Conversei algum tempo com Ernst Jünger, considerado muitas vezes o maior escritor vivo de língua alemã, em 27 de Maio de 1973.Tendo-lhe telefonado a solicitar a entrevista, em princípio de muito difícil obtenção, e encontrando-me a grande distância, a resposta, após ligeira hesitação, veio com rigorosa precisão militar, superior às contingências: “Esteja aqui amanhã, às cinco da tarde.”
Na Suábia, em plena Floresta Negra, no centro de Wilflingen, pequena povoação com cerca de quatrocentos habitantes, ergue-se, em frente do castelo dos condes de Stauffenberg, a antiga casa do Intendente das Florestas, datando do princípio do século XVIII, em que vive Jünger, desde 1950.
Àquela família senhorial da velha nobreza alemã pertencia o coronel conde de Stauffenberg, executado em 1944 pela sua participação no atentado contra Adolfo Hitler. Foi ele que colocou, sob a mesa da conferência, a pasta que transportava a bomba, cuja explosão viria apenas a ferir o chefe do III Reich.
Referindo-se à casa em que vive com a sua segunda mulher, Liselotte, bibliotecária e historiadora, rodeado das suas colecções de plantas e insectos, pois é um entomologista apaixonado, de sete bibliotecas filosóficas, científicas e literárias, e de um mundo de fotografias e recordações de um passado rico e muito pessoal, que se mantém presente, Ernst Jünger disse-me, na altura, que ela completaria dois séculos e meio em 1974, contando nessa ocasião, que quase coincide com os seus oitenta anos, reunir alguns amigos: o irmão Friedrich Georg, também escritor, Alfred Andersch, François Bondy, Marcel Jouhandeau, entre outros.
É visível que o escritor se sente perfeitamente à vontade neste modesto e retirado burgo, que constitui o seu quadro natural, “onde ainda encontra espaço”, como me fez notar ao receber-me, jantando no dia da semana tradicionalmente reservado às limpezas da casa, em ameno convívio, na estalagem da terra.
Este isolamento, que evoca o “Rebelde” com que abre a trilogia “Àcerca do Homem e do Tempo”, lembra também o costume germânico referido por Jünger em Der “Waldgang” (“O Caminho da Floresta”): no tempo das sagas islandesas, concedia-se ao homem condenado e banido a liberdade de ir para a floresta e aí levar uma vida solitária, mas independente.
Na época dos totalitarismos, de Estado e de Sociedade, de grosseira tirania da técnica e da mecanização, com o seu fatal determinismo materialista, não será o único modo de viver, para um homem como Jünger? Última forma de defender a liberdade espiritual e, com ela, a própria possibilidade de criação num tempo de conflito irremediável entre o biológico e o sociológico, entre a cultura e a civilização.
Ou traduzirá simplesmente aquela atitude uma constante posição de marginal e um gosto de distante independência e serena meditação, reflectidos profundamente na sua obra e na sua vida?
De qualquer modo, aludindo indirectamente a estes aspectos, durante a nossa conversa, em que logo de início explicou não suportar magnetofones, testemunhas cínicas e indiscretas, Jünger acrescentaria: “As elites estão mal vistas. Sou um homem solitário. Antigamente, havia os claustros. A salvação da alma é importante. Não se pode ser elitista, quando não há elites. É ridículo. Ser aristocrata hoje é bastante difícil... quase ridículo.”
De estatura média para um alemão, Ernst Jünger transmite uma certa ilusão inicial de fragilidade que cedo se desvanece, dando lugar a uma impressão duradoira de grande robustez.
Quando me recebeu, vestia um fato castanho de bombazina, a que uma camisa de gola alta, cor de vinho, dava um toque discreto de esteticismo.
Mantém sempre um grande aprumo, com gestos decididos e movendo-se com extrema agilidade. Passa de uma imobilidade atenta de grande felino para, de súbito, procurando um livro ou um classificador de insectos, galgar, com uma vivacidade de adolescente, os muitos degraus a que a mansão do século XVIII dá a inclinação de escadas de bordo.
Por vezes da a ideia de estar, ao mesmo tempo, interessado e distraído, simultaneamente presente e ausente, como se os sinais e símbolos da usual conversa, em parte literária e filosófica, histórica ou factual, fossem também cifras de uma realidade de outra ordem.
O rosto, triangular, de feições regulares, e com as zonas do pensamento e da acção ligeiramente dominantes sobre a da vontade, sugere, de princípio, um certo ar volteriano, que se desfaz à medida que nos vamos habituando à enorme intensidade luminosa do olhar, à decisão da expressão e à doçura, por vezes quase inocente, do sorriso. A pele curtida apresenta um marcado contraste com o branco puro do cabelo, penteado à romana.
O conjunto deixa uma impressão de energia vital, ora contida, ora por instantes desfechada em sacões. A austeridade marmórea do antigo oficial germânico, sempre presente, é temperada pelo sorriso e pelo olhar. Também a voz se integra nesta imagem coerente de todo, indo do emaciado tactear em terreno desconhecido até à expressão claramente ordenada e bem articulada ao gosto prussiano.
Nascido em 29 de Março de 1895, nos terraços suspensos da romântica, bucólica e universitária Heidelberg, de pai saxão e mão francónia, no meio abastado e culto da classe média de antes de 1914, cedo aprendeu, naquele ambiente literal e humanista, o gosto do rigor científico, a curiosidade intelectual e o sentido do dever e da disciplina.
O sentimento da família, o seu significado de elo de ligação entre gerações, a ternura pelo pai, o carinho por sua primeira mulher, Perpétua, expressivamente, na cifra do “Diário”, o amor do filho Ernst, voluntário caído aos dezoito anos em Carrara, constituem bases de sensibilidade e de permanente fidelidade do seu sentido de superior harmonia da vida e do Universo.
Seria precisamente ao estrato social em que nasceu, que os hierarcas do II Reich foram buscar os elementos que dariam seiva nova, completando os homens da velha aristocracia fredericiana, síntese que preteriu a Inglaterra em relação à jovem Alemanha, que chamaria a si os resultados dominantes da segunda revolução industrial, com todas as inerentes consequências.
Ernst Jünger cedo passaria pelo “Movimento da Mocidade”, abandonando a dada altura a segurança da família e da escola, perseguindo o sonho romântico e a ilusão exótica do velho continente africano, um panorama à medida das suas ambições de juventude.
Depois de uma breve fuga para a Legião Estrangeira – que descreve nos “Jogos Africanos” e na “Autobiografia” – onde se alistou, declarando mais dois anos para perfazer os dezoito da idade mínima regulamentar, após o prestígio do quépi branco e a sedução de envergar a camisa com as pregas iniciáticas, Jünger, em resultado das diligências de seu pai junto da Embaixada de França, regressou à Alemanha, onde reencontraria o estudo e as aventuras de uma adolescência selvagem.
(Continua na próxima Segunda-Feira.)
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