As Drogas como Chave
Em 1970, Jünger publicou “Annaeherungen – Drogen und Rausch” (“Aproximações – Drogas e Embriaguês”) – de que gentilmente me ofereceu um exemplar da tradução francesa, saída meses antes – dedicado ao mundo das drogas, que experimenta pessoalmente, numa atitude de requintado epicurismo, e na linha da tradição oriental da aventura interior, orientada pela subtileza da sabedoria e pelo culto da virtude.
A este respeito escreve: “...deveria existir uma certa idade (...), a partir da qual todas as restrições desaparecessem – porque quem se aproxima do ilimitado tem direito a que lhe concedam vastos limites”.
E “Os porcos de Epicuro”, como se dizia antigamente, não se arriscam a irromper nas plantações de papoila e de cânhamo. O epicurista não é inclinado ao excesso, que poria o seu prazer em perigo.
Desfruta do tempo e das coisas, sendo assim o oposto do toxicómano, que padece sob o peso do tempo.
E ainda: “As drogas serviam-lhe de chave para se introduzir nos esconderijos e nos antros do mundo.
Também bebia vinho, mas nunca por gosto do prazer, antes por uma mistura de sede de aventuras e sede de conhecer (...). O vinho era, para ele, uma chave entre tantas outras, um dos pórticos do Labirinto.
(...) Pensava que cada droga contém uma fórmula que dá acesso a certas câmaras e a certos enigmas do mundo”.
Acerca deste aspecto da sua experiência, disse-me Jünger: “O importante não é a droga, mas os graus de aproximação.
Já Hoffmann, por exemplo, faz diversas alusões ao ópio.”
Sobre a sua obra “Besuch auf Godenholm” (“Visita a Godenholm”), em que explora as possibilidades abertas pela acção da droga, no que toca a agudeza do espírito e largueza de visão, refere o autor uma circunstância significativa:
Gottfried Benn, o grande poeta alemão, médico durante as duas guerras e que assistiu, nessa qualidade, à execução em Bruxelas de Edith Cavell em 1915, por espionagem, num encontro em Berlim, pouco antes da sua morte, dissera-lhe que a “Visita” era o que tinha escrito de mais requintado.
E Vintila Horia, o conhecido romancista e historiador de literatura, em carta dirigida a Jünger, considera acerca do livro: “O próprio título significa, talvez, a casa dos deuses ou o tecto dos deuses, se não me engano, e trata-se da última iniciação – a da morte – esboçada e pressentida, desde a primeira página.”
A inspiração do autor, de profundo sentido metafísico, parece assim, nesta última fase, libertar-se cada vez mais das contingências e atingir uma excepcional pureza.
(Continua amanhã)
sexta-feira, 23 de julho de 2004
Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra (IV)
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