Há uns dias, numa troca de ideias via correio-e com um leitor, relembrei um dos livros que mais me marcaram. Considero-o até uma pedra basilar na formação do meu pensamento. Falo do livro de Alain de Benoist, "Vu de droite. Anthologie critique des idées contemporaines", publicado pela "Copernic" em 1977 e que ganhou o Grande Prémio do Ensaio da Academia francesa no ano seguinte. No nosso país recebeu o título "Nova Direita Nova Cultura – Antologia crítica das ideias contemporâneas" e foi publicado por "Fernando Ribeiro de Mello/Edições Afrodite" em 1981. Li-o ávida mas não apressadamente (como sugerem alguns) na adolescência e reli-o parcialmente em diversas ocasiões. Ainda hoje recorro a esta fantástica obra inúmeras vezes. Na sequência da conversa que já referi, confesso que não resisti a resgatá-lo da prateleira para partilhar convosco uns extractos da Introdução, que reproduzo abaixo (os títulos são meus):
Direita?
«De direita? Ora vamos ver. Um Chefe de Estado francês disse que os nossos concidadãos queriam ser governados «ao centro». Mas ao centro de quê? Ao centro da esquerda? E como pode haver uma esquerda sem que haja uma direita? Para os homens de esquerda, a recusa em se dizer de direita é um dos traços característicos do homem de direita. O título deste livro parece escapar à regra. Na realidade, isso apenas é verdade até um certo ponto. Pessoalmente, a questão de saber se sou ou não de direita é-me absolutamente indiferente. Por agora, as ideias que esta obra defende estão à direita; mas não são, necessariamente, de direita. Posso imaginar perfeitamente situações em que elas poderiam estar à esquerda. Não seriam as ideias que teriam mudado, mas sim a paisagem política que teria evoluído. Veremos o que o tempo terá para nos dizer. Por outro lado, é impossível permanecer perpetuamente suspenso no tecto. Aceitemos, pois, o termo de direita; ao fim e ao cabo, as palavras não são as coisas. E até por que em França, nestes fins dos anos setenta, numa época em que toda a gente (ou quase toda) se diz de esquerda, ser «de direita» é ainda a melhor forma de estar em qualquer lado.»
O livro
« (…) Este livro tenta fazer um balanço do movimento de ideias, desde o início dos anos setenta. Mais precisamente, ele tem em conta a maioria dos debates que aqui e ali se desenvolveram, depois da queda da grande voga do estruturalismo (que se seguiu à que, nos anos cinquenta, teve o existencialismo). Claro está que, apesar das suas dimensões, ele não cobre a totalidade dos debates. De Montherland a Cioran, passando por Dumézil, Mircea Eliade, Raymond Aron, etc., ele tem muitas «falhas» que lamento não ter superado. Trata-se de uma antologia, não de uma verdadeira enciclopédia – ainda que nele se manifeste um anseio bastante comparável, ao fim e ao cabo, ao dos enciclopedistas do séc. XVIII. Mas não fui eu que escolhi inteiramente os temas sobre que me debrucei. Muitas vezes, eles foram-me ditados pela actualidade. Fundamentei-me, essencialmente, sobre livros publicados no decurso destes últimos anos e que me pareceram ser os que mais significativos, quer os mais indicados para elaborar uma construção susceptível de servir uma direita deste tempo.
Ao longo das páginas, ver-se-á expressa uma dupla crítica: crítica ideológica da esquerda, crítica metodológica da direita. Neste textos, procurarei esboçar o rosto de uma direita possível. Não pretendo – e não o desejo – que todo o homem de direita se possa nele reconhecer. Pretendi, sobretudo, contribuir para clarificar um debate, para sair da confusão, para trazer um juízo sobre as ideias e os homens – para além das palavras e das etiquetas – à luz de um mesmo estilo e de uma mesma sensibilidade. Esforcei-me para apresentar «aberturas». Pistas a seguir. Este livro apresenta elevado número de argumentos e, apesar disso, ele não procura, verdadeiramente convencer. Não acredito que quem quer que seja possa ser «convencido». Não acredito – sem com isso pretender afirmar que as desenho – nas grandes construções intelectuais que apenas se dirigem à razão. Não se cria uma sensibilidade mas pode-se, por vezes, despertá-la. Tal é o objectivo desta obra: despertar uma certa forma de sensibilidade, fazer nascer a consciência de uma certa filiação natural, dar a ler um texto em que alguns possam reconhecer a forma daquilo que, inconscientemente, jamais deixaram de aspirar.»

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