quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O cão de Deus


Chegou finalmente "Le Chien de Dieu", um álbum de banda desenhada com argumento de Jean Dufaux e arte de Jacques Terpant, autor que muito aprecio e ao qual dediquei um texto sobre a sua trilogia dos "Sete Cavaleiros", baseada no romance homónimo do grande escritor francês Jean Raspail.

Desta vez, Terpant desenha magistralmente o génio das letras francesas, tornado escritor "maldito", Louis-Ferdinand Céline, a quem Drieu La Rochelle chamou "cão de Deus". O argumento, uma ficção dos últimos dias da vida do escritor que se apoia na obra de Céline para revisitar os momentos marcantes do passado, é fluído e bem construído.

Fiz a pré-encomenda mal foi possível e li-o atenta e sofregamente, para o fotografar acompanhado dos livros do retratado.

Uma excelente obra, cuja leitura é obrigatória!

sábado, 7 de outubro de 2017

Construir uma biblioteca


O título deste post devia ser uma preocupação de qualquer homem cultivado, mas cada vez menos a construção da biblioteca pessoal importa. É por isso de saudar o artigo do Carlos Maria Bobone, chamado exactamente "Como construir uma biblioteca milionária". É claro que o foco está nos livros enquanto investimento, tal como se de uma colecção de arte se tratasse, mas a abordagem não invalida o interesse natural para qualquer bibliófilo, bem pelo contrário.

O artigo tem aspectos bem curiosos e desfaz vários lugares-comuns, como por exemplo ao recordar que "é preciso vincar que livros com cem anos não são livros antigos". Dos vários conselhos práticos,   lembra que "a primeira edição só interessa se for rara" e que os livros de arte não são, por natureza, livros caros, ao contrário da errada crença comum.

Enfim, um texto informativo, curioso e até divertido, para bibliófilos e não só. A ler!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Obama, Trump e um país dividido


Sabemos que na Europa Ocidental Obama teve um estatuto de quase “santo”, mas aquele que se apresentou como o candidato “pós-racial” que traria a união dos norte-americanos foi de facto o que marcou uma profunda divisão no eleitorado norte-americano. No aspecto racial, recorde-se a interrogação da National Review, no ano passado: “Após oito anos do primeiro Presidente afro-americano, porque é que as relações raciais na América estão tão más?

A propósito da divisão eleitoral, veja-se o artigo “Obama e Trump, os divisores-em-chefe numa América sem rumo” publicado ontem no insuspeito «Público», jornal que nunca escondeu as suas simpatias por Obama: “Como a profunda divisão que existe hoje em dia entre republicanos e democratas é vista muitas vezes como um fenómeno criado pela vitória de Trump em Novembro do ano passado, talvez valha a pena recordar as percentagens de popularidade de Obama no dia em que o Presidente norte-americano mais querido na Europa saiu da Casa Branca – com 83% de "gostos" no lado do Partido Democrata e 13% de carinhas sorridentes no Partido Republicano, foi o Presidente que mais dividiu os eleitores norte-americanos desde que há registos, segundo os estudos da empresa Gallup.

Continuando a contrariar a ilusão que a Europa viveu em relação à popularidade de Obama, o artigo diz que “mesmo com todas as diferenças entre épocas, quem estuda as sondagens admite que se possa estar perante um "novo normal", como se lê no comentário da empresa Gallup. E, se esse "novo normal" veio mesmo para ficar, "os Presidentes vão ter muitas dificuldades para alcançarem valores positivos nas taxas de aprovação" – algo que aconteceu também com Barack Obama, apesar da ideia generalizada na Europa de que o antecessor de Trump foi mais popular do que era habitual. No final dos seus mandatos, Obama teve uma taxa de aprovação média de 47,9%, e só teve valores positivos em três fases: no início do primeiro mandato, na altura da reeleição e na fase final do segundo e último mandato”.

Comentando, de seguida, a impopularidade de Trump, afirma que “é nesta mistura de "novo normal" com uma plataforma política quase oposta à que serviu de guião a Barack Obama que Donald Trump tem navegado. O resultado está à vista: Trump tem mantido, e até reforçado, a tendência dos últimos anos para dividir ainda mais os eleitores americanos, e é ao mesmo tempo um dos presidentes menos populares de sempre”.

