terça-feira, 31 de agosto de 2004

Pratas

Quando aqui disse que, na minha opinião, o Obikwelu não é português, ouvi as habituais acusações gratuitas de racismo e xenofobia. Mas, curiosamente, não vejo a pandilha do politicamente correcto referir os dois tipos de medalha de prata trazidos para Portugal. Pelo destaque dado pela imprensa à medalha ganha pelo nigeriano naturalizado, com certeza esta é de uma prata mais valiosa que a da medalha do Sérgio Paulinho.

Por mim, continuo a preferir a prata da casa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

O desporto descarrilado


Os “deuses do estádio” da mitologia pré-guerreira morreram. À escala mundial, o desporto não é só uma indústria (o volume de negócios da FIFA é mais importante que o de França), é um lugar de corrupção generalizada, de doping, de salários fantásticos, e também uma parte do mundo do show business, e – novo ópio do povo num Ocidente sem religião – participa totalmente e é cúmplice da empresa de descerebrização generalizada.

O espectáculo desportivo infantiliza os espíritos, camufla as realidades sociais e os fracassos do político. O Campeonato do Mundo de Futebol de 1998 foi um brilhante exemplo. O pensamento oficial saudava a vitória francesa como a da “multirracialidade e da integração conseguida”, como o símbolo de uma “França que por fim triunfa”. Simulacro, mentira e dissimulação.

Alguns factos: fazer jogar juntos onze atletas de diferente origem étnica, todos muito bem pagos, constitui um “caso limite” que não demonstra qualquer “integração” na população; a integração desta equipa não é significativa da “França plural”, mas, pelo contrário, camufla debaixo de um falso exemplo o fracasso radical do melting pot republicano; apesar de a vitória ter sido atribuída aos negros e magrebinos da selecção nacional, os seus irmãos das “cidades periféricas” não estavam autorizados a entrar nos estádios, por “razões de segurança”! O facto de alguns adeptos “de cor” (principalmente raparigas, certamente) terem pintado a cara em “tricolor”, debaixo do olhar das câmaras, foi para a classe intelectual a prova de que “a França multirracial funcionava”: Que disparate! Exactamente como no Brasil, onde a sociedade multirracial é uma sociedade multirracista, a presença de vedetas futebolísticas “de cor” permite dissimular a realidade. Apenas ordenados as luzinhas da vitória desportiva, repetiam-se os motins nas “cités”, as lutas mortais nas ruas e nas escolas; em homenagem ao jogador kabil, naturalizado francês, Zinedin Zidane, viram-se várias bandeiras argelinas nos Champs Élysées, depois de duas vitórias da equipa francesa, os gangues étnicos enfrentaram várias vezes a polícia ou os hooligans britânicos, em motins urbanos em Paris e Marselha. Que belo êxito o da “integração”! Cúmulo das parvoíces (e do racismo): o Libération, órgão oficial do anti-racismo bem-pensante, criticou a equipa alemã por apenas contar com “jogadores loiros”, sem nenhum imigrante turco ou de outra origem, devido ao direito de sangue, e afirmou que a derrota alemã podia explicar-se por esta escandalosa “pureza étnica”.

De facto, a vitória de uma equipa multirracial de futebol permitiu tapar o fracasso concreto da integração, e em vez de favorecer a multirracialidade, desenvolveu mais um pouco o multirracismo.

Em que é que esta vitória da selecção francesa reduziu a “fractura social” e a “exclusão”? Em que é que contribuiu para criar empregos e impedir a emigração dos cérebros científicos franceses para a Califórnia? Em que é que intensifica a posição diplomática, política ou cultural da França no mundo (McDonald’s, patrocinador do Mundial...)? Em que é que mostra a superioridade de uma sociedade multi-étntica sobre uma mono-étnica? Em nada. Prostitui-se o desporto para acreditar em mentiras políticas.

A religião do futebol, as histerias colectivas que provoca, os disfuncionamentos psicológicos que engendra (adeptos que se arruinam para comprar uma entrada que custa três meses de salário), explicam esta função descarrilada do desporto de hoje: criar um sector económico lucrativo e um espectáculo de massas, cujo resultado é uma manipulação da consciência política. O sistema desvia o espírito das multitudes para a focalização teatral de acontecimentos irrisórios. Mais precisamente, através do desporto o sistema transforma um espectáculo neutro num acontecimento carregado de sentido.

