sexta-feira, 31 de dezembro de 2004

O ano que passou

Blog

Foi este o ano em que iniciei o meu blog pessoal. Devo à Blogosfera os meus parabéns por ser um espaço de pensamento e debate livre, acima da ditadura cultural e mediática. Aos meus companheiros bloggers, aos meus leitores assíduos e a todos os que visitam esta casa, um sentido obrigado.

Futebol

O país parou com o Euro 2004 e andou alegre por uns tempos, mesmo apesar de termos perdido a oportunidade de nos sagrarmos campeões. Na altura, vi nas notícias que quando havia jogos a violência em Israel parava. Lembremo-nos que o futebol foi o único desporto que os taliban não conseguiram proibir. Goste-se ou não, não podemos subestimar o poder deste fenómeno.

Baixa

Baixa é a política em Portugal, a mostrar que é possível ser pior que os piores, a fazer lembrar a bandalheira da I República. E lá vamos continuando no atoleiro, sem lugar para mudanças, que o rabo pesa quando é para se levantar da cadeira do poder.

Lá fora, a ilegalização do Vlaams Blok, a perseguição aos dirigentes do BNP, entre outros episódios, demonstram bem o medo dos totalitaristas daqueles que ousam pensar, ousam mudar.

Choque

O “Choque das Civilizações” está aí, quer queiram quer não. Como aqui já escrevi, não escolhemos os nossos inimigos. O Islão declarou guerra à Europa e só os mundialistas de vistas curtas não vêem (ou não querem ver) que a espiral de violência não se vai atenuar. 11 de Março, Beslan, Theo Van Gogh, foram picos daquela que é uma guerra declarada e consciente.

Europa

A Europa está na encruzilhada. Ou prepara a nova Reconquista, ou assina o seu bilhete de suicídio. Debaixo de fogo (invasão, colonização, terrorismo, Turquia, mundialismo, descaracterização, EUA, capitalismo selvagem, dependência energética, etc.), tem que reencontrar-se, unir-se e elevar-se, qual Fénix renascida, tornando-se uma super-potência, preparando as batalhas do futuro.

Adeus

O Rodrigo deixou-nos. Senti um frio na espinha quando recebi a notícia naquele fim-de-semana. Ia reencontrá-lo ao fim de uns anos num jantar de amigos na Quarta-Feira seguinte; ficou adiada a conversa. Por enquanto, vou matando saudades nos livros, nos blogs e, como no momento em que escrevo estas linhas, a ouvi-lo na voz do Campos e Sousa.

Rodrigo Emílio foi um dos maiores poetas pátrios e o mais injustiçado. Espero que a sua partida abra caminho a que se faça justiça à sua obra e ao reconhecimento do seu talento, pois o seu génio é imortal.

Adeus Rodrigo, de “braço ao alto, sonho ao léu…

quarta-feira, 29 de dezembro de 2004

Aniversários


Hoje estão de parabéns o Metropolitano de Lisboa e o «Diário de Notícias», que fazem, respectivamente, 45 e 140 anos. Do primeiro fui um grande utilizador, hoje só ocasionalmente. Ainda me lembro das carruagens vermelhas e brancas e da linha que, para mim, começava em Alvalade e bifurcava na Rotunda para terminar em Entre Campos ou em Sete Rios. Hoje a rede do Metro cresceu, algumas estações mudaram de nome, outras foram embelezadas e o mais importante é que retomou um ritmo de crescimento, à semelhança dos primeiros anos de existência. Lembremo-nos que no período de 1972 a 1988, por entre “revoluções” e “nacionalizações”, o Metro morreu temporariamente. Esperemos que não se repita.


Quanto ao «DN», é um jornal que se tornou uma referência nacional. Tem vivido momentos piores e melhores. Este ano não se pode considerar dos melhores, com mudanças de direcção e alterações no jornal. O pior, na minha opinião, foi a saída de Vasco Pulido Valente, que rapidamente passou para a concorrência, e a entrada de Vicente Jorge Silva. Enfim... O «DN» foi um jornal inovador quando nasceu e espero que continue a sê-lo com quase século e meio de existência.

terça-feira, 28 de dezembro de 2004

Ucrânia

À terceira é de vez… Tudo aponta para que se concretize a esperada vitória de Iuchtchenko, o candidato pró-ocidental (leia-se pró-americano), nas eleições presidenciais ucranianas. O mundo observa com atenção o desenrolar de acontecimentos neste país que é a ponte natural entre a Europa e a Rússia.

A Ucrânia é um país dividido; étnica, linguística, cultural e historicamente. De um lado, um país rural, mais próximo do Ocidente, isto é, ansiando o capitalismo coca-cola, mas com raízes mais próximas da Europa, do outro, um herdeiro do pesado passado industrial soviético, russófono e que olha com histórica desconfiança os ventos de mudança americanos. A Europa perde aqui a oportunidade de marcar posição como futura super-potência e de construir a sua ligação à Rússia.

Os EUA sabem que é na antiga cortina de ferro que se jogam importantes pedras da actual geopolítica. Como sempre, actuam impunemente perante uma Europa encolhida e servil. É a Guerra Fria revisitada, um conflito entre os Estados Unidos e a Rússia, com a Europa de cócoras.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

Turquia (VII)

Na Grécia, país berço da nossa civilização e profundo conhecedor dos seus vizinhos, 62% dizem não à adesão da Turquia à UE. Os europeus vão-se insurgindo, por toda a Europa, contra este golpe mortal contra o seu Continente. É tempo de dizer com determinação: Não à Turquia na Europa!

terça-feira, 21 de dezembro de 2004

Solstício de Inverno

A mãe entrançou a coroa do Advento,
Entrançou-a com ramos bem verdes,
Que tirou do grande abeto sempre verde.
Uma vela arde na coroa. Todos meditam.
Certamente, tudo irá bem, porque assim o desejamos,
Como os pais o desejaram e como desejarão os de amanhã.
Sabem que, apesar de tudo, a vida é assim.
É o dia mais curto do ano.
O de amanhã será maior, o Sol regressará.
É a grande festa do Inverno, dia de alegria,
Alegria calma, penetrante, que cada um encontra no fundo de si
Diante da pequena chama que bruxuleia no candelabro.
Cada um refaz o caminho percorrido.
A inquietação nasce no coração do homem se ele esquece
As leis da vida.
Um grande silêncio. Uma força enorme.
Como uma grande espera.
Diante da pequena chama que cintila agora no candelabro de pedra,
Cada um reencontra a confiança na sua força.
Alegria triunfante de quem guarda a esperança.
O Sol triunfará.
O pai acende a fogueira de Natal e, nos seus olhos,
Há também uma grande chama.
O fogo claro sobe na lareira.
A casa está cheia de calor e luz.
Todos meditam.
Todos prometem guardar fé em si mesmos
E na vida.
Em todos se eleva uma força nova.
A vida triunfará.

Jean Favre

segunda-feira, 20 de dezembro de 2004

Turquia (VI)


As mesquitas são as nossas casernas,

Os minaretes as nossas baionetas,
As cúpulas os nossos capacetes
E os crentes os nossos soldados.

Este poema é da autoria de Recep Tayyip Erdogan, o islamita “moderado”, actual primeiro-ministro da Turquia, que conseguiu impor à Europa, enfraquecida por complexos e condicionada pelos ditames do politicamente correcto, a abertura das negociações para adesão do seu país à UE. O poema valeu, em 1994, quatro meses de prisão a Erdogan, na altura presidente da câmara de Istambul.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

Turquia (V)

Quando já se percebeu que vai ser aprovada a abertura de negociações com a Turquia para a adesão à UE, merecem destaque as declarações de Muammar Kadhafi, presidente da Líbia, que considerou que “a Turquia será o cavalo de Tróia do mundo islâmico na União Europeia” e que “o mundo islâmico, nomeadamente os extremistas islâmicos, incluindo Bin Laden, vão congratular-se com a adesão da Turquia”. A Turquia não é europeia. Os efeitos da sua entrada na UE são bem conhecidos por americanos, islâmicos e pelos europeus preocupados com o futuro do seu continente. Só os eurocratas parecem querer ignorá-los. Como diz a sabedoria popular, mais cego é o que não quer ver…

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Argélia na OTAN

Segundo notícia do World Tribune, a OTAN considerou a Argélia como “o seu parceiro modelo no Médio Oriente”. Parece a sequela do filme “A Turquia como arma de arremesso americana contra a Europa”... Com a Turquia em vias de se tornar membro da União Europeia, os americanos verificaram que a estratégia funciona e decidiram aplicá-la a outros países islâmicos, começando pela Argélia e a que se seguirão provavelmente países como Marrocos, Tunísia ou Egipto. É simples, pelo seu “interesse estratégico”, estes países tornam-se membros da OTAN com o apoio dos americanos, depois, quando estiverem “suficientemente ocidentalizados”, no que respeita ao governo fantoche e a uma élite minoritária e privilegiada, nunca à população cada vez mais fundamentalista, contam com a pressão dos EUA aderirem à UE. É mais um episódio do choque das civilizações, com o governo americano a querer impedir a todo o custo a criação a longo prazo de uma super-potência europeia. Perante esta estratégia, os islamitas agradecem e aproveitam a oportunidade para continuarem a levar a cabo, impunemente, a islamização e colonização da Europa.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

Discriminação positiva (II)

Fiquei a saber, através do Diário de Notícias, que algumas universidades brasileiras decidiram avançar com a implementação de uma política de discriminação positiva, criando quotas para negros. A polémica está instalada, já que uma decisão judicial considerou a medida anti-constitucional. O juiz federal, Mauro Spalding, considerou que “atacar a causa pelo efeito há muito que se demonstrou ineficaz. Assim como a violência não se resolve com violência, as segregações racial e social não se resolvem com medidas discriminatórias como aquelas previstas na norma administrativa que concede quotas”.

Como já escrevi neste post, citando Guillaume Faye, um dos maiores pensadores contemporâneos, considero a discriminação positiva racista e discriminatória. Ora vejam, parte do princípio que os negros são inferiores e devem ter alguma dificuldade natural, necessitando de tratamento preferencial, permitindo-lhes assim contornar o processo natural de selecção escolar com base apenas na cor da sua pele.