Apesar de tudo, há que dizer que toda esta impopularidade de Trump não vem de hoje e não o impediu de chegar a Presidente dos EUA. Trump foi, como muito bem analisou Carlos M. G. Martins, o homem que desafiou o statu quo.


Esse desafio começou dentro do próprio Partido Republicano, pelo qual Trump se candidatou. No livro “Trump - Desafiar o Staus Quo”, publicado pela Gladius Editions, Carlos M. G. Martins escreveu que “o distanciamento crescente entre a base e as elites não se limita à interligação entre o político e o económico. A própria dinâmica política e interpartidária tem provocado essa cisão. Durante vários meses, a cúpula do Partido Republicano tinha demonstrado dificuldade em aceitar os resultados obtidos nas urnas. À medida que se tornava mais evidente que Trump seria o escolhido pelos eleitores, essa frustração permitia identificar laivos de honestidade dentro do "sistema".” Carlos Martins cita depois uma entrevista do republicano Curly Haugland à CNBC, da qual retiro uma passagem esclarecedora: “Ao contrário da sabedoria popular, são os partidos quem decide quem são os candidatos, e não os eleitores”.

Regressando ao “país dividido”, percebe-se que não foi o fenómeno Trump que causou a fractura e que o agravamento dessa situação é inevitável. Uma coisa é certa, chame-se Obama ou Trump, o ressurgimento da Europa nunca virá do outro lado do Atlântico.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

O mau jornalismo habitual (XII): a Alternative für Deutschland

Alice Weidel, a líder parlamentar da AfD que é assumidamente homossexual.

Sabemos que a classificação "extrema-direita" é naturalmente discutível e amiúde utilizada pejorativamente, normalmente como "alerta para o regresso do fascismo". Mas, sem grandes dificuldades, admitamos para esta exposição a Alternative für Deutschland (AfD) nessa categoria.

Ora, se a AfD é de extrema-direita, também o era o Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei (o partido usou as duas designações consoante os Länder), que existiu entre 1946 e 1950, elegendo cinco deputados ao Bundestag, nas primeiras eleições federais pós-Segunda Guerra Mundial, em 1949.

Vem isto a propósito da "notícia", apregoada por tantos media, de que a AfD seria a primeira força de extrema-direita a entrar no Bundestag. Tomemos um exemplo paradigmático. Mafalda Anjos, a "diretora" (assim mesmo, sem o "c" de carácter que a submissão ao Acordo Ortográfico impôs) da revista "Visão", ainda por cima "em Berlim", fazia a seguinte previsão: "Extrema-direita terá assento no Parlamento alemão pela primeira vez desde 1945".

No estilo habitual destes lamentos alarmistas, Mafalda Anjos recorda que a Alemanha é um "país onde a herança de um passado nazi ainda está bem presente", mas a classificação da AfD, ao longo do artigo parece ir esmorecendo... Da "extrema-direita" do título, passamos para "direita-radical" no segundo parágrafo e, já no final, para "partido conservador anti-imigração". Provavelmente são sinónimos, já que na ampla classificação de "extrema-direita" cabe muita coisa. Cabe até Alice Weidel, uma das líderes da AfD, de quem a "diretora" da "Visão" diz que é "uma lésbica orgulhosa, casada com uma mulher do Sri-Lanka, trabalhou na Goldman Sachs e vive na Suiça".

Vamos aos factos, que falharam neste artigo, muito provavelmente por ignorância histórica e cegueira ideológica. Alice Weidel é homossexual assumida e vive com Sarah Bossard, uma cidadã suíça de origem cingalesa, com quem adoptou dois rapazes. No entanto, Weidel está longe de ser a habitual defensora dos direitos homossexuais e da teoria de género. Quando a AfD lamentou a legalização do casamento entre homossexuais na Alemanha, dizendo "adeus à família alemã", Weidel afirmou que "ser a favor da família tradicional não significa rejeitar outros estilos de vida" e referiu a sua própria eleição para a liderança do partido como prova da tolerância da AfD. Sobre o tema do casamento entre homossexuais, considerou não ser uma prioridade no debate, afirmando: "debater o casamento para todos enquanto milhões de muçulmanos imigram ilegalmente para a Alemanha é uma anedota!" Por outro lado, Weidel disse ainda não querer para as suas crianças a "idiotice de género" ou a "sexualização das aulas".