O desporto moderno representa exactamente o mesmo que os jogos circenses da Roma decadente: “panem circensque”. “Rendimento mínimo garantido e futebol”. Mentir e fazer esquecer. O desporto moderno entra exactamente na mesma lógica, mas de maneira mais soft – já que temos medo do sangue e da “realidade” – que as empresas de gladiadores, esses escravos adulados e sobre-assalariados.

Guillaume Faye
in “ L'Archéofuturisme”

Tradição

Este post é dedicado aos meus amigos Pedro Guedes e Mendo Ramires.

«A tradição de um povo é a sua paternidade, a substância da sua personalidade, e esta constitui-se na consciência que cada povo tem de si próprio e que é sempre consciência histórica. Pois todo o povo, como todo o indivíduo, é, em cada momento das sua existência, mais ou menos original e criador, mas é também continuador de um processo histórico que é o desenvolvimento íntimo da sua consistência espiritual. É-se tanto mais original quanto mais se é verdadeiramente capaz de entesourar o passado.»

Giovanni Gentile

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

Mário Saa

Quando ainda colaborava com o Último Reduto, enviei um poema de Mário Saa publicado na revista Tempo Presente, cuja leitura volto a aconselhar. Aqui fica outra poesia do autor, publicada noutro número da mesma revista:

Como um rio de saudade entre salgueiros,
nos sonâmbulos confins do Sol-poente,
ciciava a voz do doce rei contente,
ciciava a voz do doce rei sensível.

E era ver em seus cílios, prisioneiros,
largos orvalhos de penumbra lívida,
e do luar a brilhantina vívida
nos folhados do mar, de água indizível.

Longe se ouvia a sua voz de amianto,
gorjeio de luar, mago amuleto,
tiras de chumbo laminado à faca.

E eram beijos por timbre do seu canto,
e a sua boca, heráldica, sineto,
e o sossego da noite a cera fraca.

Mário Saa
in Tempo Presente n.º 1 (1959)

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

A sociedade do espectáculo e a sociedade do jogo


A Sociedade do Espectáculo, denunciada em 1967 por Guy Debord como uma sociedade de alienação, não fundada exclusivamente sobre a exploração económica, mas também sobre a ditadura permanente das imagens e dos objectos e sobre a multiplicação de experiências simuladas pela indústria da distracção; sofisticou-se consideravelmente. Não unicamente pela exposição da esfera audiovisual e da Internet, mas também porque esta sociedade do espectáculo, para captar a atenção do público, centrou-se no espectáculo do Jogo. O jogo – simulacro da guerra – foi, desde sempre, um comportamento com uma forte descarga fisiológica, que permite ao “Dono do Jogo” controlar os actores e os espectadores. Em Roma, os jogos do circo foram um meio político para apagar as tensões sociais. Assim, assistimos a um crescimento considerável da influência do Jogo: desportos-espectáculo transmitidos em todo o planeta, explosão dos jogos de computador e, em pouco tempo, dos jogos virtuais (cúmulo do simulacro!), multiplicação dos produtos propostos pela “Française des Jeux” e dos “parques de atracções”, etc. Mas, o jogo é, por definição, o domínio do vazio. Não tem nenhum sentido. Uma pechincha para o sistema: “paguem e joguem, paguem e vejam jogar”. Não é por acaso que os estados ocidentais continuam esta Sociedade do Jogo, como fez a Roma decadente da Antiguidade, mas somando a potência do impacto do audiovisual e da informática. Os CD-Rom de jogos, que inundam as classes jovens, excluem as actividades “perigosas”: ler e pensar. O jogo mata estes vírus insuportáveis chamados ideias.

Mas a estratégia parece estar condenada ao fracasso. É a mesma do Big Brother orwelliano de 1984, ou do filme Farenheit 451, em versão soft, evidentemente. Uma sociedade não pode sobreviver muito tempo sem legitimação positiva. Desviar a atenção e infantilizar… Esta estratégia indigente e imbecil apenas pode funcionar por pouco tempo. “Vai jogar e deixa o teu pai em paz”. Privada de verdadeiros discursos e de resultados práticos para resolver os problemas cada vez mais graves, sem objectivos mobilizadores, a ideologia hegemónica não poderá, a longo prazo, sobreviver sobre o vazio e a negatividade, sobre a cultura do insignificante e da entertainment industry.