Para aqueles que justificam estas políticas porque constituem uma compensação histórica, lembro-lhes que, se fossemos aplicar essa ideia à luz da História Mundial, com certeza andaríamos todos a “pagar” uns aos outros para toda a eternidade… Por que deve um branco ceder o seu lugar a um negro no acesso ao ensino superior? Porque o seu bisavô foi esclavagista? E que fosse! Que tem ele que ver com isso? No campo da escravatura, aliás, deve-se aos europeus e aos ocidentais em geral o seu fim. Mesmo assim devem ser penalizados?

É curioso como os supostos anti-racistas negam a existência de raças, mas concordam com políticas de discriminação positiva baseadas na – espantem-se – raça! Para além disso, salta à vista que estas medidas não vão contribuir para a “integração”, mas pelo contrário vão acentuar, por vezes criar, conflitos sociais e raciais. Este caso é no Brasil, pensem como se sentirão todos os cidadãos brasileiros, seja qual for a sua origem, que não sejam negros, ao saberem que o seu filho terá menos hipótese de ingressar no ensino superior por causa da sua raça e não por causa do seu aproveitamento?

domingo, 12 de dezembro de 2004

Circo de três pistas

1. Presidente da República – Já se sabia o que ia anunciar, só faltavam as justificações. Demorou tanto tempo, que se esperava material original. A montanha pariu um rato… Confirmou-se que Sampaio esperou por Sócrates para tomar a única medida memorável durante todos os anos que esteve em Belém. Não deixará saudades.

2. Governo – Santana voltou ao seu terreno, o do espectáculo. Deve estar aliviado, aquela coisa da governação era chata como tudo. Ler dossiers? Livra! Demitiu-se depois de demitido, atacou Sampaio depois de ter cessado hostilidades. It's show business... Portas também sabe jogar a este jogo. Afinal, os ministros do CDS portaram-se bem, o problema eram os outros. Mas, não se preocupem, é fiel à coligação. A campanha está aí e em força.

3. Sistema – Está visto e revisto que é uma paródia. Provou que não funciona e que nem os seus maquinistas o entendem. Não deixa de ser irónico que, apesar de nos fartarmos de ouvir apelos à sociedade para intervir politicamente e para se envolver no processo decisório, assistimos ao complicar de um sistema já de si complicado e com o qual os cidadãos não se identificam nem se querem identificar. Apesar de apelar à participação, o sistema afasta as pessoas. Evita os referendos, dificulta a constituição de novos partidos, deseja a extinção dos partidos sem representação parlamentar, etc. O sistema veda o seu charco para evitar pedradas.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Coligações

Estava a ler o post «Ena tantos!» do Pedro Guedes e decidi deitar mais umas achas para a fogueira. Parece que, para enfrentar a provável união de forças entre o neo-guterrismo dialogante e os bloqueados de extrema-esquerda, a expectável coligação entre PSD e CDS conta com diversos pretendentes, a saber, PPM, MPT e PND. A concretizar-se esta verdadeira equipa de futebol de salão político, proponho desde já uma designação: Trem de Cozinha Eleitoral, onde todos têm um tacho.

Turquia (IV)

Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro islamita turco, está em Bruxelas para uma série de reuniões antes da cimeira que deverá lançar a adesão da Turquia à União Europeia. Não foi disposto a negociar, mas decidido a impor a sua vontade. Erdogan partiu logo na ofensiva, enumerando condições não-negociáveis, entre as quais a recusa do reconhecimento da República de Chipre, já membro da UE.

É absolutamente inacreditável a superioridade com que o governo turco se dirige à Europa, muito devida à protecção do amigo americano e à cobardia dos governantes europeus. É o caso de Jan Peter Balkenende, primeiro-ministro da Holanda, país que detém actualmente a presidência da UE, que apresentou já uma terceira versão da declaração final da cimeira com alterações favoráveis às exigências da Turquia. Os otomanos ordenam e os europeus baixam as calças... São os eurocratas de joelhos recebendo de braços abertos o cavalo de Tróia do Islão, numa atitude etnomasoquista e eurossuicidária.

Turquia na Europa? Não, obrigado.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

terça-feira, 7 de dezembro de 2004

Independência

O Francisco Nunes, do muito recomendável Planície Heróica, escreveu um comentário no post do Advento, mas que se refere ao post anterior. Entusiasta que sou da participação dos que me lêem, agradeço-lhe o comentário sobre o qual passo a reflectir.

Diz o Francisco: “Vou ser politicamente incorrecto: Não sei se merecemos ser independentes”, obrigado pela postura, o politicamente correcto é algo que se abomina nesta casa, em relação à sua dúvida, choque quem chocar, também a tenho.

Continua: “O meu pai e o meu tio fizeram a guerra em África. Acreditavam que defendiam Portugal. Talvez...” Os meus avôs e o meu tio também, acho que acreditavam no mesmo, pelo menos na defesa de um Portugal que já não existe. O Estado Novo, nos seus anos do fim, convenceu os portugueses que o nosso caso era diferente do dos outros países europeus, apesar de todas as independências africanas e da anterior perda da Índia portuguesa. Queria tapar o Sol da Europa com a peneira de África… Não me entendam mal (eu tenho que fazer sempre esta ressalva), tenho o maior orgulho em todos os que combateram no Ultramar português, e tenho a certeza que, se na altura não passasse de um bebé de colo, estaria a seu lado. No entanto, esse período terminou. Foi uma fase da História Pátria e não um destino nacional. Hoje, Portugal reencontrou a sua mãe Europa e deve juntar-se a todos os seus irmãos na sua defesa perante a invasão do Islão e a colonização levada a cabo pelos seus ex-colonizados.

Diz ele: “O que é certo é que após o 25 de Abril chegaram ao poder todos os 'corajosamente fugidos' e, destruída a nossa estrutura económica e social, mas politicamente independentes, alguns portugueses falam em risco de se perder a independência, mais do que em moralizar esta 'macacada'...”, sou obrigado a concordar. Os nossos bravos morreram em África, foram presos a seguir à abrilada, ou voltaram tão desmoralizados que pensaram tudo estar perdido. Os corajosamente fugidos, como tão bem os apelida, (des)governam desde então o nosso rectângulo e os resultados estão à vista… Em relação à moralização das instituições, dos governantes, da sociedade em geral, acho-a essencial para sermos realmente independentes. Por outro lado, considero que a verdadeira independência vai muito para além do “politicamente”. Todos os dias vamos destruindo a nossa Língua, os nossos valores, costumes e tradições, vamos esquecendo a nossa História, a ligação à nossa terra e as nossas origens. Estamos a esquecer-nos que somos um Povo e a transformarmo-nos numa massa indiferenciada e descaracterizada, como muito bem ordenam os ditames da globalização. Estes são os pilares da verdadeira independência, que hoje em dia se vão corroendo. Até quando?

Dá que pensar...”, dá sim senhor, mas é para isso que cá estamos, por essa blogosfera fora. “Não será melhor justificar primeiro que merecemos ser independentes? Que isso será de facto o melhor para os nossos filhos?” Não acho que seja melhor, acho que essa justificação é essencial e devemos fazê-la através da conservação dos pilares da verdadeira independência. Só assim os nossos filhos podem herdar Portugal.

Em post scriptum, o Francisco termina: “Não se interprete mal o que escrevi, não estou a pensar apenas com o estômago, estou a pensar em Dignidade, valor muito em desuso por estes dias...”, acho que não o interpretei mal, aliás fez-me reflectir nesta questão, que penso ser a sua intenção. Dignidade, ainda há quem a tenha, mas infelizmente não está só em desuso, há mesmo quem parece querer fazer desaparecer este valor fundamental.

Um abraço, Francisco Nunes e, mais uma vez, obrigado pela sua participação.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

O Advento

Åsgårdsreien, Peter Nicolai Arbo (1872)

A palavra “avent”, registada desde o século XII, representa um empréstimo do latim adventus, “chegada”, empregue na linguagem eclesiástica para designar a Natividade de Cristo. A forma “advent”, conservando o “d” de origem, manteve-se até ao século XVI. O plural avens, designando as quatro semanas (ou os quatro domingos) do Advento, era de uso corrente na Idade Média; sobreviveu em alguns falares locais. A Igreja teria querido fazer das semanas que precedem o Natal um período de jejum e situa antes da Páscoa. Em 604, o papa Gregório, o Grande, pregou nesse sentido uma série de homilias sobre o Advento. Mas essa iniciativa não obteve qualquer êxito. Tradicionalmente, o período do fim de ano, se era incontestavelmente marcado por um certo recolhimento, é também um período de alegria e regozijo. Pouco a pouco, o jejum do advento foi encurtado a alguns dias. O seu carácter obrigatório perdeu a força graças às indulgências pontificais, sendo revogado pelo novo código de Direito Canónico, em 1918.

Segundo os locais, a duração do Advento varia. Em geral, considera-se que o período de antes do Natal cobre as quatro semanas precedendo o 25 de Dezembro. Na Alemanha, onde tem também o nome de Vorweihnachtzeit, começa em 11 de Novembro, dia de S. Martinho, da Vestefália até ao Tirol. No folclore europeu, o Advento corresponde ao fim do Outono, marcado, no princípio de Novembro pela festa tradicional dos mortos. É a época em que, ainda não há muito tempo, nos campos alemães (mas também na Holanda, em Inglaterra, na Normandia, no Norte e no Leste da França), afirmava-se de boa vontade que o velho deus Odan-Votan, montado no seu cavalo de oito patas Sleipnir, passava nos ares ao fim do dia levando atrás de si o barulhento grupo da “Caça selvagem”.

Este tema da “Caça selvagem”, chamada por vezes “Chasse Artus”, “Chasse Gallery” ou ainda “Mesnie Hellequin”, representa uma das sobrevivências pagãs que mais tempo permaneceram vivazes no mundo rural. Afastados do panteão germânico, Odan-Votan e o seu cortejo de guerreiros mortos em combate, os Einherjar, foram transformados na crença popular em um demónio ou um “caçador maldito”, cavalgando nos ares, com grande cópia de cocalhos e algazarra, seguido de uma procissão de “almas danadas” ou de “crianças mortas sem baptismo”.

Alain de Benoist
in “Festejar o Natal” (Hugin, 1997).

1.º de Dezembro

Independência: algo que hoje quase ninguém parece interessado em restaurar.

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Vira o disco...