Contraditório? Talvez. A verdade é que muitos dos partidos considerados de "extrema-direita" que têm tido sucessos eleitorais apresentam várias diferenças em relação aos seus congéneres do passado. Evolução natural ou fim de uma era? Será a AfD a "nova extrema-direita", pelo menos na opinião de Riccardo Marchi que insere o partido na família "dos partidos com agenda política eurocética, anti-imigração, anti-islâmica, mas cujas raízes não afundam nos autoritarismos do período entreguerras"? Mais ainda, como afirma este historiador italiano radicado em Portugal, será a AfD "o coveiro do neonazismo"? Recusando uma classificação binária, a análise não deixa de merecer uma atenta reflexão.

Voltando ao início deste texto, como sabemos, a AfD tornou-se o terceiro partido mais representado no Bundestag, mas não foi o primeiro partido de "extrema-direita" a ter assento no parlamento alemão. Esse lugar pertence ao Deutsche Konservative Partei - Deutsche Rechtspartei. Aliás, o percurso dos deputados desse partido eleitos em 1949 é curioso, já que dois deles se juntaram ao Sozialistische Reichspartei Deutschlands (SRP), um partido strasseriano que foi, em 1952, o primeiro partido a ser ilegalizado pelo Tribunal Federal Constitucional. Mas essa, é outra história...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Barreiras de amor...


À atenção dos nossos (des)governantes europeus. Em Copenhaga, a protecção dos peões contra possíveis "casos isolados" de a̶t̶a̶q̶u̶e̶s̶ ̶t̶e̶r̶r̶o̶r̶i̶s̶t̶a̶s̶, isto é, atropelamentos por veículos desgovernados, é feita com barreiras de amor. Estas medidas são aparentemente muito eficazes contra os fundamentalistas da "religião do amor", entre outros, servindo ainda para controlar o trânsito. Assim, apesar do sucedido em tantas cidades europeias, a paz o amor reinam, até porque nesta nossa época orwelliana "guerra é paz"...


sábado, 19 de agosto de 2017

Três perguntas a Dominique Venner sobre “Le Cœur rebelle”

Dominique Venner (16 de Abril de 1934 - 21 de Maio de 2013) 

Dominique Venner é uma das minhas referências maiores e foi por isso que não hesitei quando o meu amigo Christopher Gérard me desafiou a traduzir o seu regresso a “Le Cœur rebelle”, aquando da reedição, em 2014, de uma das obras fundamentais deste historiador meditativo”, como Venner se auto-descrevia, forjado pela tempestade. Foi um ensaio autobiográfico que muito me marcou e este oportuno regresso apenas me confirmou que este é um dos livros de Dominique Venner que urge traduzir e publicar em Portugal.


