quarta-feira, 21 de julho de 2004

Ernst Jünger: O Mago da Floresta Negra (III)

O que cada um faz do seu niilismo
Em 1932, Ernst Jünger publicou o ensaio “Der Arbeiter” (“O Trabalhador”), talvez a mais empenhada ideologicamente de todas as suas obras, expressão de uma muito forte vontade de poder, em que exige a transformação da nação inteira, de acordo com os novos imperativos da técnica bélica, a militarização total da economia e da indústria, a conversão do seu povo num exército de operários de uniforme, comandados por um corpo ou escol de engenheiros fardados. Mas, não obstante, para ele, a militarização excluía necessariamente a massificação. Eram mesmo coisas opostas.
É que Jünger é aristocrata por sensibilidade e por temperamento e, se os seus ideais de mobilização total quase conhecem realização efectiva e completa no decurso da segunda guerra mundial, com o Nacional-Socialismo, a verdade é que nunca aderiu ao movimento ao qual levara tantos adeptos.
De resto, abordando durante a conversa o assunto, já noutro plano e perspectiva, numa linguagem iniciática e quase cifrada, Jünger dir-me-ia: “Não se encontra Deus, mas descobre-se o Céu.”
O trabalhador é uma força espiritual que se irá manifestar em tipos novos e num mundo novo. Não como classe, mas sim como uma nova força histórica que destruirá as velhas castas. A técnica é a veste do trabalhador.
Desenha-se actualmente uma evolução que levará muito tempo a atingir o seu estádio final. A astrologia já o anunciou, da mesma forma que as velhas profecias do início da Cristandade. Caminhamos para uma nova espiritualidade, coincidente com a era do Aquário. O importante é o que cada um faz do seu niilismo...
Théophile Gautier escreveu que a barbárie vale mais do que a vulgaridade. Hoje, as pessoas que pensam dialecticamente vêem, regra geral, com um único olho. A humanidade zarolha é mais repugnante do que a barbárie.
A sua atitude perante o Nacional-Socialismo é explicável, quer por uma nobreza de sinal aristocrático, que rejeita com firmeza qualquer tipo de demagogia, quer por um humanismo inato, uma qualidade espiritual e uma escala de valores que condenavam, irremediavelmente, um niilismo huamano e o drama bestial dos campos de concentração.
No seu romance “Auf den Marmorklippen” (“Sobre as Falésias de Mármore”), cujas provas reviu em Setembro de 39, de novo sob uniforme, já com os galões de capitão, traduzindo a promoção que lhe fora comunicada por telegrama pelo próprio comandante em chefe do Exército, von Brauchitsch, sinal de rara distinção, logo houve quem visse – sobretudo em certos círculos do ministério de Goebbels – uma denúncia do totalitarismo.
No entanto, apesar da insistência de muitos, já depois de terminada a guerra, e não obstante a simpatia fácil e as vantagens que daí lhe adviriam junto das autoridades de Ocupação, sempre o autor que o sinistro ditador das “Falésias” representasse Adolfo Hitler. E contudo, no “Diário”, de passagem, há uma referência clara ao desacordo entre Polis e Ethos. Mas, como também escreveu, a propósito das acusações de não apurar suficientemente as responsabilidades de guerra, ama a sua pátria.
Logo proibido na Alemanha, quando do seu aparecimento, embora a suspensão mais tarde fosse levantada, tendo sido até traduzido na França ocupada de 1942, o livro tornaria Jünger suspeito.
De resto, o tema das “Falésias” – a “destruição do mundo tradicional e cavalheiresco”, o fim das “guerras leais em que combatiam cavaleiros” – é o mesmo das “Abelhas de Cristal” e de “Heliopolis”. Na linha dos velhos mitos germânicos, os heróis, “após terem lutado em vão contra as hordas de novos bárbaros, retiram-se para mundos misteriosos e distantes, colocando no rosto máscaras de ouro”, símbolos da morte e da entrada num ciclo de redenção.
Jünger, sem conspirar propriamente, pertencia aos círculos de certa oposição interna – o grupo do general comandante da região militar de Paris, von Stuelpnagel, junto de quem servia. E, se na sua ligação aos que, em 20 de Julho de 44, tentaram eliminar o Führer, não o levou ao Tribunal do Povo, onde os processos, expeditivos e simples, de Freisler, não deixariam, certamente, de o incriminar, tal deve-se, não tenho dúvida, a uma profunda e misteriosa solidariedade. Hitler, o antigo combatente das primeiras linhas, conservava um respeito indelével pelo antigo tenente de “destacamentos especiais”, Ernst Jünger, ferido catorze vezes e titular, desde os 23 anos, da mais alta condecoração militar alemão do tempo, o “Pour le Mérite”, e poeta luminoso do heroísmo.
Esta fidelidade teria levado certa vez o chefe supremo da Alemanha a avisar os homens das “guerras” dos microfones e dos títulos de caixa alta: “Deixem o Jünger em paz.”
Foi em Paris, no próprio Hotel Majestic, centro nevrálgico, que Jünger escreveu o ensaio “Der Friede” (“A Paz”), concebido em fins de 1941 e finalmente redigido em 1943. Além de terrível libelo contra Thanatos, as potências de morte e destruição, constituía um apelo à juventude da Europa, para uma paz com honra, superando fronteiras, e destinava-se a servir de manifesto aos conspiradores, reunidos sob o prestígio e “sólidos ombros” do marechal Rommel.
Sobre esta perspectiva política e acerca da sua actualidade, disse-me Jünger, que recordou um encontro, durante a Ocupação, no Instituto Alemão de Paris, com Drieu La Rochelle, por quem ficara com simpatia, e que se referira, na altura, a uma torre gótica de igreja medieval, numa aldeia situada na frente, num sector em que ambos tinham estado, na guerra de 14-18, e que dava as horas para os combatentes de ambos os lados:
“A Europa tem história em demasia. Tocqueville previu que a América e a Rússia seriam as potências do futuro. A realidades históricas são muito fortes. É difícil suprimir os nacionalismos.
O Estados nacionais nasceram com a Revolução. A distinção entre Heimat (Província) e Vaterland (Pátria) pode revelar-se válida para uma nova Europa. Pela minha parte desejaria vê-la realizada, mas receio que as pessoas estejam excessivamente empenhadas nas querelas nacionais.
Napoleão, como corso que era, quis fazer dos irmãos reis... Nietzsche considerava que, por isso, ele tinha perdido a sua oportunidade, o que não teria sucedido com Carlos Magno.”

(Continua na próxima Sexta-Feira)

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