Guillaume Faye
in “ L'Archéofuturisme”

Reflexões olímpicas

Eu andava a adiar este post, mas depois de ver no Nova Frente a antevisão da comitiva portuguesa para os Jogos Olímpicos de Pequim 2008, não resisti.

Será este o futuro de Portugal e do resto da Europa? É, com certeza, se continuarmos com a mesma atitude. A maioria dos portugueses – fortemente influenciada pelo futebol profissional – festeja as vitórias de mercenários desportivos, não parando para reflectir que esta devia ser uma representação de Portugal e do seu Povo.

Para mim, o Obikwelu não é português, ao contrário do Bruno Mascarenhas. Juridicamente, o primeiro é nacional e o segundo italiano. Mas, reparem que até os jornalistas politicamente correctos se referem a um como “português de origem nigeriana” e ao outro como “português naturalizado italiano”. Desta vez, acertaram em cheio: a diferença está na origem. Quando os portugueses deixarem de ser de origem, simplesmente deixará de haver portugueses.

Mais vale uma representação portuguesa de origem sem medalhas, do que campeões que sejam portugueses de papel.

domingo, 22 de agosto de 2004

Naturalidade

Por ocasião do nascimento do filho de um amigo meu, tive com ele uma conversa sobre a naturalidade. Disse-lhe que quando fui registar o meu filho me foram apresentadas duas opções: “Quer que a naturalidade seja a da freguesia onde nasceu ou a da sua residência?” perguntou, para minha estupefacção, a funcionária do registo. Ainda tentei fazê-la ver por que achava essa escolha sem sentido, mas ela não quis ouvir. Limitou-se a obter uma resposta e atender a pessoa seguinte.

O meu amigo é um daqueles que acha essa possibilidade de escolha óptima, de tal forma que registou o filho na freguesia onde reside. Argumentei que tal escolha era absurda. A naturalidade é o local de nascimento, não o local de residência dos pais à altura do nascimento. Fi-lo ver que no Bilhete de Identidade a tradução para naturalidade é “lieu de naissance” e “birthplace”. Fará algum sentido figurar neste campo outro local que não seja o de nascimento?

terça-feira, 17 de agosto de 2004

Ensino

Li no sempre recomendável Portugal e Espanha um excelente post intitulado “Qualidade do Ensino”, onde é reproduzido um artigo de leitura obrigatória de Fátima Bonifácio, professora de História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É um artigo politicamente incorrecto que toca com força na ferida, descrevendo com conhecimento directo a situação alarmante de uma população estudantil ignorante, desinteressada e preguiçosa.

Este é um dos mais graves problemas nacionais. Pior: é um dos mais esquecidos pelos (des)governantes que vão pass(e)ando pelos mais altos cargos e a quem cabem as maiores responsabilidades.

As reacções são sempre as mesmas: “Já foi nomeada uma comissão”, “O executivo está a inteirar-se da situação”... As soluções também: "Será disponibilizada mais verba"...

Mas, como muito bem diz Fátima Bonifácio: “Não há dinheiro que resolva o problema.

É um problema estrutural. A ignorância abunda e reina. Portugal vai pelo cano abaixo e não há ninguém com coragem de inverter a tendência.

Desculpem-me terminar com um lugar comum, mas estes são os portugueses de amanhã...

sexta-feira, 13 de agosto de 2004

Ainda me estou a rir...

Ora leiam lá este primeiro parágrafo da crónica de Vasco Pulido Valente, hoje no «Diário de Notícias»:

«O Presidente da República, Jorge Sampaio, e o ministro de Estado e da Presidência (com a tutela da Comissão da Igualdade para os Direitos das Mulheres), Nuno Morais Sarmento, resolveram publicar ontem nos jornais duas redacções, talvez para mostrar que poderiam perfeitamente ter passado o 9.º ano.»
E continua...

segunda-feira, 9 de agosto de 2004

Boa ideia?

Do Diário de Notícias: "BBC prepara 'reality show' para melhorar uso da língua"

Brinquedos

Sábado foi um dia especial para mim. Larguei a capital e rumei a Sintra. Num dia especial há que estar num sítio especial e eu sempre senti a magia do Monte da Lua como um amor correspondido.