Sampaio decidiu finalmente dissolver a Assembleia da República. Tem piada como agora toda a gente estava à espera desta decisão, mas há uns dias atrás, quando o país estava convicto da permanência do governo, foi a revista britânica Economist que alertou para a concretização desta possibilidade. O Presidente da República pode agora dormir descansado, já que, depois de tantos anos em Belém, conseguiu finalmente fazer uma coisa que será lembrada. Por outro lado, cai de novo nas graças da esquerda, ao abrir caminho a um governo PS, provavelmente com maioria absoluta. Faz, assim, com que o cargo de primeiro-ministro caia no colo de Sócrates exactamente da mesma forma que caiu a Durão Barroso, não por mérito próprio, mas por incompetência alheia.

domingo, 28 de novembro de 2004

Regresso ao passado em Almada

No Congresso do PCP, Jerónimo de Sousa foi “eleito” novo secretário-geral, como já se sabia de antemão, numa tentativa de devolver o partido aos “operários”. Os analistas apelidam-no de coveiro do partido e dizem que levará ao fim o PCP, ao afastar os “renovadores” e representar a “linha dura” marxista-leninista. A verdade é que este barco já se estava a afundar e não sei até que ponto a “linha mole” o salvaria. Uma coisa é certa, os comunistas decidiram afundar-se com o partido e escolheram, sem dúvida, o comandante certo, do tipo que fura os coletes salva-vidas…

sábado, 27 de novembro de 2004

A vocação da Europa

O espírito europeu é talvez a primeira manifestação histórica da fé e vontade de um futuro.
A humanidade europeia mal poderá dar o salto ousado que os mais confiantes esperam dela, se antes disso se não despir até ao seu ser nu, e se não regressar a sua verdadeira natureza. O entusiasmo que sinto por esta cura de nudez e verdade, a consciência de que ela é inevitável se quisermos abrir o caminho a um futuro digno, impele-me a exigir, perante todo o passado, a liberdade de pensamento. O futuro deve dominar sobre o passado, indicando-nos a nossa posição em face do que se passou. No entanto, devemos acautelar-nos contra o pecado mortal daqueles que dominaram o século XIX: da sua falta de consciência de responsabilidade. Eles esqueceram de se manter vigilantes no seu posto. Aquele que se deixa impelir pela corrente de um decorrer favorável dos acontecimentos, insensível perante os perigos e ameaças que espreitam ainda nas horas mais amenas, essa falha perante a responsabilidade com que foi incumbido. Hoje torna-se necessário despertar uma super-sensibilidade naqueles que podem senti-la.
Para a Europa não há nenhuma esperança, se o seu destino não for posto nas mãos de homens verdadeiramente à altura da época, que sintam o pulsar de todo o passado histórico, que reconheçam o actual nível da vida e detestem qualquer atitude arcaica e primitiva. Nós necessitamos de História em toda a sua vastidão, se lhe quisermos fugir e não recair nela.
Cada geração tem o seu próprio destino, a sua missão histórica. Nós pertencemos à nossa época só na medida em que somos capazes de aceitar as suas alternativas e combater numa das trincheiras abertas por ela, porquanto viver é, num sentido essencial, o alistamento sob as bandeiras e a decisão pela luta. Vivere militare est diz Séneca com o nobre gesto de um legionário.
Existem povos massa que se levantam resolutamente contra os povos grandes e criadores, contra aquela élite da estirpe humana que fez a História.
É ridículo que esta ou aquela pequena república se levante na ponta dos pés e ultraje a Europa do seu recanto do mundo, anunciando a sua retirada da História Mundial.
A retirada da Europa não teria importância, se houvesse alguém capaz de a substituir. Mas não existe ninguém. Nova Iorque e Moscovo não são nada de novo perante a Europa. São zonas à margem do domínio europeu que, desmembrando-se do tronco, perderam o seu significado.
Habituando-se o europeu a que ele não mande, então bastariam uma geração e meia para que o velho continente, e depois dele o mundo, se afunde em inércia moral, esterilidade e barbarismo geral. Só a consciência de dirigir e de se responsabilizar, e a disciplina que daí resulta, podem manter viva a alma do Ocidente. Ciência, Arte, Técnica e todo o resto só podem prosperar na atmosfera estimulante do sentimento de domínio. Se este falta, o europeu decairá cada vez mais. Os espíritos não terão por muito tempo aquela inquebrantável fé em si mesmos que os faz fortes, ousados e persistentes para a criação de grandes, novas ideias. Incapaz de acções de impulso criador, o europeu cairá no passado, no hábito e nos caminhos já percorridos.
Será, porém, tão certo que a Europa se encontre em decadência, renuncie ao domínio e abdique? Não será este aparente ocaso a crise salvadora que permite à Europa de se tornar verdadeiramente a Europa? Não foi a manifesta decadência das nações europeias uma necessidade inevitável, se um dia devesse surgir uma comunidade dos povos europeus que substituísse a multiplicidade da Europa pela sua verdadeira unidade?
Para os europeus irrompe agora a época em que a Europa pode tornar-se uma ideia nacional. E esta crença é muito menos utópica do que teria sido a profecia dalguns espanhóis no século XIX. Quanto mais o Estado nacional do Ocidente se mantiver fiel ao seu verdadeiro ser, tanto mais infalivelmente ele se desenvolverá num poderoso Estado continental.
Mal as nações do Ocidente se espalharam até às suas actuais fronteiras, logo à sua volta e por trás delas se tornou visível como que uma fundação da Europa. A Europa é a paisagem comum em que se movem todos os europeus desde a Renascença, e essa paisagem europeia são os próprios povos.
Enquanto se pelejam sobre uma leiva do solo, em muitos centros de outros estabelecia-se comércio com o inimigo, e trocavam-se ideias, formas de arte e princípios religiosos. O estrondo das batalhas foi, de certo modo, apenas um reposteiro, por detrás do qual com tanta mais tenacidade trabalhava o tear da paz, tecendo uma nas outras a vida das nações inimigas. Em cada geração nova cresce a identidade das almas ou, para nos exprimirmos com mais prudência e exactidão: espanhóis, alemães, italianos e franceses são e permanecem tão diferentes quanto se queira mas eles têm, no entanto, a mesma estrutura psíquica e, principalmente, são constituídos com o mesmo conteúdo, religião, ciência, direito e arte; valores sociais e eróticos são assuntos comuns. Mas estas são porém, as substâncias espirituais, das quais nós vivemos. A homogeneidade é, portanto, ainda mais perfeita do que se as almas fossem fundidas num mesmo molde.
Se fizermos hoje um balanço dos nossos bens espirituais - teorias e normas, desejos e suposições - verificar-se-á que a maior parte disso não deriva da nossa pátria, mas sim do fundo europeu comum. Em todos nós, o europeu sobrepassa de muito o alemão, espanhol, francês...
Se nós, como experiência, imaginássemos que tínhamos de viver meramente daquilo com que nós somos nacionais, se nós acaso experimentássemos despir o alemão médio de todos os costumes, pensamentos e sentimentos que ele tomou dos outros países do continente, ficaríamos surpreendidos como tal existência é impossível; quatro quintos dos nossos haveres são bens comuns europeus.
Só unicamente a decisão dos grupos de povos da Europa, uma comunidade, pode estimular de novo o pulso da Europa. O nosso continente tornará a adquirir a fé em si próprio e, como consequência natural, tornará a exigir novamente de si mesmo algo de grande.
A verdadeira situação da Europa, por consequência, poderia descrever-se da seguinte maneira: o seu longo e glorioso passado conduzia-a a um novo nível de vida em que tudo se engrandeceu; mas as suas circunstâncias estruturais, que se mantém desde o passado, são anãs e dificultam a força de expansão da actualidade.
A Europa surgiu como estrutura de pequenas nações. Pensamentos e sentimentos nacionais foram, em certo sentido, as suas mais características descobertas. Agora, porém, ela vê-se forçada a dominar-se a si própria. Isto é obra do violento drama que se desenrolará nos anos futuros.
Ortega y Gasset
in “Agora” n.º 346, de 2/3/1963.

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Rodrigamente cantando (III)

Não precisei de esperar muito pelo CD, pois o Vítor Luís teve a amabilidade de me trazer um ontem (obrigado!). Já o ouvi na totalidade e acho que o melhor elogio que posso fazer a esta excelente homenagem ao Rodrigo é aconselhar-vos todos a comprá-lo. Entretanto, aproveitem para ler a entrevista de José Campos e Sousa no Portal Nacionalista.

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Ilusionismo político

A imprensa chama-lhe “remodelação”, o governo considera-o um “ajuste de funções”, mas toda a gente reconhece o tradicional jogo das cadeiras. É um velho truque do ilusionismo político que podia também chamar-se “como parecer que se faz alguma coisa não fazendo absolutamente nada”. Para além desta areia para os olhos, o governo jogou ainda mais uma carta de outro jogo, o dos nomes. Pensava o cidadão que não havia mais nomes para mudar ou ministérios para criar, mas enganou-se. Em desespero, pode-se sempre reabilitar, qual toxicodependente, um ministério extinto por este mesmo governo.

A questão dos nomes de ministérios e da facilidade de criação e extinção dos mesmos é um dos casos mais incríveis da governação no nosso país. É claro que é a melhor medida a tomar por quem inicia funções e não sabe o que fazer. Quando saírem as novas orgânicas e os serviços estiverem reestruturados, já mudou o ministro, o governo, ou em último caso já foram extintos. É um ciclo vicioso, um verdadeiro carrossel administrativo, que dá voltas e voltas e não chega a parte alguma.

A criação de novos ministérios ou a alteração das suas designações deviam ser medidas excepcionais e devidamente fundamentadas. Veja-se, por exemplo, o caso do actual governo, não por uma embirração especial, mas apenas por ser o actualmente em funções. Liderando um governo de suposta continuidade, Santana Lopes logo se apressou a mudar nomes e criar ministérios. Que bela lição de continuidade! Que bela lição de contenção das despesas públicas! O actual primeiro-ministro gastou rapidamente muitas das cartas do baralho do ilusionismo político, mas a oposição pouco se importou e nada disse, já que, assim que tiver oportunidade, quer usar os mesmos truques.

Santana Lopes era um político no futebol e é um dirigente desportivo na política. Mestre das artes do espectáculo, é - ele próprio - a central de comunicação que Sampaio não deixou passar.

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Eurocracias

O novo caso da “Comissão Barroso” vem mostrar, mais uma vez, a cara do totalitarismo democrático. O crime de Buttiglione foi a sua opinião e foi prontamente corrido. O comissário francês Barrot foi condenado por financiamento ilegal do seu partido e continua a ter todo o apoio de Durão Barroso. Para reflectir...