Com Dominique Venner

Numa das suas missivas, redigidas numa escrita angulosa, Dominique Venner escrevia-me que “a memória das origens é o alimento da alma”. Tão bela quanto justa – é um todo –, a fórmula ilustra o talento do seu autor, um atirador que nunca falhava o seu alvo. A bem-vinda reedição de “Le Cœur rebelle” [“O Coração Rebelde”, inédito em português], na minha opinião o seu mais belo livro a par do “Dictionnaire amoureux de la chasse”, permite-nos compreender: pegando no meu exemplar de 1994, lido com entusiasmo e júbilo, recaio sobre as minhas múltiplas anotações a lápis. Vinte anos depois da sua primeira leitura, cada frase sublinhada ainda fulmina. Que belo hino à determinação viril, que vigorosa carga contra a decadência e a resignação! O antigo cadete da Escola de Guerra de Rouffach, uma espécie de mosteiro guerreiro fundado por De Lattre, o antigo comando da fronteira tunisina, o antigo militante radical que planeará assassinar De Gaulle no Eliseu, o futuro historiador “meditativo”, Venner o espartano deixa-nos aqui o fundo do seu pensamento e, como o precisa num posfácio inédito datado de 2008, exorciza o seu passado. O cúmulo para um homem tão púdico, que detestava as histórias de antigos combatentes e a quem, paradoxo para um historiador, o seu próprio passado deixava indiferente. Nascido de uma dor e de um esforço sobre si próprio, “Le Cœur rebelle” é de alguma forma um misto do “Jeune Européen” de Drieu e de “La Guerre notre mère” de Jünger – o manual do insurgente moderno.
Sem ser ingénuo, Venner congratulava-se de ter podido conhecer “o casal divino, a coragem e o medo” outrora cantados por Drieu após a carga de Charleroi, como uma guerra quase feudal, a última (?) que deixava ainda a iniciativa ao indivíduo e não à máquina. Se não escondia a face atroz da sua guerra da Argélia, onde descobriu a crueldade pura (“uma criança triturada como uma lebre”), Venner descrevia bem a traição da retaguarda, o masoquismo odioso dos progressistas, a sua cobardia com pretensões humanitárias. Para Venner, esta guerra que nunca ousou verdadeiramente dizer o seu nome constitui uma experiência fundadora. Estou aliás convencido de que o seu suicídio foi a sua última consequência: o homem de espada, que durante tantos anos havia reprimido as suas pulsões nascidas do estrondo das armas, quis voltar a juntar-se aos seus camaradas do “djebel”, de pé, com os olhos abertos e pelo sangue derramado. Como ele escreve em “Le Cœur rebelle”, onde o tema do suicídio – o de Montherland e o do seu amigo Grossouvre, que se matou no seu gabinete no Eliseu – conclui o ensaio de maneira profética: “alcançar a sua morte é um dos actos mais importantes da vida”.
Das muitas páginas que poderiam ser citadas, escolho a última, que é de um escritor de raça e que não pode deixar de virar do avesso todas as almas de qualidade, de onde quer que elas venham: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão, das crianças loiras e dos olhares claros, da acção obstinada e dos sonhos loucos, das conquistas e da sabedoria. Sou do país onde fazemos o que devemos porque o devemos em primeiro lugar a nós próprios.”
Leiamos este livro, ofereçamo-lo às jovens almas ardentes. E saudemos Pierre-Guillaume de Roux, o editor, e Bruno de Cessole, o prefaciador, pela sua fidelidade a um amigo desaparecido.
Testemunho sobre uma juventude de tempestade, tratado estóico de saber-viver, reflexão sobre a acção, meditação sobre o trágico, “Le Cœur rebelle” ficará e encontrará novos leitores, porque este livro extraordinário ilustra o primado do estilo sobre as ideias, do instinto vital sobre as abstracções. “Le Cœur rebelle”, ou o suor e o sangue transmutados em espírito.

Christopher Gérard

Dominique Venner, Le Cœur rebelle, édition augmentée et préfacée par Bruno de Cessole, Pierre-Guillaume de Roux, 22€.



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Três perguntas a Dominique Venner
sobre “Le Cœur rebelle”

Christopher Gérard – Em “Le Cœur rebelle” evoca com simpatia “um jovem intolerante que levava em si mesmo como um odor de tempestade”: você mesmo no tempo dos combates militares na Argélia e, depois, políticos em França. Quem era então este jovem Kshatriya, donde vinha, quem eram os seus mestres, os seus autores predilectos?

Dominique Venner – É aqui que encontramos uma alusão ao “gerfaut” da sua primeira pergunta, recordação de uma época estimulante e perigosa onde o jovem que eu era acreditava poder inverter um destino contrário através de uma violência assumida. Isto pode parecer extremamente presunçoso, mas, à época, eu não reconhecia qualquer mestre. É claro, eu ia procurar estímulos e receitas no “Que fazer?”, de Lenine, ou em “Os Reprovados”, de Ernst von Salomon. Acrescento que as leituras infantis contribuíram para forjar em mim uma certa visão do mundo que no final foi muito pouco desmentida. Em conjunto, citarei “Éducation et discipline militaire chez les Anciens” [“Educação e Disciplina Militar nos Antigos”, de Marcel Poullin (1883)], pequeno livro sobre Esparta que vinha do meu avô materno, um antigo oficial, “A Lenda da Águia” de Georges d’Esparbès, “O Bando dos Ayacks” de Jean-Louis Foncine, “O Apelo da Floresta” de Jack London, enquanto não lia mais tarde o admirável “Martin Eden”. Tratavam-se de livros formadores dos meus dez ou doze anos. Mais tarde, por volta dos vinte ou vinte e cinco anos, tinha passado naturalmente a outras leituras, mas as livrarias eram então mal fornecidas. Era uma época de penúria intelectual da qual não temos ideia hoje. A biblioteca de um jovem activista, mesmo de um devorador de livros, era magra. Na minha, por entre obras históricas, figuravam “Reflexões sobre a Violência” de Georges Sorel, “Os Conquistadores” de Malraux, “Genealogia da Moral” de Nietzsche, “Serviço Inútil” de Montherland, ou ainda “O Romantismo Fascista” de Paul Sérant, revelação dos anos 60. Vemos que não ia muito longe. Mas se as minhas ideias eram curtas, os meus instintos eram profundos. Muito cedo, enquanto ainda era soldado, senti que a guerra da Argélia era uma coisa diferente do que se dizia ou do que pensavam os ingénuos defensores da “Argélia francesa”. Percebi que se tratava de um combate identitário para os europeus porque na Argélia estavam ameaçados na sua própria existência por um adversário étnico. Senti igualmente que lá defendíamos – muito mal – as fronteiras meridionais da Europa. Contra as invasões, as fronteiras defendem-se sempre para além dos mares ou dos rios.