Aproveitei e levei o meu filho pela primeira vez ao Museu do Brinquedo. É uma visita obrigatória. Eu sou capaz de passar horas naquele 2.º andar...

quarta-feira, 4 de agosto de 2004

«Leur Europe»

É o título do Billet de hoje de Yves Daoudal, que reflecte sobre as escolhas europeias do nosso ex-primeiro-ministro. Aqui fica um excerto:

"Les trois derniers membres de la future Commission européenne ont été désignés hier par leurs gouvernements respectifs (Hongrie, Pays-Bas, Lettonie). Désormais, la Commission de 25 membres est donc au complet, si du moins sa composition est avalisée par le Parlement européen, ce qui ne semble pas devoir poser de problème.
Le futur président José Manuel Durao Barroso s'est dit satisfait. Non pas d'avoir bouclé son équipe, mais d'avoir obtenu la nomination de huit femmes…
Il lui reste maintenant à attribuer les portefeuilles. Une opération délicate, pour laquelle il ne cesse de dire qu'elle relève de son jugement souverain, mais qui fait néanmoins l'objet de fortes pressions et tractations en coulisses. Et, puisqu'il y aura 24 commissaires en sus du président, chaque pays ayant le sien, il faudra que Barroso invente dix nouveaux portefeuilles, avec des titres assez prestigieux pour ne pas froisser la susceptibilité des uns et des autres…
Ainsi va leur Europe. Le sexe des commissaires est plus important que leurs compétences, et ce ne sont pas les différents domaines de travail de l'Union européenne qui déterminent les postes, mais le nombre des Etats membres…
"

Não consigo compreender, sinceramente, a "Europa deles"...

Mocidade Portuguesa

Hoje chamou-me a atenção a capa do jornal local de Cascais «A Zona», onde, abaixo da fotografia de Pedro Silva, li o título “A relevância pedagógica da Mocidade Portuguesa”.

Pedro Augusto Silva - fiquei a saber - é o Presidente da Junta de Freguesia de Cascais, que afirma sem quaisquer complexos: “A grande marca que retenho da minha juventude foi ter frequentado a Mocidade Portuguesa desde os seis anos, onde aprendi muito do que sou hoje”.

Não serve este post para falar sobre aquela que barnabés e companhia querem classificar como “organização fascista de repressão da juventude”, mas para partilhar convosco a sinceridade e coragem com que este militante do CDS-PP fala da importância da Mocidade Portuguesa na sua formação e as oportunidades que esta lhe proporcionou.

Diz Pedro Silva: “Aprendi muito e foram-me proporcionadas oportunidades, a que de outro modo não teria acesso. Aos dez anos comecei a andar a cavalo, o que prolonguei até me casar, fiz vela, pratiquei voleibol, joguei ténis de mesa em competições internas da Mocidade e em representação da Escola Ferreira Borges, tendo ganho algumas medalhas. Dediquei ainda algum tempo ao aeromodelismo e ao campismo e tudo isto me proporcionou uma prática saudável de associativismo e não aquilo a que chamo uma juventude de arrasta pé, à espera que o tempo passasse, mas sim um convívio sadio que me preparou para o futuro.”

É bom que os mitos e tabus de Abril vão caindo...

terça-feira, 3 de agosto de 2004

CICLO DA VIDA NO TEMPO DO MUNDO


1.

Ávida vida,
a vida a que vim
dar-nos-á saída
só ao fim
do Fim!...

2.

Contudo, em corte
cindida,
da Morte
renasce vida!

3.

Tal como o ventre que engelha
Se assemelha à própria cova,
No antigo é que se espelha
Sempre tudo o que renova.

− E provém de lua velha
a Lua Nova!


Rodrigo Emílio
in “Serenata a Meus Umbrais”

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Agosto

Longe vão os tempos em que Lisboa ficava deserta em Agosto. Continua a ser o mês de descanso da capital, mas esta já não pára, apenas abranda o ritmo. Sempre gostei desta altura em que é possível apreciar a cidade de outra maneira, em que parece termos parte dela só para nós. Estou em Lisboa. E não penso nas férias, que ainda estão longe...

Na blogosfera, o passo também está mais lento. O Pedro queixa-se de que quase ninguém o lê”, por aqui os leitores também diminuíram, acho que acontece a todos nesta altura. De qualquer maneira, cá fico, a escrever para quem quiser ler. E, a quem for caso disso, boas férias.