Rodrigamente cantando (II)

Enquanto espero pelo CD, aconselho a todos a leitura da opinião de Walter Ventura sobre este trabalho de José Campos e Sousa, publicada hoje no semanário “O Diabo” e disponível no Último Reduto , no Nova Frente e no Sexo dos Anjos. Por aqui, deixo-vos um dos poemas do Rodrigo musicados neste “Rodrigamente cantando”:

Vou-me embora p’ra Brasília

Abraço a brisa d’Abril.
Na brandura abrasadora,
Vou-me embora pró Brasil,
Vou-me embora. Vou-me embora.
Você me cede um corcel
(De certo cede, Corção.
o nosso Manuel
Não me diria que não.
Mas você sabe que ele
É silêncio em digressão…)
Na verdejante vigília
Ponho o meu sonho em desfile.
Vou-me embora p’ra Brasília.
Que é o brasão do Brasil!
Sem deixar quaisquer indícios,
Sem deixar qualquer quesília,
Vou-me avistar com o Vinicius,
Vou-me embora p’ra Brasília.
Vou e vou e vou e vou,
P’ra perto de seu Gilberto,
E dessa incessante Cecília
E dalguma Nêga Fulo.
Vou-me embora p’ra Pasárgada.
Lá, estou bem mais em família!
Vou-me embora. Decido:
Vou-me embora p’ra Brasília.

Rodrigo Emílio

sábado, 20 de novembro de 2004

Invocação


Foi no mês de Novembro de 34 que eu conheci, em Madrid, José Antonio Primo de Rivera.
Rara e extranha figura de revolucionário que sabia aliar, com elegância extrema, a irreverente audácia do “frondeur” à natural e requintada gentileza do Grande de España.

Nervoso, espiritual, culto, José Antonio seduzia logo ao primeiro encontro, pelo seu encanto com que emanavam, da sua personalidade, confiança e fé, através de altos conceitos intelectuais da mais pura linhagem europeia e revolucionária.

Estou ainda a ver com que avidez ele escutava e absorvia qualquer ideia que lhe despertasse sentimentos inéditos numa visão mais audaciosa da vida e da esperança humana. Então os olhos, os seus largos olhos profundos, alargavam-se ainda mais, como janelas que se abrissem de par em par, a-fim-de que entrassem por elas, sem entraves, livre e benéfica, a clara luz do sol.
Conversámos muito. Trabalhámos bastante, em poucas horas. Talvez que de tantos amigos que lhe recolheram, dia a dia, o pensamento generoso, poucos tenham, como eu, bem sentido a verdadeira projecção dessa bela alma.

Toda a sua batalha política levava-a de vencida como um apostolado. Amava as Ideias, no verdadeiro sentido da palavra amar, isto é, devotava-se-lhes totalmente.
Por isso, o seu pensamento surge-nos sempre como penetrado duma mística poderosa, iluminada pelos reflexos interiores da sua sensibilidade admirável.
Era um crente, antes de ser um soldado.

Pobre José Antonio! Como não considerar, num constrangimento de angústia, a ingratidão, a injustiça do Destino para com este homem singular, o rude e incansável semeador que não chegou a contemplar a seara doirada, a alta e ondulante seara doirada, que, com tanto amor, com tanta fé, sonhara e entrevira…

Um Estado Nacional-Sindicalista, Uma Revolução que toma os Vinte e Sete Mandamentos por bandeira, ó José Antonio! Eis o teu sonho a quem tu, generosamente, concedeste tudo, tudo até a própria vida.

Jamais, jamais se me apagará na memória a figura esbelta, viril, triunfante, de José Antonio Primo de Rivera.

Ei-lo, aprumado, desenvolto, enquadrado na porta de sua casa na Calle Serrano, despedindo-se de mim, braço ao alto, tranquilo e forte – romanamente!

Até sempre, disse… Neste mundo, era até nunca mais!

Rolão Preto
in “Revolução Espanhola”

José Antonio e a Europa

«José Antonio fue un europeo de España. Conforme transcurre el tiempo y se contempla con mayor objetividad, no exenta de emociones, aquella figura extraordinaria, se vislumbran y llegan a pasar a un plano preferente aspectos no resaltados en principio de su pensamiento; y uno es, sin duda, el que hace referencia a Europa. Su sensibilidad exquisita, su formación clásica y sus dotes de observador, le impulsan en el marco temporal en que vive, a darnos su visión de Europa.

Para José Antonio, España no es una nación aparte, encerrada en su torre de marfil, ajena al pálpito de un continente y de un contenido, del cual aspira a desentenderse. Una concepción cerrada e celtibérica de España es absolutamente ajena al modo de ver y reflexionar de José Antonio. (…)
»

Blas Piñar

20-N


A 20 de Novembro de 1936, José Antonio Primo de Rivera era assassinado pelos rojos na prisão de Alicante. Morria jovem – como morrem os heróis – o sonhador da Revolução.
Estas foram as suas palavras para os seus fuziladores:

«Quereis verdadeiramente que eu morra? Quem vos disse que eu sou vosso inimigo? Quem vos disse não tem nenhuma razão para afirmá-lo. O meu sonho era a Pátria, o Pão e a Justiça para todos os espanhóis e sobretudo para todos os que se sacrificam. Quando se está próximo da morte não se pode mentir. Repito-vos antes de morrer: nunca fui vosso inimigo. Porque quereis que eu morra?»

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

O efeito da ilegalização


Vlaams Belang

Depois da ilegalização do Vlaams Blok decretada pelo Supremo Tribunal Belga, que o considerou uma organização “racista”, mil delegados do partido reuniram-se em Antuérpia para criar o Vlaams Belang (Interesse Flamengo). Renasce assim aquele que era o maior partido belga e ocupava um terço dos lugares no Parlamento Flamengo. Continua o combate identitário contra o totalitarismo democrático.


terça-feira, 16 de novembro de 2004

Mário Saa (III)


Reverto-me em mudas falas
e morro à custa de tê-las;
endoideço com pensá-las
mas não sei viver sem elas.

Pegam-se tanto, às carradas!...
mas o melhor é deixá-las;
que o dá-las por acabadas
não é senão prolongá-las.

Antes o tempo as consuma
que a gente querê-las superar:
sopra-se o laivo da espuma
por baixo encontra-se o mar.

Por baixo encontra-se o mar
a muitas braças do fundo;
pois mar, e homens, e ar,
são inda a espuma do mundo.

Quem pode nunca apagá-las,
quem pode nunca perdê-las!...
Os ecos seguem-se às falas,
os dias seguem-se às estrelas!

Mário Saa
in Tempo Presente n.º 1 (1959)

Só acontece aos outros

A notícia recentemente vinda a público sobre um atentado preparado por um grupo de 18 muçulmanos que se encontravam no Porto e que tinha como alvo Durão Barroso e inúmeras figuras internacionais que participavam num jantar no Palácio do Freixo, em vésperas da abertura do Euro 2004, vem deitar por terra as certezas apaziguadoras de alguns que gostam de classificar Portugal como um cantinho de paz onde nunca acontece nada. Os que acham que o terrorismo “só acontece aos outros”…

Parece que, mesmo depois da tragédia de Madrid, muitos continuavam a negar o choque de civilizações em curso, resultado da guerra empreendida pelo Islão contra a Europa. Agora temos a prova que também somos um alvo. Não somos um oásis esquecido pelos terroristas. Quero ver com que descaramento é que certos políticos vão continuar a defender o absurdo fim das forças armadas e dos serviços de informações.

segunda-feira, 15 de novembro de 2004

Modernidade da Arquitectura Tradicional

Para todos os que se interessam por arquitectura e urbanismo, aconselho vivamente a leitura do excelente artigo «Léon Krier e a Modernidade da Arquitectura Tradicional» da autoria de Francisco Cabral de Moncada. Podemos ler uma breve descrição do arquitecto luxemburguês, conhecido como renovador de uma arquitectura e urbanismo tradicionais, e uma recensão crítica do livro de Krier «Arquitectura: Escolha ou Fatalidade?». Aqui fica um excerto:

“O aspecto caótico de muitas paisagens e cidades; a tristeza, o tédio ou a insegurança dos antigos centros desertificados ou das periferias irreconhecíveis, deprimentes ou selváticas; a indigência ou arbitrariedade arquitectónicas e a má qualidade da maioria das novas construções desde há mais de cinquenta anos; a dificuldade constante das deslocações entre casa, trabalho e lazer, com desperdício sistemático de tempo, energia e saúde - eis alguns dos mais penosos e persistentes efeitos da nossa civilização industrial na sua feição actual.
Apesar do aparente conformismo geral, muitos e cada vez mais se inquietam e justamente indignam, não só por não vislumbrarem sinais decisivos de correcção, mas também por não acharem acesso a informação esclarecedora das verdadeiras causas destas desordens.”

domingo, 14 de novembro de 2004

A frase


Na Holanda mataram a liberdade de expressão com balas. Na Bélgica mataram-na nos tribunais.

Filip Dewinter
Dirigente do Vlaams Blok

TV Cabo

A TV Cabo decidiu fazer um novo alinhamento (desaparecimento) de canais de televisão. O primeiro propósito deste post é protestar contra o facto de me terem sido retirados dois canais que costumava ver, o ARTE, onde via diversos documentários e filmes, e o CNBC Europe, onde raramente perdia The McLaughlin Group.

Entretanto, vi na nova RTP Memória a reposição de “O Tal Canal”, que me recordou que, em tempos, Herman José foi um humorista com muito talento.

sábado, 13 de novembro de 2004

Imperdível

Foi uma óptima surpresa ler hoje o excelente artigo «Proibições» do Eurico de Barros, na última página do Diário de Notícias. Só para deixar água na boca, aqui fica um excerto: “Cada vez tenho mais saudades do tempo da Guerra Fria, em que havia um inimigo perigoso e bem definido e as democracias ocidentais precisavam de afirmar constantemente que tinham mais e melhor liberdade do que os regimes concentracionários de Leste.

Já que estão com a mão na massa, dêem uma vista de olhos no artigo «Liberdade vigiada» de Diogo Pires Aurélio, no mesmo jornal. Vejam como vale a pena: “Hoje em dia, quem pensar que a imigração é um problema só para xenófobos, ignorando que ela apresenta riscos com os quais a Europa não tem sabido lidar, engana-se e engana-se perigosamente.

Para terminar as leituras de hoje, passem pelo Público e leiam o editorial de José Manuel Fernandes, que termina assim: “depois do assassinato de Theo van Gogh, alguém duvida sobre de onde brota o pecado original da intolerância?

