Olha estes grandes impérios que se formaram, treme e cinge os teus rins!”


Drieu La Rochelle

terça-feira, 7 de setembro de 2004

O desporto como circo


Assegura-se que é o desporto que evita as guerras porque cria confrontos simbólicos e pacíficos, neutralizando assim as pulsações nacionalistas. A história do futebol é uma mostra exacta do inverso, com uma litania de lutas mortais entre hooligans e ultras que avivam as paixões nacionalistas. Na Europa, o nacionalismo e o chauvinismo, que normalmente tenderiam a desaparecer, são avivados pelas paixões pelas selecções nacionais.

É de notar o embrutecimento mental e a infantilização provocados por esta raiva do desporto. É penoso ver a população masculina – e agora também a feminina – discutir com fervor sobre as façanhas ou o destino de equipas e de atletas que não terão nenhuma incidência sobre a sua vida nem sobre a da sua nação. As questões sem objecto e sem incidência mobilizam a atenção geral.

O desporto também mantém o fascínio mórbido pela força física bruta, que é o contrário da coragem física (a do soldado) e também pela “forma física”, porque os atletas de alto nível sofrem num organismo fragilizado pelo excesso de treino e o doping. Numa sociedade sem coragem física, esta é compensada pela adulação da façanha física quantitativa e sem qualquer interesse. Este culto da façanha cifrada, subproduto de um materialismo desatado – mias rápido, mais alto, mais musculoso, mais resistente, etc. – expressa-se no reino do record. Coloca-se num pedestal os indivíduos que bateram um record físico: é uma verdadeira animalização do homem, uma negação da sua dimensão cerebral. Mas, que raio, qualquer lebre, galgo, cavalo ou avestruz ultrapassaria Bem Johnson num sprint, qualquer chimpanzé ou canguru massacraria Tyson; e quanto ao record de salto em altura o especialista é o falcão, com uns 5500 metros.

Responderão que existem desportos que recorrem à inteligência, à astúcia e à coragem: o ténis, o esqui, a vela, por exemplo. Está bem. Mas, dois tontos que se devolvem uma bola por cima de uma rede, merecem uma focalização mediática tal? As façanhas dos trapezistas ou dos domadores de circo, comparativamente parecem tão admiráveis! E quanto aos “desportos extremos”, as regatas transatlânticas, a travessia do continente antárctico a pé (Para quando sobre as mãos?), ou do Pacífico a remo; tudo isto reflecte um gosto pela inutilidade, de aborrecimento, de futilidade. Já não há nada em jogo. Apenas alguns riscos (calculados) para se fazer notar pelos patrocinadores e pelos media. Antigamente, a regata dos barcos à vela, como a rota do Rum, tinha um sentido: trazer mais rapidamente possível os produtos para ser assim os primeiros do mercado. Hoje, estas regatas são façanhas insensatas, corridas sem meta, um trabalho sobre o vazio, um puro espectáculo remunerado, é como um trabalho de circo, mas sem o riso dos palhaços.

Curiosamente, os únicos desportos interessantes são os desportos étnicos, que não estão mundialmente mediatizados, como a pelota basca.

Assim, temos que condenar o desporto? Não, se for entendido como exercício físico de amadores e se servir para melhorar inteligentemente a higiene de vida e formar fisicamente os combatentes sobre o terreno. O desporto encontra-se assim finalizado, serve para algo. Os Jogos Olímpicos da Grécia antiga, que hoje perderam totalmente o seu sentido, não eram um “acontecimento desportivo”, mas um treino militar. Nenhum profissional, só amadores.

O desporto-espectáculo mundializado de hoje tem duas funções: criar falsos entusiasmos infantilizadores que neutralizem a consciência ideológica e política à volta de uma série de não-acontecimentos; e desenvolver um novo sector da indústria do espectáculo, muito pouco criador de emprego, muitas vezes mafiosa, mas dotada de imensos recursos financeiros, recursos que são aceites pelas massas.

Guillaume Faye
in “ L'Archéofuturisme”

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Howl's Moving Castle

aqui tinha demonstrado grande curiosidade no novo filme de Hayao Miyazaki e, ao ler hoje as impressões do Eurico de Barros no «Diário de Notícias», confirmei as minhas expectativas: é um sério candidato ao Leão de Ouro.

Um aspecto curioso desta ante-estreia mundial foi “o temor de que alguém tentasse fazer cópias digitais ilegais durante a projecção de imprensa atrasou muito a sessão, já que não houve bolsa, carteira ou saco de jornalista que não fosse revistado à entrada. O que as ameaças da Al-Qaeda à Itália não conseguem, um filme de Miyazaki conseguiu.

Será que vamos ter que esperar muito para vê-lo?


Alania

Assistimos este fim-de-semana ao horror do terrorismo islâmico em mais uma das suas investidas contra a Europa. A violência sobre as crianças da escola de Beslan chocou o mundo e alertou-nos para o facto de o expansionismo islâmico não olhar a meios para atingir os seus fins. É bom que, de uma vez por todas, nos convençamos que apenas unida poderá a Europa enfrentar de novo o Islão.

Para aqueles que ao ouvirem falar na Ossétia do Norte pensam que se trata de um país longínquo que nada tem que ver connosco, lembro que esse é apenas o nome georgiano para a antiga Alania.

A Alania é a terra de origem dos alanos, um dos povos bárbaros que invadiram a Península Ibérica no século V, chegando a fundar aqui um reino. Depois de o rei alano Attaces ter sido morto em batalha com os Visigodos, os alanos apelaram para o rei vândalo Gunderico, que aceitou a coroa alana. Os vândalos e alanos, recusando submeter-se ao domínio visigótico, foram-se instalando cada vez mais para Sul, acabando mesmo por atravessar para o Norte de África, onde fundaram um reino que duraria até ao século seguinte.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Stress


Esta mágoa, que em mim esgravata,
É cascata
Que sem cessar se desata
Em mortiça serenata
Às raízes do que sou,
Com o fim de apodrecê-las…

…E nem a morte me mata! –
Como a todo o acrobata
Que um dia se despenhou
Do seu trapézio d’estrelas…

Rodrigo Emílio
in “Reunião de Ruínas” (1977).

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Festival de Veneza

Abre hoje o histórico Festival de Cinema de Veneza, com o filme The Terminal, de Steven Spielberg (fora de concurso). Pelo que li no «Diário de Notícias», esta 61.ª edição, com as modificações introduzidas pelo seu novo director, Marco Muller, promete...

Depois de ver a lista de filmes do Festival, fiquei com grande curiosidade no novo filme de Hayao Miyazaki, realizador japonês de animação que muito aprecio, Howl's Moving Castle, e com pena de não poder ir. Felizmente, está lá o Eurico para nos contar tudo.