terça-feira, 15 de agosto de 2017

A um Amigo que partiu

José Rebordão Esteves Pinto (1932 - 2017)
Volto a escrever n’O DIABO com tristeza e saudade. Regresso à que foi para mim uma segunda casa para registar no papel e gravar na memória do nosso jornal a importância de um Amigo que partiu. Aos leitores é escusado repetir o que o esforço do José Esteves Pinto, como ele assinava, representou num país onde a Imprensa, os partidos e até as pessoas se tornaram cada vez mais formatados, cópias mal feitas de uma cópia, sem pensamento crítico, valores ou vontade – meros repetidores da norma vigente, do que é “politicamente correcto”, desprovidos de alma.

O que me interessa contar é como o Rebordão, como os Amigos lhe chamavam, me marcou, desde a primeira vez que o li até à nossa última conversa, passando pelo dia em que me confiou a direcção de O DIABO.

Como escrevi no meu primeiro editorial como director, no agora longínquo ano de 2011, este foi um jornal com o qual, literalmente, cresci. Lia-o avidamente e saltava sempre da primeira para a última página, para ler as “Coisas d’O Diabo”. Eram comentários mordazes e acutilantes, mas também ácidos e por vezes até corrosivos. Quem diria que um dia seria eu a escrevê-los e que, mesmo com os elogios de tantos leitores, só me satisfiz com a aprovação do “mestre”, como bom aprendiz que fora?

Lera-o e conhecia a sua mitologia, mas foi num jantar com amigos que pela primeira vez o ouvi e ri com as suas histórias como se nos conhecêssemos desde sempre... Estou seguro de que foi essa amizade franca, característica dos combatentes que se reconhecem, que o fez – sem hesitar, pelo que me garantiram – confiar-me a hercúlea tarefa de continuar o nosso jornal. Acompanhou o meu trabalho à distância e sem interferir, como só consegue fazer quem não tem dúvidas na sua escolha.

A última vez que o vi foi em tribunal, em mais um processo contra o jornal, e foi arrebatadora a forma como, à medida que o seu tom de voz aumentava e as suas palavras incendiavam os corações de um lado e chamuscavam os argumentos do outro, mostrou que o seu fogo interior não havia perdido o fulgor.

Quando saí de O DIABO, compreendeu. E continuámos a falar regularmente. Foi um período de amizade amadurecida. Entendi finalmente porque é que nunca cedera a dar-me uma entrevista, porque há histórias que são para alguns e não para os demais, e recordei com ele as nossas leituras e algumas aventuras.

Num dos livros de que tanto gostávamos, “Como o tempo passa...”, Brasillach escreveu que a forma mais bela da coragem é a lucidez. Palavras sábias que me recordam um camarada.
Por tudo isto e por sentimentos que nem as palavras conseguem expressar, a notícia da sua morte sugou-me as forças e deixou-me cabisbaixo. Mas olhei para cima e pensei que, onde quer que esteja, está a olhar para ‘isto’ e a rir-se desta cambada com que nunca se identificou e sempre denunciou. Foi essa certeza que me fez respirar fundo e dar uma gargalhada – com ele. Adeus, meu Amigo!

Publicado na edição desta semana de «O Diabo».

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O regresso dos agentes espácio-temporais


Valérian e Laureline foram mais uns daqueles heróis de Banda Desenhada que preencheram o imaginário da minha adolescência. A propósito da sua recente transmutação em filme, o «Público» teve a óptima ideia de republicar a colecção integral em álbuns duplos. É pena que não tenha optado pela edição em capa dura, mas está de parabéns por continuar a não ceder à crescente imposição do famigerado Acordo Ortográfico. Assim, podemos reler as aventuras da mais famosa dupla de agentes espácio-temporais tal e qual como quando éramos jovens sonhadores.