Totalitarismo democrático (II)

A novela da nova composição do órgão máximo do regime de pensamento único, vulgo Comissão Europeia, que ainda aqui não havia comentado, foi outra demonstração prática do totalitarismo democrático reinante. Imaginem que um dos comissários propostos, de seu nome Rocco Buttiglione, se lembrou de assumir as suas convicções publicamente. Convencido que em democracia podia dizer o que pensa sem que fosse por isso prejudicado, declarou que considerava a homossexualidade um pecado e que o casamento existe para permitir às mulheres terem filhos e a um homem protegê-los. Esqueceu-se que o regime de pensamento único não tolera posições contrárias à cartilha do politicamente correcto e, depois de uns dias de grande agitação, acabou por ser corrido.

Pois vejamos, Buttiglione diz que a homossexualidade é um pecado. É natural, é católico e concorda com a sua religião. Aliás, o Cristianismo, religião maioritária na Europa, considera a homossexualidade um pecado, tal como Judaísmo ou o Islamismo, por exemplo. Concorde-se ou não com ele, esta é a sua opinião. Por outro lado, o comissário-que-nunca-o-chegou-a-ser, defende uma concepção tradicionalista da família. E depois? Esta é outra posição pessoal, à qual ele aparentemente não tem direito.

Apesar de Buttiglione dizer que tais posições pessoais não influenciariam o seu desempenho na Comissão, não foi poupado. Perante o totalitarismo democrático ele havia pecado e a sua pena teria forçosamente que ser a humilhação e o ostracismo.

Se ele fosse homossexual, aí estava bem! Porque era um herói corajoso que se tinha assumido e significava que Durão Barroso, não só havia cumprido a quota de mulheres na Comissão, como a quota de gays. O único problema é que levantava outras questões, como a da quota de muçulmanos, a quota de negros, a quota de ex-toxicodependentes, a quota de pedófilos reintegrados, a quota de dactilógrafas que não tiraram cursos de informática, a quota de artistas de circo atacados por feras, etc., etc.

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Totalitarismo democrático

Eric Hobsbawm chamou ao século XX a “era dos extremos”. Não sei o que os historiadores do futuro chamarão ao século XXI. A Europa foi “escolhida” para ser o tubo de ensaio da globalização massificadora, vivendo nós, por isso, sob o jugo do totalitarismo democrático que tudo impõe e de que tudo dispõe. Um totalitarismo como nem Stalin pode imaginar! Depois da fruta de tamanho normalizado, da religião dos direitos humanos e da ditadura do politicamente correcto, entra agora em vigor o regime de pensamento único.

Para quem não andou atento às notícias, a história passa-se na Bélgica e tenciona ser um exemplo a seguir, para bem do sacrossanto totalitarismo democrático. Neste pequeno reino da Europa do Norte, o regime de pensamento único local logrou a proibição do Vlaams Blok. Crime? Delito de opinião.

Estes flamengos ousaram pensar, veja-se o desplante. E, não contentes com isso, tiveram coragem de dizer o que pensam. Que atrevimento! Defender a identidade flamenga e europeia? É um claro crime contra o multiculturalismo obrigatório. Denunciar a islamização da Bélgica e da Europa? É um claro crime de intolerância religiosa e cultural. Ser contra a imigração invasora? É um claro crime de racismo e xenofobia.

Perguntam os cépticos - E a liberdade de opinião e expressão? Pergunta incómoda, sem dúvida. Mas, como dirá qualquer manual básico de totalitarismo democrático, tem que ser necessariamente restringida, nestes casos. E não será essa restrição naturalmente anti-democrática? - perguntam, insistindo, os cépticos. Claro que não, porque neste caso a restrição da liberdade e da democracia é em defesa da liberdade e da democracia. Parece complicado, mas é simples, para sua protecção, o totalitarismo proíbe – democraticamente – a democracia para a proteger.

É por isso, caros defensores do totalitarismo democrático, que a pena exemplar (aquela pena que não é suposto existir num estado de direito democrático...) aplicada pelo estado belga é um exemplo a seguir. Toca a proibir tudo o que for movimento, partido ou associação que se atreva a contrariar o regime de pensamento único, em especial se contar com o apoio popular. E não se esqueçam, para o caso de alguém perguntar, que tudo isto é em defesa da liberdade e da democracia. Porque os regimes precisam de se proteger (eternizar?)... Onde é que eu já ouvi isto?

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Turquia (III)

Apesar de o debate sobre a entrada da Turquia na Europa continuar “esquecido” pelos nossos (des)governantes e pelos meios de (des)informação, algumas vozes se vão ouvindo. Li hoje o artigo do jornalista Fernando Correia de Oliveira intitulado «O fim da União Europeia», publicado na revista Homem Magazine, que aconselho a todos e do qual reproduzo os seguintes excertos:

«Parte-se do princípio que a adesão terá um efeito positivo na Turquia. Quem assim pensa foi também responsável, na guerra fria, por alimentar o fundamentalismo islâmico, face ao inimigo comum que era o comunismo. Viram-se os resultados, cuja factura só agora começámos a pagar. O mais provável é que o "antídoto" laico europeu não funcione e seja aniquilado em duas ou três gerações, pelo "vírus" religioso islâmico, que já hoje se encontra fora de controlo.»

«A Europa será islâmica no final do século XXI. Só que, nessa altura, já não será Europa, terá sido engolida pelo imenso Oriente, atávico, obscuro - que tanto fascínio ingénuo provoca junto de alguns intelectuais europeus, como o comunismo provocou em todo o século XX.»

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Semana em revista

Uma semana fora e vejo que o mundo não se alterou. Bush ganhou como era de esperar e lembrou a todos que a eleições eram na América e não noutro país. Reconheço que não consigo gostar do Dubya, mas que me diverti a pensar quem terá dito mais palavrões depois de sabidos os resultados, a Teresa Ketchup Kerry ou o Michael Moore...

Na Holanda, mais um episódio do “choque das civilizações” numa demonstração da violência e intolerância islâmica, com o assassinato de Theo van Gogh, morto por ter a coragem de não ficar calado.

Em Paris, a vida de Arafat está por um rastilho que se vai queimando enquanto o mundo espera o rebentar de mais um barril de pólvora no Médio Oriente.

Em Portugal, o Benfica perdeu por 3-0 na Taça UEFA, para ganhar este fim-de-semana no Campeonato (não consigo usar “SuperLiga” porque acho uma piada de mau gosto) por 4-0.

Tudo como dantes, no Quartel General de Abrantes.

sexta-feira, 29 de outubro de 2004

Emélia

Foi há dez anos que conheci a Emélia. Era uma rapariga cheia de boas intenções. Apareceu desinibida na minha cidade e rapidamente se instalou no meu bairro, mesmo à porta de minha casa. Prometia mundos e fundos: acabar com o estacionamento caótico e melhorar a circulação automóvel. Tudo isto, claro, para benefício dos residentes. A proposta parecia irresistível, mas como lembra a sabedoria popular: “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Depois de instalada, a Emélia desleixou-se. Começou a crescer, a engordar e a gastar mais do que podia. A inoperância saltava à vista e a ilusão desvaneceu-se, os problemas de trânsito continuaram e a pobre rapariga começou a ser odiada. Continuava a falta de lugares e a circulação era um pesadelo, mas nem por isso ela deixava de ser implacável na cobrança. Falsa princesa recorria a sapos, que nunca conseguiu transformar noutra coisa, para perseguir os infractores.
- Ó Emélia, como querias tu que os lisboetas te gramassem, sempre empertigada e cruel, com essa atitude de Sheriff de Nottingham?

Agora soube que a Emélia, afinal, não existe juridicamente. Incrível, não? Ora leiam este artigo da Automotor.

terça-feira, 26 de outubro de 2004

Escolhas

A recente detenção em Espanha de terroristas islâmicos que estariam a preparar um atentado de grandes dimensões com o objectivo de destruir a Audiência Nacional, em Madrid, vem lembrar que, apesar da vitória de Zapatero, cuja eleição significaria para alguns o fim dos atentados, o terrorismo islâmico não se pára com mudanças de governo. É necessário reconhecer, de uma vez por todas, a guerra empreendida pelo Islão contra a Europa. É bom não esquecermos que não escolhemos os nossos inimigos.

Cinema


1. Ontem consegui ir ver o filme de Enki Bilal “Tykho Moon”, no auditório do Institut Franco-Portugais quase cheio. Gostei, como esperava, mas continuo a preferir a BD.

2. Chamo a vossa atenção para o docLisboa 2004, II Festival Internacional Documental de Lisboa, que decorre de 24 a 31 de Outubro na Culturgest. Merecem um destaque especial o premiado documentário sobre a ETA “La pelota vasca, la piel contra la piedra”, de Julio Medem, e a secção “Como entender o Médio Oriente”.

3. Ultimamente, acho que o cinema em Lisboa está de parabéns, com os excelentes festivais que têm decorrido: IndieLisboa, 5.ª Festa do Cinema Francês e docLisboa 2004.

sexta-feira, 22 de outubro de 2004

Leitura obrigatória

Estive a matar saudades do meu amigo e camarada Miguel Jardim, comentador habitual deste blog (para quando colaborador?), afastado desta terra há muito (demasiado) tempo, lendo a excelente entrevista por ele concedida ao Causa Nacional, cuja leitura considero obrigatória.

Miguel, a tua entrevista lembrou-me as nossas longas conversas. Que saudades! Volta depressa, que conversar por e-mail não é a mesma coisa.

quinta-feira, 21 de outubro de 2004

Turquia (II)

No artigo «A entrada da Turquia» de Vasco Graça Moura, publicado ontem no Diário de Notícias, o eurodeputado reflecte que caso Bruxelas se decida pela adesão turca «só o tempo dirá se não foi uma imprudência muito cara».

Hoje, no mesmo jornal, Miguel Portas tenta contrapor os argumentos. Diz, por exemplo, «claro que a Turquia não é Europa - basta olhar para os mapas», concordo inteiramente. E continua, «mas porque há-de ser a geografia a fronteira da política? Que se saiba, a União é uma construção política. Iniciou-se na Europa ocidental e estende-se hoje a leste. Porque não, amanhã, a sul e a «oriente», desde que os respectivos povos o desejem?». É caso para perguntar: para quando a adesão do Líbano e de Israel? E porque não o Burkina Faso ou a Bolívia?