Neste livro, que é um pouco a sua autobiografia, escreve: “Sou do país das árvores e da floresta, do carvalho e do javali, da vinha e dos telhados inclinados, das canções de gesta e dos contos de fadas, do solstício de Inverno e das festas de São João no Verão.” Que estranho paroquiano é você, afinal?

Para dizer as coisas de maneira breve, sou demasiado conscientemente europeu para em nada me sentir filho de Abraão ou de Moisés, ao mesmo tempo que me sinto plenamente o de Homero, de Epicteto ou da Távola Redonda. Isto significa que procuro as minhas referências em mim, o mais próximo das minhas origens e não num lugar longínquo que me é perfeitamente estranho. O santuário onde me vou recolher não é o deserto, mas a floresta profunda e misteriosa das minhas origens. O meu livro sagrado não é a “Bíblia”, mas a “Ilíada”, poema fundador da psique ocidental, que atravessou miraculosa e vitoriosamente os tempos. Um poema que vai às mesmas fontes que as lendas célticas e germânicas de que manifesta a espiritualidade, se nos dermos ao trabalho de o decifrar. No entanto, não esqueço os séculos cristãos. A catedral de Chartres faz parte do meu universo da mesma forma que Stonehenge ou o Partenon. Esta é a herança que é necessário assumir. A História dos europeus não é simples. Depois de milénios de religião indígena, o cristianismo foi-nos imposto por uma série de acidentes históricos. Mas foi ele próprio em parte transformado, “barbarizado” pelos nossos antepassados, os bárbaros, os francos e outros. Foi amiúde vivido como uma transposição dos cultos antigos. Atrás dos santos, continuou-se a celebrar os deuses familiares sem se fazer grandes perguntas. E nos mosteiros recopiavam-se os textos antigos sem necessariamente os censurar. Esta permanência é ainda verdadeira hoje em dia, mas sob outras formas, apesar dos esforços da predicação bíblica. Parece-me necessário ter em conta a evolução dos tradicionalistas que constituem tantas vezes ilhas salutares, opondo ao caos ambiente as suas famílias robustas, as suas crianças numerosas e o seu agrupamento de jovens em boa forma. A perenidade da família e da pátria que eles reclamam, a disciplina na educação, a firmeza nas provas não tem evidentemente nada de especificamente cristão. São réstias da herança romana e estóica que a Igreja mais ou menos assumiu até ao início do século XX. Inversamente, o individualismo, o cosmopolitismo actual, o culpabilismo são heranças laicizadas do cristianismo, como o antropocentrismo extremo e a dessacralização da Natureza nos quais eu vejo a fonte de uma modernidade faustiana enlouquecida de cujos efeitos pagaremos um elevado preço.

Em “Le Cœur rebelle” diz também: “Os dragões são vulneráveis e mortais. Os heróis e os deuses podem sempre regressar. Não há fatalidade a não ser no espírito dos homens.” Pensamos em Jünger, que conheceu, que via em acção Titãs e Deuses…

Matar em si próprio as tentações fatalistas é um exercício que não tolera descanso. Quanto ao resto, deixemos às imagens o seu mistério e as suas múltiplas radiações, sem as apagar com uma interpretação racional. O dragão pertence desde a eternidade ao imaginário ocidental. Ele simboliza umas vezes as forças telúricas, outras as forças malignas. Foi pela luta vitoriosa contra um monstro que Hércules, Siegfried ou Teseu acederam ao estatuto de herói. À falta de heróis, não é difícil reconhecer na nossa época a presença de diversos monstros, que eu não creio que sejam invencíveis mesmo que o pareçam.

Entrevista feita por Christopher Gérard para a revista “Antaios”, em 2001.