segunda-feira, 26 de julho de 2004

Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra (VI)

Estrangeiro na própria Pátria
Ernst Jünger é um dos maiores prosadores de sempre da língua alemã. O seu estilo é objectivo e sóbrio, seco mas apolíneo. Um estilo de precisão técnica, de clássica elegância e de fino recorte, banhado por uma atmosfera de “mozartiana” limpidez, por vezes de trágica transparência. O que não impede muitas páginas de culminarem em aforismos brilhantes, lembrando os melhores de Lichtemberg e Nietzsche.
Entronca numa grande tradição cultural, sendo visível, na sua mentalidade e na sua obra, uma muito profunda afinidade com Goethe e os românticos alemães.
Mas – e isto interessa sobretudo àqueles que tanto se preocupam em definir ideologias ou em tudo catalogar com palavras sonoras, pensando talvez que o que é grande precisa adjectivação – torna-se extremamente difícil, quanto a Jünger, apurar, não a ideologia, terreno que lhe é manifestamente estranho, mas as suas concepções e personalidade.
Combinação que parecerá incoerente, a qualquer racionalista, de nacionalismo e universalismo, heroísmo e tecnocracia, violência física e nobreza de alma, aristocratismo e neobarbarismo. Todos estes elementos apenas mantidos em equilíbrio, aparentemente precário, pela sua personalidade, dir-se-ia pela alquimia misteriosa da sua simples existência. Neste sentido, mas apenas neste, o escritor, de cuja obra, aliás, Heidegger era um dos melhores intérpretes, será existencialista.
E se parecesse incontroverso que um homem como Jünger, de individualismo extremado, não pode aderir a grupos e muito menos a qualquer movimento de massas, não é menos incontestável uma profunda transcendental ligação à sua comunidade, à sua terra e ao seu sangue.
Mesmo na “Paz”, e apesar dos seus objectivos supra-estaduais, escreve: “Da mesma forma que a lealdade do homem, no novo Estado, não pode assentar no internacionalismo, mas sim na sua fidelidade nacional, a educação de fundar-se na fé e não na indiferença. Ele deve ser o homem de uma pátria, no espaço e no infinito, no tempo e no eterno.”
Admirador de Heidegger, nunca foi realmente existencialista. Pensador pré-nazi do nazismo, nunca foi nazi. Defendendo a paz universal, não é pacifista. Antitotalitário, escapa às classificações de democrata, ou mesmo de liberal.
Mas talvez uma das melhores chaves para o conhecimento da sua personalidade esteja no curto texto que escreveu por ocasião dos seus 80 anos “Beim Achtzigsten Jahr” (“Aos Oitenta Anos”), que constitui o fecho do “Contemplador”:
“Tive sempre o sentimento de não estar conforme com a ordem estabelecida – Quer seja politicamente definida pela monarquia, pelas repúblicas ou pela ditadura, quer sirva economicamente de pasto ao “homo faber” e aos seus satélites, quer esteja teologicamente desmitizada pelas raposas da inteligência.
Por isso precisei de nadar contra uma corrente cada vez mais forte (…) em plena “terra de ninguém” (…) muitas vezes com a pergunta de Molière, sete vezes repetida: “Que diabo estou eu a fazer nesta galera?”
De ano para ano tenho suportado, também, o sofrimento que Hölderlin atribui a Hyperionte: o sentimento de ser estrangeiro na própria pátria.”
E, logo a seguir, em contraponto inevitável e pessoalíssimo, acrescenta: “É o que atestam, no meu espírito e no meu corpo, os estigmas e as cicatrizes de um amor desgraçado, mas indelével, que se prende ao povo, não a partidos.”
Ernst Jünger, síntese elaborada de homem de acção e de pensamento, germânico do nosso século e do fundo das eras, traço de união entre o Ocidente e o Oriente, é mais um “sage” do que um guia. E quando se despediu de mim com formal reserva, continuando delicadamente à porta de casa, ao lado da mulher, até o carro se afastar, tive a noção que aquele homem só, figura isolada, não deixaria discípulos.
Mas a sua lição é talvez bem mais fecunda e excepcional.

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