Guerra Química em Coimbra

Ainda me ri com pretensa manifestação espontânea de “estudantes”, ontem em Coimbra, provavelmente convocada por SMS. A determinada altura, um deles queixa-se – revoltado – de que a Polícia usou gás mostarda (!!!) contra os manifestantes. Santa ignorância! Segundo este futuro doutor, depois dos exércitos europeus na I Guerra Mundial, é agora a PSP de Coimbra que usa esta poderosa arma química. Terá a nossa Polícia comprado um carregamento ao Saddam Hussein antes das inspecções da ONU?

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Cine Bilal

Este post chega atrasado. A 5.ª Festa do Cinema Francês traz a Portugal, entre outros, os filmes do mestre da BD Enki Bilal, sendo que o seu último filme “Immortel”, baseado na inesquecível trilogia de Nikopol, foi exibido no passado dia 10, no cinema S. Jorge. É o que dá andar desatento, fica para a próxima.

Apesar desta falha, chamo a atenção para a exibição hoje às 21 horas, no Institut Franco-Portugais, do primeiro filme de Bilal “Bunker Palace Hotel”, de 1989. É a segunda vez que este filme é projectado no nosso país. Consegui vê-lo há uns anos num ciclo no Cine 222 e devo dizer que gostei, mas que fica muito aquém da BD. No entanto, acho obrigatório para qualquer apreciador de Bilal. No próximo dia 25, no mesmo sítio e à mesma hora, terá lugar a projecção de “Tykho Moon”, de 1997, o segundo filme do autor. Vamos lá ver se não falho este...

Crise

Há dias, um amigo meu ligado à área financeira disse-me em conversa que em alturas de grande crise há um negócio que regista grandes subidas: os jogos de azar. Quer-me parecer que o recente aparecimento do concurso “Euromilhões” é um péssimo prenúncio...

quinta-feira, 14 de outubro de 2004

Pseudo-debate

Sobre um suposto debate sobre a distinção entre Direita e Esquerda no último programa “Prós e Contras” na RTP 1, não me vou dar ao trabalho de tecer quaisquer comentários. Vou apenas lembrar a afirmação de Nuno Magalhães, Secretário de Estado da Administração Interna, de que a Constituição Americana previa, segundo ele, o “direito à felicidade”. Foi prontamente ridicularizado pela ala esquerda do pseudo-debate, mas não pelas razões certas...

É que a Constituição Americana não prevê tal direito, o documento onde está previsto o “direito à busca da felicidade” é a Declaração de Independência, de 4 de Julho de 1776. Aqui fica o extracto do texto original:

«We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that
they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among
these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.
»

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Morte Shopping

Só ontem tive conhecimento, através da comunicação social, da intenção de uma empresa espanhola instalar no Bairro de Alvalade, mais concretamente na Rua Conde Ficalho, um autêntico centro comercial funerário. O “Morte Shopping”, como é apelidado pelos moradores, terá uma sala de maquilhagem e preparação de corpos, câmaras frigoríficas, capela, 9 salas destinadas a velórios, cafetaria e funcionará continuamente 7 dias por semana. Uma “maravilha” nesta pacata zona residencial.

Felizmente, os moradores já se mobilizaram contra esta tentativa. Para mais informações consultem a página www.funerarianobairro.com e assinem - como eu já fiz - a petição on-line.

terça-feira, 12 de outubro de 2004

Bom dia, noite

Há um ano atrás, mais concretamente em Setembro de 2003, o Pedro chamou a atenção para o filme Buongiorno, notte, de Marco Bellochio. Fiquei curioso, os “anos de chumbo” da Itália dos 70 sempre despertaram o meu interesse. Em Abril deste ano, anseava-se no Último Reduto pelo DVD, dado haver dúvidas sobre a estreia do filme em Portugal. Foi preciso esperar até ontem - no meu caso - para conseguir ver o filme e, devo dizer-vos, valeu a pena.

Bellochio retrata o rapto de Aldo Moro da perspectiva dos terroristas que o mantêm prisioneiro num apartamento, tendo que aparentar normalidade perante os vizinhos. O realizador e argumentista, que intercala muito bem imagens e noticiários da época com a acção do filme, apresenta também uma versão alternativa dos acontecimentos. E se Chiara, uma das terroristas das Brigadas Vermelhas e a personagem principal, pusesse em causa os métodos e objectivos da organização? E se esta terrorista com consciência permitisse a fuga do Presidente Moro? E se...

“Bom dia, noite” é um filme a não perder. Uma obra que, não sendo um documentário narrativo nem uma ficção politizada, se destaca de tantas outras sobre este conturbado período da História italiana.


Múmia

Sobre a crise sucessória no PCP, o partido que todos sabem que não passa de uma recordação do período e do pensamento jurássico, Alberto Gonçalves reflecte hoje no Correio da Manhã sobre o melhor candidato:
«Penso sobretudo na múmia de Lenine, com 134 anos e em aceitável estado de conservação. Mesmo porque os moscovitas não a querem por lá, talvez não custasse importá-la para dirigir o PCP, fundado e mantido à imagem dela. Dado que nem a múmia nem o PCP têm onde cair mortos, o gesto seria uma bênção.»

Santos da Casa

O leitor e comentador FG Santos, ainda há dias aqui referido pela sua crítica construtiva, teve a óptima ideia de iniciar o seu blog pessoal. O Santos da Casa já está linkado e passará a ser mais uma das minhas visitas diárias. Aconselho todos os leitores a passarem por lá.

segunda-feira, 11 de outubro de 2004

Um caso de Nickname

Uma semana ausente e qual não é o meu espanto ao ver que nos comentários do Portal Nacionalista há alguém que assina “branquinho”. Não sou eu, obviamente, nem qualquer parente meu. Penso que para quem me conhece, nem que seja apenas blogosfericamente, tal é fácil constatar, pelo teor dos comentários e pela escrita. Creio que seja apenas uma infeliz coincidência, já que o nome no e-mail associado a esse nick é “zedesousa”.

Prova de vida

É verdade, ainda cá estou. A meio da semana passada recebo um telefonema: “Então, aconteceu alguma coisa?”, no dia seguinte, outro. No e-mail, algumas mensagens do tipo “não tens escrito nada...” Finalmente, nos comentários, o meu grande amigo Mendo Ramires pergunta-me se este blog é semanal. Tudo isto justifica, obviamente, uma explicação aos leitores.

Foi muito simples (parece que estou a explicar um acidente de viação a um polícia de trânsito), decidi aproveitar a semana anterior para fazer umas “férias em casa”. Em teoria parecem óptimas: fico em Lisboa com a família, ponho a leitura em dia, aproveito para escrever e ainda trato de alguns assuntos pendentes. Na prática, por entre obrigações familiares, noites mal dormidas e tantas voltas a dar, não consegui levar a cabo o plano traçado. O maior dano foi o blog e os mais prejudicados os leitores. Pobre pena que não tens mergulhado na tinta por estes dias... Eu também acusei o toque, vá-se lá saber porquê, mas faz-me falta a blogosfera.

domingo, 3 de outubro de 2004

Crítica construtiva

Nos comentários ao post relativo aos seis meses do Pena e Espada, o leitor FG Santos não se limitou a deixar umas palavras simpáticas. Fez uma crítica construtiva, aquilo que desde o início deste blog espero que os leitores façam, gostem ou não do que lêem.

Começa ele por dizer que não está de acordo comigo em muitos pontos, óptimo! O pensamento único deve ser o nosso pior inimigo. Depois, caracteriza o meu tom como calmo e sereno, faz-se o que se pode. Numa blogosfera cada vez mais insultuosa e intolerante, acho que é a melhor forma de estar. Se esta característica é rara na área nacional, não tenho tanta certeza. Blogs como o Último Reduto, Nova Frente, o Sexo dos Anjos, entre outros, são óptimos exemplos de postura neste universo.

Em relação à sua sugestão, “porque não desenvolver mais os textos de sua autoria, regra geral telegráficos? Na maior parte das vezes vai buscar a outros aquilo que quer dizer mas penso (desculpe a ousadia) que, sendo-lhe a pena fácil, aqui e acolá poderá presentear-nos com um post mais longo”, digo-lhe que o tamanho dos posts foi uma preocupação minha desde o início.

Pessoalmente, prefiro posts mais longos, mas fico com a ideia que são lidos por muito menos gente. Falei já sobre o assunto com outros bloggers e sou cada vez mais da opinião que o ideal é intercalar posts longos, com telegráficos e com referências a outros autores. Pelo seu comentário fico com a ideia que partilha desta opinião, mas que acha que os posts mais longos não têm sido tão frequentes. Concordo. Ainda bem que me alertou. As últimas entradas estão longe de ser telegráficas e, pelo número de comentários, vejo que foram lidas e originaram o que se espera num blog: discussão livre de ideias. Estou a ver que mais pena era exactamente o que o Pena precisava.

Obrigado, FG Santos, pela leitura assídua, pelos comentários e pelas sugestões.

sexta-feira, 1 de outubro de 2004

Turquia

Ao contrário do que aconteceu noutros países europeus, o debate sobre a entrada da Turquia na UE passou ao lado da discussão pública em Portugal, excepção feita à blogosfera. Nas últimas eleições europeias, apenas o PNR se opôs claramente à adesão turca, o PP estava com certeza ofuscado pelo poder e o PND andava “às aranhas” sem saber o que pensar...

Há cerca de dois anos, quando Giscard d'Estaing declarou publicamente que a Turquia não era um país europeu e que a sua adesão significaria o fim da UE, apenas uma voz se ouviu na imprensa portuguesa concordando com o político francês: Vasco Pulido Valente.