Relativamente ao filme, realizado por Luc Besson e que tenta levar estes heróis (ou uma versão deles) para o mercado do outro lado do Atlântico, tenho as maiores reservas, mas ainda assim tenciono vê-lo. O Eurico de Barros, que é um apreciador da BD como eu, escreveu que mesmo com reservas, "o filme é muito mais potável do que um apreciador da série de BD desde a primeira hora (como é o autor destas linhas) poderia temer, sobressaindo clara e positivamente de entre tudo o que tem sido feito nesta ingrata área das adaptações de BD franco-belga ao cinema." Veremos...

sábado, 15 de julho de 2017

Evocação de Carl Schmitt



Alain de Benoist convidou Alexandre Franco de Sá e Aristide Leucate para uma emissão de "Les Idées à l'endroit", na TV Libertés, sobre Carl Schmitt. Nesta óptima evocação do jurista, filósofo e politólogo alemão, que continua tão desconhecido entre nós, o único defeito foi a curta duração do programa... A (re)ver!

domingo, 9 de julho de 2017

Um Verão com Homero


Há uma semana, o escritor-viajante Sylvain Tesson iniciou uma excelente série de emissões radiofónicas, aos sábados na France Inter, sob o tema "Um Verão com Homero". Os dois programas já transmitidos estão disponíveis online e quem ouvir este óptimo regresso aos clássicos não vai querer perder o resto da série.

A propósito da Ilíada, diz Tesson: «Um poema, surgido da memória, explode na eternidade. Como explicar que uma narrativa com mais de 2500 anos, brotado do mar eterno, soa aos nossos ouvidos com tanta juventude, com um borbulhar tão vivaz que rebenta numa encosta de mármore. Porque é que estes versos parecessem ter sido escritos esta manhã por um irmão imortal muito velho para nos ensinar de que serão feitos os amanhãs?» Irresistível...

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Philippe Conrad fala sobre D. Sebastião



Philippe Conrad, director de "La Nouvelle Revue d'Histoire", fala sobre D. Sebastião, a Batalha de Alcácer-Quibir, os falsos D. Sebastião, a crise sucessória, o sebastianismo e a Restauração da Independência, na mais recente emissão de "Passé Présent", o programa da TV Libertés dedicado à História.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A terra devastada é a nossa...


A terra devastada é a nossa. Não é um lugar longínquo que mora na televisão.
A gente massacrada é a nossa. Não é um punhado de velhotes descartáveis.
A terra devastada é a nossa. Pela incúria dos que tanto falam e nada fazem.
A gente massacrada é a nossa. Assassinada por irresponsáveis sem absolvição.
A terra devastada é a nossa. Maltratada, mas com possibilidades inimagináveis.
A gente massacrada é a nossa. Raízes humanas de ermos onde já poucos vivem.
É nossa a terra devastada. Que nem desta vez nos servirá de lição.
É nossa a gente massacrada. Filhos do País que afinal são dispensáveis.
É nossa a terra devastada. E nada mudará, todos o sabem.

domingo, 7 de maio de 2017

Submissão


No dia da vitória de Emmanuel Macron, é de recordar uma passagem de "Submissão", o romance assustadoramente premonitório de Michel Houellebecq:

"A progressão da extrema-direita tornara as coisas um pouco mais interessantes ao trazer para os debates o esquecido calafrio do fascismo; mas só em 2017 é que as coisas começaram verdadeiramente a mexer, com a segunda volta das presidenciais. Siderada, a imprensa internacional assistiu então ao vergonhoso espectáculo, embora aritmeticamente inelutável, da reeleição de um presidente de esquerda num país cada vez mais abertamente de direita. Poucas semanas depois do escrutínio eleitoral, espalhou-se em todo o país uma atmosfera estranha, opressiva, uma espécie de desespero sufocante, profundo, embora aqui e ali atravessado por assomos insurreccionais. Nessa altura, muitos foram os que optaram pelo exílio. Um mês depois dos resultados finais, Mohammed Ben Abbes anunciou a criação da Fraternidade Muçulmana."

sexta-feira, 5 de maio de 2017

A Direita francesa, as eleições presidenciais e Marine Le Pen


Há dois anos entrevistei o Bruno Garschagen, professor de Teoria Política, autor e tradutor, a propósito do seu livro “Pare de acreditar no Governo. Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado”. Apesar das nossas diferenças, mantivemos o contacto, a amizade e o salutar debate de ideias. Desta vez, a propósito das eleições presidenciais francesas, os papéis inverteram-se e fui eu o entrevistado. Aqui fica a ligação para a entrevista que dei ontem em directo, uma óptima experiência que, assim espero, seja útil à compreensão do que está em jogo no próximo dia 7 de Maio.