A Chamada da Raça
Soldado, para além de aventureiro e guerreiro, voluntário, responde prontamente, com o fogo do entusiasmo, à chamada da raça, em Agosto de 14. Encontraria, assim, o lugar geométrico e temporal que lhe competia, vivendo então autenticamente um traço vocacional profundo que o marcaria para sempre.
Durante o primeiro ano, soldado, mais tarde, depois de provas prestadas de coragem física, capacidade intelectual e firmeza de carácter, oficial, após ter concluído o curso, em que apenas se inscreveu por insistência do pai, pois de início lhe parecia preferível bater-se, sob o uniforme de simples fuzileiro, responsável unicamente por si próprio.
Sempre presente na frente de batalha, comandou, desde meados da guerra tal como Rommel, uma dessas companhias especiais, que faziam incursões atrás das linhas inimigas, e cujas posições habituais se encontravam entre as frentes, na chamada “terra de ninguém”.
Nacionalista sempre fora e sempre conservará o gosto da coragem e o culto das armas. Com o desfecho da primeira guerra mundial, assiste à derrota militar da Alemanha e à transformação do Império na democrática República de Weimar, governada por plebeus e burgueses, pacifistas e socialistas.
Mas era também o tempo “revolto”, em que os Corpos Francos, que pareciam brotar espontaneamente da própria alma alemã, se encaminhavam como torrente para Leste, cobrindo-se de glória nas terras do Báltico e nas fronteiras com a Pólonia, da luta de classes revolucionária e da dura pacificação interior, levada a cabo pelo social-democrata Noske e pela pequena Reichwehr.
Como Ernst von Salomon, o autor de “Os Cadetes” e de “Os Reprovados”, Ernst Niekisch ou Moeller van der Bruck participa na agitada vida política da época em que se defrontavam as esquerdas marxistas e as direitas socialistas e nacionais de então, igualmente empenhadas em transformações radicais.
No plano científico, em Goettingen, trabalhavam nessa altura Heisenberg, Planck, Pauli, Jordan; no terreno artístico e literário, brilhavam Hauptmann e Thomas Mann e lançavam as últimas chamas do seu talento Rilke, Kafka, Musil e Broch. Triunfava a pintura expressionista e o cinema do mesmo nome; a nova linha arquitectónica da Bauhaus e a música de Richard Strauss; o pensamento de Spengler e de Keyserling, de Husserl e de Heidegger.
Como testemunho da experiência da frente, Jünger escreveu, isolado e cerca de dez anos antes de muitas outras obras – que, se tinham por tema o mesmo assunto, nem sempre vinham assinadas por homens da mesma família espiritual – “In Stahlgewittern” (“Tempestades de Aço”), impressionante descrição dos combates daquela grande guerra que, começando europeia, terminaria mundial, das “materialschlachten” (“batalhas de material”), em que a vitória cabe aos mais numerosos e melhor armados e às indústrias da retaguarda, com sede além Atlântico.
Ao contrário de tantos outros que se lhe seguiram, Jünger não retira, porém, da sua experiência, a conclusão amarga da inutilidade do heroísmo pessoal na guerra moderna e escreveu: “Temos batalhado na lama e no sangue, mas o nosso rosto sempre se voltou para as coisas de alta e suprema valia e nenhum dos que perdemos durante os combates caiu em vão.” Ao seu patriotismo, sem ódio, junta-se o culto dos heróis: “Solitários, mantinham-se nas tempestades dos combates, quando a morte, como um cavaleiro de púrpura, lançando chamas, galopava através das brumas (...). Eles eram os vencedores do medo.”
O seu instinto de homem de guerra permanece intacto. Quando, passeando no jardim, ao fazer-me as honras do proprietário, se falou das guerrilhas em Angola, manifesta o seu interesse pelas condições do combate no terreno e pela natureza das operações militares e, depois do regresso a casa, mostra-me, sorrindo com extrema vivacidade, o seu capacete com dois buracos de bala, pondo-o na cabeça, enquanto uma chama fugaz de juvenil alegria lhe brinca nos olhos.
A propósito de Angola, fala-me de insectos que descobriu naquele território em 1968, de uma nova espécie – a “Cicindela Juengeri”, vulgo “Juengerela”, explicação que acompanhou de um sorriso – descrita em 1972 pelo professor Mandl. Segundo me disse então, gostaria de lá voltar, fazendo mesmo o projecto de uma nova viagem por mar...
Acerca da entomologia, cuja paixão descreve em “Annaeterungen” (“Caças Subtis”), sublinhando a certeza de inacabado que inevitavelmente acompanha o coleccionador de insectos em face do número incalculável de espécies, e que tão bem se conjuga com o sentido de Jünger de intemporalidade, de dimensão histórica e do efémero do humano, há um traço no seu “Diário de Guerra e de Ocupação – 1939/1948” que revela plenamente o naturalista e a sua intuição: Quanto à conspiração de 1944, o resultado nunca lhe pareceu duvidoso, bastando, segundo ele, comparar as mandíbulas poderosas dos SS com o facies afinado dos oficiais rebeldes, representantes de uma aristocracia fatigada.
É também o naturalista que, com o seu olhar agudo e a sua terminologia característica, tantas vezes presentes na obra, se manifesta, embora desta vez num sentido mais global, quando escreve, num ensaio sobre o pintor e gravador simbolista Alfred Kubin, “Die Staubdaemonen” (“Os Demónios da Poeira”), que se deve discernir, “no naufrágio do mundo burguês, que nos arrasta a todos, activos ou passivos, os sintomas da decomposição orgânica, mais subtil e penetrante que os factos técnicos ou políticos de que está suficientemente afectado”. Aliás Jünger sempre se mostrou sensível ao espectáculo da decadência, decomposição e decrepitude dos finais de época; na parede do seu gabinete de trabalho, Bruegel está representado por uma reprodução da “Torre de Babel”, vizinha de um desenho à pena que representa “A Última Noite de Atlantis”.
E igualmente são imagens do mundo da ciência de que se serve, neste curto comentário ao drama de uma noite de bombardeamento em fins de 44, assinalado no “Diário”, em que o desprezo encontra a perspectiva exacta: “Parece que fomos ontem sobrevoados por mil e seiscentos aparelhos. Com suas espirais e rastos brancos assemelhavam-se a enxames de micróbios formigando numa imensa gota de água azul.” Passa, assim, com simplicidade, da habitual frieza factual para uma poesia cósmica, como se através desta transmutação houvesse já a preocupação de “fixar” alquimicamente os portadores de morte do macrocosmos no infinitamente pequeno, aprisionando-a...
Ainda sobre assuntos militares e a respeito do “Innere Fuehrung” (em cuja academia em Koblenz, eu estivera há dias), o “princípio da consciência”, base da “disciplina consentida” da Bundeswehr, o actual exército da Alemanha Federal, e que tantas discussões escaldantes tem provocado entre os especialistas, Jünger, curiosamente, atendendo à sua tradição, não me pareceu atribuir-lhe particular significado. Com extremo realismo e lucidez, limitou-se a pôr o problema do valor da antiga regra de rigorosa obediência no quadro presente de uma guerra nuclear, que se procura evitar por qualquer preço. Fazendo um paralelo com o passado, anterior a 1945, recordou com um sorriso que, nesse tempo, eram os políticos que tinham de refrear os entusiasmos excessivos dos povos e os ardores guerreiros.
(Continua na próxima Quarta-Feira)
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