Hoje, volta a abordar o tema na sua coluna no Diário de Notícias, com a crónica intitulada «Alargamentos», que aqui reproduzo na íntegra por não estar disponível on-line:

Parece que há por aí, à Esquerda e à Direita, uma grande alegria, porque a UE considera que a Turquia «está em condições» de começar o seu «processo de adesão». Não se percebe francamente porquê. Como dia a dia se constata, a «Europa» a 25 já perdeu parte do seu sentido original. O alargamento trouxe uma
irredutível heterogeneidade: económica, estratégica, militar, nacional e histórica. Além disso, a própria dimensão do novo arranjo impede para sempre qualquer «convergência» social ou política, quanto mais não seja porque a França e a Alemanha não têm agora a força necessária para o seu antigo papel de «motor». Ser «motor» de seis, mesmo de 15, não é igual a ser «motor» de 25. O velho sonho (ou, se quiserem, a velha fantasia) de fazer da «Europa» uma «potência» capaz de equilibrar e limitar a América morreu em pouco tempo e sem ninguém dar por isso, enquanto a retórica ortodoxa o continuava, e continua, a celebrar. Com tudo isto e ainda por cima sem dinheiro, a UE, ou uma certa «inteligência» da UE, surpreendentemente persiste em trazer para o «clube» a Turquia asiática e, pior, islâmica. Porquê? Porque a Turquia pertence ao passado da Europa (pertence, de facto, como inimiga); porque a Turquia se tornou secular e democrática (uma coisa mais que duvidosa: o actual Governo, por exemplo, pensa em criminalizar o adultério); porque a Turquia serve de «barreira» ao extremismo árabe (ou talvez também lhe sirva de caminho e ajuda); e porque, enfim, a «Europa» deve mostrar a sua tolerância e não deve aparecer no mundo como um império cristão, rico e xenófobo. Esta mistura de má-fé, megalomania e medo é receita para desfazer a UE ou, pelo menos, para a reduzir a uma forma vácua. Por muito que espante a burocracia da UE e os beatos do costume, a realidade existe e não cabe nos planos deles.

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

À procura do Norte

Como uma adolescente responde a um teste de revista que lhe dá a certeza do seu amor ser correspondido, apesar de ela saber que não tem qualquer hipótese como o giraço do liceu, respondi às perguntas da Bússola Política e não me espantei com o resultado. Não é preciso embrenharmo-nos muito no questionário para perceber para onde estamos a ser conduzidos e como é fácil dar-lhe a volta. Apesar disto, decidi que imperaria a sinceridade e descobri que sou de esquerda e autoritário.

Pedi depois a alguns amigos para fazer o teste e eu próprio fiz algumas experiências. Confesso que foi divertido. Já se sabia, para se ser considerado de direita aqui é preciso ser um capitalista ultra-liberal; por outro lado, o que dirão os barnabés ao saber que pode ser considerado de esquerda alguém que concorde fortemente com “Em comparação com outras raças, a nossa tem muitas qualidades superiores”, “O aborto, quando a vida de mulher não está em risco, deve ser sempre ilegal” ou “A primeira geração de imigrantes nunca se consegue integrar completamente no seu país de acolhimento” e que discorde fortemente de “Em última análise, as pessoas dividem-se mais pela sua classe social do que pela sua nacionalidade” ou “Não há povos selvagens e civilizados, mas apenas culturas diferentes”? Cómico, não?

É fácil ver por que os nacionalistas são tão mal compreendidos, quando analisados por quem só vê o mundo a duas cores. É o reino do sistema binário. E depois espantam-se: “Como é que podes ser isto e pensar aquilo?” O universo maniqueísta do on/off é tão fácil...

Confirma-se aquilo que costumo dizer ironicamente: nesta dicotomia parida pela Revolução Francesa, para a esquerda sou de extrema-direita, para a extrema-direita sou uma espécie muito estranha de comuna.

terça-feira, 28 de setembro de 2004

Reflexão blogosférica

Desde o meu primeiro contacto com a blogosfera que fiquei fascinado por esta nova realidade. Encontrei um espaço livre, que é uma fonte de ideias e pensamentos, local de debate e reflexão, ponto de encontro de todos os que estão dispostos a ouvir e ser ouvidos.

Não, não é preciso acordarem-me. Rapidamente me apercebi que a blogosfera estava longe de ser o paraíso utópico atrás descrito e do qual, infelizmente, continua a afastar-se.

O anonimato permite tanto a liberdade de expressão como o insulto fácil; a realidade virtual permite a personalidade virtual, que pode ser criativa ou ofensiva; o multiplicar de blogs permite o acesso a milhares de ideias diferentes ou pode criar a censura pelo excesso, etc.

Até agora, penso que o saldo da blogosfera é positivo. Não sei se continuará assim, tenho as minhas sérias dúvidas... Só o futuro o dirá. Até lá a responsabilidade é nossa e o princípio orientador deve ser o respeito mútuo.

Relatório do 1.º Semestre


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6 meses

Foi há seis meses atrás que me lancei no meu blog pessoal, instigado por vários amigos. Quando comecei o Pena e Espada, lembro-me de um amigo – comentador blogosférico - me alertar: “É pá, não te metas nisso! Um blog é uma prisão...”, por outro lado houve outro – blogger – que me tranquilizou: “Um blog é para escreveres o que te apetece quando te apetece, sem compromissos senão contigo próprio”. Ao completar o primeiro semestre de existência, vejo que fiquei no meio destes extremos. É claro que escrevo quase tudo o que me dá na gana, mas também não nego que sinto uma obrigação para com os que me lêem.

Serve este post para dizer a todos os meus amigos, comentadores, visitantes assíduos, ocasionais e “pára-quedistas”, obrigado!

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Ile de France

aqui havia afirmado o meu gosto pelo RIF, estilo musical que muito aprecio.
Aqui fica uma referência obrigatória ao grupo Ile de France.
Para ouvir aqui e comprar aqui ou aqui.



Discografia:

Franc-Parler (1998)
Panique Médiatique (2000) - split CD com ZetaZeroAlfa
Non à la dictature planètaire (2001)

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

Mário Saa (II)


De gorro e gola cativo
meus vagos passos perpassam
o espaço, que a espaços passam,
o espaço, que a espaços vivo.

Solenes passos dilatam
o debuxo do meu busto;
meus passos movem-se a custo,
meus gestos lassos dilassam.

Meus olhos, longos ais,
meus olhos compridos, atam
as coisas que em si desatam,
meus olhos unos, plurais.

Transformam tudo em laguna,
em mansidão pensativa,
em ligação rediviva
em que cada coisa é una

com cada coisa cativa
de seu próprio isolamento.
A vista é mais ligativa
Que o calor do pensamento!

Mário Saa
in Tempo Presente n.º 1 (1959)

sexta-feira, 17 de setembro de 2004

And now for something completely different...

A avaliar pelo top de audiências, podemos dizer que o nosso país é de “maus humores”. Os programas de (suposto) humor mais vistos nos canais de televisão portugueses são verdadeiros atentados à inteligência, como a repetição (!) de “Os Malucos do Riso”, na SIC, e “Os Batanetes” na TVI.

Neste quadro negro, há felizmente uma honrosa excepção, que merece aqui a devida vénia. Refiro-me ao “Gato Fedorento”, cujo blog tem lugar nos links desde o início do Pena e Espada.

Confinado a um curto espaço de emissão no canal cabo SIC Radical, o “Gato Fedorento” traz-nos um humor jovem, criativo, feito com muita carolice e improviso.

Sketches como o genial “Homem a quem parece que aconteceu não sei quê”, tornaram-se já clássicos modernos para qualquer apreciador de bom humor.

Como grande apreciador dos “Monty Python” que sou, não podia deixar de gostar do excelente trabalho destes jovens. Parabéns!

O “Gato Fedorento” é de rir e chorar por mais.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Má notícia

Chegou ao fim o Portugal e Espanha. Infelizmente, terminou um dos projectos mais interessantes na blogosfera.

Vamos esperar que os seus autores, ou pelo menos alguns deles, se lancem numa nova aventura.

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Pierre Vial na Radio Courtoisie

Hoje, das 17 às 20 horas, Jean-Gilles Malliarakis leva ao seu programa na Radio Courtoisie Pierre Vial, presidente da associação “Terre et Peuple”, que será acompanhado por Jean Haudry e Jean Mabire, para debaterem o tema “Identité et Enracinement” (Identidade e Enraizamento).

A Radio Courtoisie, auto-intitulada “rádio do país real e da francofonia”, é uma rádio cultural e associativa totalmente independente de patrocínios publicitários, que emite em FM em França e através da Internet para todo o mundo.

A não perder!

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Europa (IV)

“A Europa não pode viver sem as pátrias e, realmente, ela morreria, se matasse os seus próprios órgãos, ao matá-las; mas as pátrias já não podem viver sem a Europa. Nascidas da Europa, devem tornar à Europa. Elas rasgaram-na, no tempo do seu crescimento maravilhoso, como crianças que se emancipam cruelmente da mãe para devorarem a sua parte do destino; mas hoje precisam de refugiar-se e revigorar-se nela.
A necessidade de pão e de trabalho e todas as outras necessidades exigem-no. As pátrias da Europa, separadas, só podem diminuir-se e morrer. Nos tempos de hoje, uma pátria não pode viver no seu campo; precisa do campo das outras, pelo menos de todos os campos de um continente, de todas as suas minas, de todas as suas fábricas e também de todos os seus talentos, de todos os seus génios.
Grandes forças se ergueram no mundo e unificaram ou unificam os continentes. A Europa que vê isto, deve fazer isto também. Ou então será, apenas, uma nuvem de poeira que se extingue, turbilhonando no sopé das montanhas.
Eis que, de novo, finda o primaveril tempo das cidades e das pátrias, dos principados e dos reinos: eis que torna o tempo estival dos impérios. Depois de Atenas, é o império de Alexandre ou de César.
Europa! Olha estes grandes impérios que se formaram, treme e cinge os teus rins!”


Drieu La Rochelle

terça-feira, 7 de setembro de 2004

O desporto como circo


Assegura-se que é o desporto que evita as guerras porque cria confrontos simbólicos e pacíficos, neutralizando assim as pulsações nacionalistas. A história do futebol é uma mostra exacta do inverso, com uma litania de lutas mortais entre hooligans e ultras que avivam as paixões nacionalistas. Na Europa, o nacionalismo e o chauvinismo, que normalmente tenderiam a desaparecer, são avivados pelas paixões pelas selecções nacionais.

É de notar o embrutecimento mental e a infantilização provocados por esta raiva do desporto. É penoso ver a população masculina – e agora também a feminina – discutir com fervor sobre as façanhas ou o destino de equipas e de atletas que não terão nenhuma incidência sobre a sua vida nem sobre a da sua nação. As questões sem objecto e sem incidência mobilizam a atenção geral.

O desporto também mantém o fascínio mórbido pela força física bruta, que é o contrário da coragem física (a do soldado) e também pela “forma física”, porque os atletas de alto nível sofrem num organismo fragilizado pelo excesso de treino e o doping. Numa sociedade sem coragem física, esta é compensada pela adulação da façanha física quantitativa e sem qualquer interesse. Este culto da façanha cifrada, subproduto de um materialismo desatado – mias rápido, mais alto, mais musculoso, mais resistente, etc. – expressa-se no reino do record. Coloca-se num pedestal os indivíduos que bateram um record físico: é uma verdadeira animalização do homem, uma negação da sua dimensão cerebral. Mas, que raio, qualquer lebre, galgo, cavalo ou avestruz ultrapassaria Bem Johnson num sprint, qualquer chimpanzé ou canguru massacraria Tyson; e quanto ao record de salto em altura o especialista é o falcão, com uns 5500 metros.

Responderão que existem desportos que recorrem à inteligência, à astúcia e à coragem: o ténis, o esqui, a vela, por exemplo. Está bem. Mas, dois tontos que se devolvem uma bola por cima de uma rede, merecem uma focalização mediática tal? As façanhas dos trapezistas ou dos domadores de circo, comparativamente parecem tão admiráveis! E quanto aos “desportos extremos”, as regatas transatlânticas, a travessia do continente antárctico a pé (Para quando sobre as mãos?), ou do Pacífico a remo; tudo isto reflecte um gosto pela inutilidade, de aborrecimento, de futilidade. Já não há nada em jogo. Apenas alguns riscos (calculados) para se fazer notar pelos patrocinadores e pelos media. Antigamente, a regata dos barcos à vela, como a rota do Rum, tinha um sentido: trazer mais rapidamente possível os produtos para ser assim os primeiros do mercado. Hoje, estas regatas são façanhas insensatas, corridas sem meta, um trabalho sobre o vazio, um puro espectáculo remunerado, é como um trabalho de circo, mas sem o riso dos palhaços.

Curiosamente, os únicos desportos interessantes são os desportos étnicos, que não estão mundialmente mediatizados, como a pelota basca.

Assim, temos que condenar o desporto? Não, se for entendido como exercício físico de amadores e se servir para melhorar inteligentemente a higiene de vida e formar fisicamente os combatentes sobre o terreno. O desporto encontra-se assim finalizado, serve para algo. Os Jogos Olímpicos da Grécia antiga, que hoje perderam totalmente o seu sentido, não eram um “acontecimento desportivo”, mas um treino militar. Nenhum profissional, só amadores.

O desporto-espectáculo mundializado de hoje tem duas funções: criar falsos entusiasmos infantilizadores que neutralizem a consciência ideológica e política à volta de uma série de não-acontecimentos; e desenvolver um novo sector da indústria do espectáculo, muito pouco criador de emprego, muitas vezes mafiosa, mas dotada de imensos recursos financeiros, recursos que são aceites pelas massas.

Guillaume Faye
in “ L'Archéofuturisme”

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Howl's Moving Castle

aqui tinha demonstrado grande curiosidade no novo filme de Hayao Miyazaki e, ao ler hoje as impressões do Eurico de Barros no «Diário de Notícias», confirmei as minhas expectativas: é um sério candidato ao Leão de Ouro.

Um aspecto curioso desta ante-estreia mundial foi “o temor de que alguém tentasse fazer cópias digitais ilegais durante a projecção de imprensa atrasou muito a sessão, já que não houve bolsa, carteira ou saco de jornalista que não fosse revistado à entrada. O que as ameaças da Al-Qaeda à Itália não conseguem, um filme de Miyazaki conseguiu.

Será que vamos ter que esperar muito para vê-lo?


Alania

Assistimos este fim-de-semana ao horror do terrorismo islâmico em mais uma das suas investidas contra a Europa. A violência sobre as crianças da escola de Beslan chocou o mundo e alertou-nos para o facto de o expansionismo islâmico não olhar a meios para atingir os seus fins. É bom que, de uma vez por todas, nos convençamos que apenas unida poderá a Europa enfrentar de novo o Islão.

Para aqueles que ao ouvirem falar na Ossétia do Norte pensam que se trata de um país longínquo que nada tem que ver connosco, lembro que esse é apenas o nome georgiano para a antiga Alania.

A Alania é a terra de origem dos alanos, um dos povos bárbaros que invadiram a Península Ibérica no século V, chegando a fundar aqui um reino. Depois de o rei alano Attaces ter sido morto em batalha com os Visigodos, os alanos apelaram para o rei vândalo Gunderico, que aceitou a coroa alana. Os vândalos e alanos, recusando submeter-se ao domínio visigótico, foram-se instalando cada vez mais para Sul, acabando mesmo por atravessar para o Norte de África, onde fundaram um reino que duraria até ao século seguinte.

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Stress


Esta mágoa, que em mim esgravata,
É cascata
Que sem cessar se desata
Em mortiça serenata
Às raízes do que sou,
Com o fim de apodrecê-las…

…E nem a morte me mata! –
Como a todo o acrobata
Que um dia se despenhou
Do seu trapézio d’estrelas…

Rodrigo Emílio
in “Reunião de Ruínas” (1977).

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Festival de Veneza

Abre hoje o histórico Festival de Cinema de Veneza, com o filme The Terminal, de Steven Spielberg (fora de concurso). Pelo que li no «Diário de Notícias», esta 61.ª edição, com as modificações introduzidas pelo seu novo director, Marco Muller, promete...

Depois de ver a lista de filmes do Festival, fiquei com grande curiosidade no novo filme de Hayao Miyazaki, realizador japonês de animação que muito aprecio, Howl's Moving Castle, e com pena de não poder ir. Felizmente, está lá o Eurico para nos contar tudo.

terça-feira, 31 de agosto de 2004

Pratas

Quando aqui disse que, na minha opinião, o Obikwelu não é português, ouvi as habituais acusações gratuitas de racismo e xenofobia. Mas, curiosamente, não vejo a pandilha do politicamente correcto referir os dois tipos de medalha de prata trazidos para Portugal. Pelo destaque dado pela imprensa à medalha ganha pelo nigeriano naturalizado, com certeza esta é de uma prata mais valiosa que a da medalha do Sérgio Paulinho.

Por mim, continuo a preferir a prata da casa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

O desporto descarrilado


Os “deuses do estádio” da mitologia pré-guerreira morreram. À escala mundial, o desporto não é só uma indústria (o volume de negócios da FIFA é mais importante que o de França), é um lugar de corrupção generalizada, de doping, de salários fantásticos, e também uma parte do mundo do show business, e – novo ópio do povo num Ocidente sem religião – participa totalmente e é cúmplice da empresa de descerebrização generalizada.

O espectáculo desportivo infantiliza os espíritos, camufla as realidades sociais e os fracassos do político. O Campeonato do Mundo de Futebol de 1998 foi um brilhante exemplo. O pensamento oficial saudava a vitória francesa como a da “multirracialidade e da integração conseguida”, como o símbolo de uma “França que por fim triunfa”. Simulacro, mentira e dissimulação.

Alguns factos: fazer jogar juntos onze atletas de diferente origem étnica, todos muito bem pagos, constitui um “caso limite” que não demonstra qualquer “integração” na população; a integração desta equipa não é significativa da “França plural”, mas, pelo contrário, camufla debaixo de um falso exemplo o fracasso radical do melting pot republicano; apesar de a vitória ter sido atribuída aos negros e magrebinos da selecção nacional, os seus irmãos das “cidades periféricas” não estavam autorizados a entrar nos estádios, por “razões de segurança”! O facto de alguns adeptos “de cor” (principalmente raparigas, certamente) terem pintado a cara em “tricolor”, debaixo do olhar das câmaras, foi para a classe intelectual a prova de que “a França multirracial funcionava”: Que disparate! Exactamente como no Brasil, onde a sociedade multirracial é uma sociedade multirracista, a presença de vedetas futebolísticas “de cor” permite dissimular a realidade. Apenas ordenados as luzinhas da vitória desportiva, repetiam-se os motins nas “cités”, as lutas mortais nas ruas e nas escolas; em homenagem ao jogador kabil, naturalizado francês, Zinedin Zidane, viram-se várias bandeiras argelinas nos Champs Élysées, depois de duas vitórias da equipa francesa, os gangues étnicos enfrentaram várias vezes a polícia ou os hooligans britânicos, em motins urbanos em Paris e Marselha. Que belo êxito o da “integração”! Cúmulo das parvoíces (e do racismo): o Libération, órgão oficial do anti-racismo bem-pensante, criticou a equipa alemã por apenas contar com “jogadores loiros”, sem nenhum imigrante turco ou de outra origem, devido ao direito de sangue, e afirmou que a derrota alemã podia explicar-se por esta escandalosa “pureza étnica”.

De facto, a vitória de uma equipa multirracial de futebol permitiu tapar o fracasso concreto da integração, e em vez de favorecer a multirracialidade, desenvolveu mais um pouco o multirracismo.

Em que é que esta vitória da selecção francesa reduziu a “fractura social” e a “exclusão”? Em que é que contribuiu para criar empregos e impedir a emigração dos cérebros científicos franceses para a Califórnia? Em que é que intensifica a posição diplomática, política ou cultural da França no mundo (McDonald’s, patrocinador do Mundial...)? Em que é que mostra a superioridade de uma sociedade multi-étntica sobre uma mono-étnica? Em nada. Prostitui-se o desporto para acreditar em mentiras políticas.

A religião do futebol, as histerias colectivas que provoca, os disfuncionamentos psicológicos que engendra (adeptos que se arruinam para comprar uma entrada que custa três meses de salário), explicam esta função descarrilada do desporto de hoje: criar um sector económico lucrativo e um espectáculo de massas, cujo resultado é uma manipulação da consciência política. O sistema desvia o espírito das multitudes para a focalização teatral de acontecimentos irrisórios. Mais precisamente, através do desporto o sistema transforma um espectáculo neutro num acontecimento carregado de sentido.

O desporto moderno representa exactamente o mesmo que os jogos circenses da Roma decadente: “panem circensque”. “Rendimento mínimo garantido e futebol”. Mentir e fazer esquecer. O desporto moderno entra exactamente na mesma lógica, mas de maneira mais soft – já que temos medo do sangue e da “realidade” – que as empresas de gladiadores, esses escravos adulados e sobre-assalariados.

Guillaume Faye
in “ L'Archéofuturisme”

Tradição

Este post é dedicado aos meus amigos Pedro Guedes e Mendo Ramires.

«A tradição de um povo é a sua paternidade, a substância da sua personalidade, e esta constitui-se na consciência que cada povo tem de si próprio e que é sempre consciência histórica. Pois todo o povo, como todo o indivíduo, é, em cada momento das sua existência, mais ou menos original e criador, mas é também continuador de um processo histórico que é o desenvolvimento íntimo da sua consistência espiritual. É-se tanto mais original quanto mais se é verdadeiramente capaz de entesourar o passado.»

Giovanni Gentile